Jornalismo com foco humano

Por Jessica Mota (2º ano/Mackenzie)

Com um leve sotaque mineiro, Sergio Vilas-Boas, deixou clara a diferença entre o jornalismo diário e o narrativo. “Estamos falando de personagens”. E é disso que vive o jornalismo literário. De dar voz às pessoas e a suas histórias.

Como qualquer atividade, esse tipo de jornalismo também tem diretrizes. Da pauta ao contato com os protagonistas, o jornalista deve passar por um processo cuidadoso e atento de pesquisa, organização e execução. E acontece tudo simultaneamente. “A gente escreve as coisas desde que tem a ideia”, explica Vilas-Boas, sob a leve trilha sonora do ar condicionado da sala 713.

Entre tosses e fungadas do público, o palestrante comentou sobre a inutilidade dos parâmetros da redação para esse tipo de narrativa. Diferente do jornalismo diário, a pauta narrativa nunca cai: ela se modifica. E como criar essa pauta? “Elas brotam de um entendimento que vem de dentro do autor”, poetiza Vilas-Boas.
“Às vezes você tropeça na pauta na rua, às vezes você tem um ‘insight’”. Ou a pauta pode estar na falta de pauta, também, por que não? Fazer um relato sobre como é impossível conseguir um perfil de João Gilberto, exemplo dado por um dos participantes da palestra, é uma ideia possível nesse campo.

Na narrativa do real, a fidelidade às características dos protagonistas nunca pode ser afetada. É necessário que se preserve o modo de ser e falar das pessoas. “Pegar um sujeito analfabeto e colocar um português correto é distorção do real. Um passo para a ficção”, atenta o jornalista. De latidos a carros que interferem nas cenas (ou aviões – como foi no caso da apuração desta matéria), é importante relatar as impressões que situam a realidade dos personagens.

Bagagem cultural e criatividade não podem faltar ao profissional dessa área. Os temas e personagens precisam ser originais. Para isso, Vilas-Boas dá as dicas: “Saia um pouco da sua estrada habitual. Mude seus hábitos”. Em vez de fazer entrevistas, converse. O relacionamento com os personagens é muito importante para a “literatura da realidade”. É preciso quebrar o gelo, compartilhar a vida com o personagem, de igual para igual. E encarar a possibilidade de ser o assunto da matéria. “Esse negócio de que o jornalista não pode ser personagem da reportagem é legal, mas para outro tipo de coisa”, sentencia Vilas-Boas. Longe das técnicas pragmáticas das redações, o jornalismo narrativo exige humanização.

A palestra Jornalismo literário: pesquisa e conservação foi realizada das 14h às 15h30 de 1º julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi: Sergio Vilas-Boas (cotato@sergiovilasboas.com.br).

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Sobre Jessica Mota

Estudante de Jornalismo, fazendo o caminho ao andar.

Publicado em 1 de julho de 2011, em Fazer jornalístico e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Esse texto conseguiu passar bem a ideia da palestra. Ótimo pra quem não tá podendo acompanhar de perto.
    “Esse negócio de que o jornalista não pode ser personagem da reportagem é legal, mas para outro tipo de coisa”. Pareceu que a jornalista conseguiu ser uma personagem na reportagem e isso deixou o texto muito mais gostoso de ler. Parabéns!

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