Eliane Brum

Por Géssica Brandino (jornalista)

De um lado, rigor na apuração, de outro, uma profunda sensibilidade para escutar palavras, gestos e silêncios. Essas são algumas das qualidades que fazem de Eliane Brum, 45 anos, uma referência para experientes e jovens repórteres. A jornalista  de fala doce e meiga,  que se define como uma “escutadeira”, já ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem, como Esso, Vladimir Herzog, Ayrton Senna, Sociedade Interamericana de Imprensa e Prêmio Rei de Espanha.

Eliana Brum (freelancer)

Por meio da palavra ela faz um retrato perfeito da realidade, uma literatura da vida real. As reportagens constroem Eliane, assim como ela as constrói. Ao longo da carreira, decidiu buscar as histórias dos anônimos, por crer que não existe vida comum, mas sim olhos domesticados.

Trabalhou no jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, e na revista “Época”,em São Paulo. Seudocumentário de estréia, “Uma história Severina”, do qual é co-diretora e co-roteirista, ganhou mais de 20 prêmios nacionais e internacionais. Em 2010, foi co-diretora de “Gretchen Filme Estrada”, um documentário que narra a última turnê por circos mambembes do interior nordestino e a primeira campanha política da rainha do rebolado à prefeitura de Itamaracá (PE). Publicou três livros de reportagem: “Coluna Prestes: o avesso da lenda” (Artes e Ofícios, 1994), “A Vida Que Ninguém Vê” (Arquipélago Editorial, 2006) e “O Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real” (Globo, 2008). Tem uma coluna semanal no site da Revista Época e uma crônica semanal no site Vida Breve. Neste ano, lançou “Uma/ duas”, seu primeiro livro de ficção.

Repórter: Como foi a escolha pelo jornalismo e a opção pelos sujeitos anônimos?

Eliane Brum: Acho que tudo na vida é uma construção. Quando a gente começa, não sabe que está indo por esse caminho. A gente só consegue perceber depois que já fez um pedaço dele, e comigo foi assim. Desde criança, as histórias que me interessam são essas supostamente comuns. Eu sempre preferi, ao invés de brincar, escutar as histórias dos mais velhos, das pessoas da comunidade rural, onde eu passei uma parte da minha vida. Sempre me interessei por essas histórias, que são dos homens e das mulheres que constroem o país, mas que não são contados na História. Isso passa também a ser uma atitude política minha, na medida em que é uma provocação: o que é a pauta? Quem é notícia? Por que é notícia? Eu gosto sempre de lembrar que esse não é um dado por natureza, mas uma escolha política, cultural e econômica. No meu trabalho eu tento virar isso de ponta cabeça. Virar do avesso e mostrar o extraordinário contido no comum. Busco contar a história desses homens e mulheres, porque é muito cruel quando você diz que a maior parte das pessoas não merece ter a vida contada.

Repórter: Como os jornalistas podem aprender a escutar?

E.B: Aprender a escutar é, antes de tudo, uma escolha interna. É um lugar. Tu escolhe enxergar e escutar, porque tu escolhe ter medo, mas não ser paralisado pelo teu medo. Tem muita gente que vai para a rua com medo do que vai acontecer, de que a realidade desminta a sua tese, sua prova. Mas, o melhor que pode nos acontecer é quando a realidade vira nossa pauta de cabeça para baixo, quando o novo, o desconhecido vem, porque a melhor coisa da nossa profissão é o espanto. A melhor coisa é tu virar a esquina e não saber o que tem ali. Por isso que é maravilhoso ser repórter. A escuta e o olhar se dão nessa abertura para o espanto e nesse duvidar constante. O principal verbo que a gente tem que conjugar, além do olhar e escutar, é o duvidar. Comece duvidando de ti mesmo, das tuas certezas.

Repórter: Quanto tempo você demorou para escrever a reportagem “Uma família no governo Lula”? Afinal, você o acompanhou essa família durante nove anos.

E.B: Ai… eu não sei (risos). Primeiro ela virou uma palestra, depois outra palestra e depois escrevi a reportagem no início do ano. Isso foi uma construção e só percebi que tinha uma matéria feita no final de 2009. Não sei quanto tempo demorei, mas eu sempre começo a escrever dentro de mim e depois, quando vou para o computador, já está escrito.

Repórter: No livro “O olho da rua” você fala sobre seu sofrimento para escrever as reportagens. Você ainda sofre no processo da escrita?

E.B: Ah… acho que quando eu parar de sofrer para escrever as matérias é porque eu morri (risos). É uma gestação para mim. Tem sofrimento, mas também tem prazer. É deixar se possuir pela história do outro. A gente não faz isso impunemente. A vida só faz sentido se tu for marcado por ela. A reportagem só faz sentido se ela transformar a tua vida também. Se não, ela não aconteceu. Eu gosto de me jogar na vida. Essa não é uma dor paralisante, mas criadora. Uma dor que faz com que eu chegue mais perto de mim mesma.

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