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Como investigar empresas privadas

Por Alexandre Dall’Ara (3º ano/ ECA-USP)

Foto: Lina Ibañez

Jornalismo econômico exige “investimento”. É preciso conhecer as leis vigentes, as leis anteriores, o funcionamento das agências reguladoras, conhecer o mercado de ações, as empresas, as pessoas por trás delas. “Você precisa saber do que está falando”, conta Elvira Lobato, da Folha de S. Paulo.

Investigar empresas é ainda mais delicado, diz a jornalista. Quando o foco são as estatais ou empresas com alguma verba que envolva o governo, alguns instrumentos podem ajudar. A repórter explica que os contratos com o Estado são sempre públicos de alguma forma. Pode-se recorrer ainda ao TCU (Tribunal de Contas da União), aos ministérios, à Receita, entre outros órgãos. A relação entre capital privado e o Estado também garante boas pautas, segundo Lobato. “Sempre que você tem dinheiro público e interesse privado você tem um campo propício para o jornalismo investigativo”.

Mas o acesso a informações de empresas privadas é mais restrito. Se as empresas têm ações negociadas em bolsa, elas devem publicar balanços públicos, o que pode ajudar na apuração.  Caso o capital seja fechado, o trabalho fica impossível, diz a repórter. A única opção, segundo ela seria conseguir uma fonte, que costuma aparecer quando existe algum tipo de disputa. “Quando têm sócios brigando, tem a possibilidade de a informação chegar ao jornalista”.

Com tantas dificuldades, Lobato conta que já chegou a comprar ações com direito a voto (ações ordinárias) de empresas para poder participar das reuniões de conselho. “É muito difícil achar alguém que te venda o pacote mínimo de ações, mas eu já consegui, paguei 200 reais”.

Elvira Lobato (Folha de S. Paulo)

Em outra investigação, sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, a jornalista conseguiu a lista de todas as rádios da Rede Record passando-se por uma anunciante. Ela ainda recorreu a estratégias mais prosaicas, como o uso de informações da própria biografia de Edir Macedo. “Se um juiz pegasse o livro e olhasse a fundo, ele condenava o bispo só pelo que está lá”.

A matéria resultou numa série de mais de 100 processos contra Lobato. Como as ações eram movidas por fiéis, em juizados de pequenas causas, não foi possível unificá-los e a jornalista conta que adotou uma estratégia de guerra junto com o jornal para se defender. “Eu tinha medo de levar uma pedrada na cabeça de algum fiel”, conta. Apesar de perambular por vários municípios brasileiros, a repórter conta que não não foi condenada em nenhum processo.

A palestra Como investigar empresas privadas foi realizada das 14h às 15h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Elvira Lobato (Folha de S. Paulo)

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Jornalismo investigativo exige planejamento e paciência

Por Luiz Felipe Guimarães ( 1º ano/ ECA/USP)

Foto: Lina Ibañez (publicitária)

Os jornalistas Leandro Colon, Matheus Leitão e Roberto Maltchik, em mesa moderada por Fernando Molica, discutiram a cobertura dos escândalos de Brasília. Apresentando suas matérias, os jornalistas provaram que para fazer jornalismo investigativo é preciso método.

“Siga o dinheiro” foi a dica dada por Matheus Leitão. O jornalista frisou que o importante não é a quantia, mas sim como está sendo usado. Como ele mesmo disse: “Às vezes a quantia desviada não passa de mil reais, mas é por isso que vamos deixar investigar e noticiar?”.

Leandro Colon, Fernando Molica e Matheus Leitão.

É preciso paciência, estar sempre atento às publicações do Diário Oficial e manter um bom contato com as fontes. “As minhas principais fontes são o Diário Oficial, os cartórios, os sites dos ministérios e, é claro, algumas particulares”, disse Leandro Colon . Para Maltchik “o trabalho do repórter investigativo não tem ‘arapongagem’, o que importa é o seu método de pesquisa das fontes, a maioria públicas”.

O moderador, Fernando Molica, brincou ao dizer que esse tipo de cobertura demanda um trabalho constante: “O manancial de roubalheira no país é muito grande. Isso aqui não é a Suécia”.

A palestra Cobertura Política em Brasília: a era dos escândalos foi realizada das 14h às 15h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Roberto Maltchik (O Globo), Matheus Leitão (Folha de S. Paulo), Leandro Colon (O Estado de S. Paulo) Moderador: Fernando Molica (O Dia)

“Os blogs se tornaram obsoletos”, diz Alon Feuerwerker

Por Vinícius Gorczeski (4ºano/Metodista)

Foto: Luana Copini (4º ano/Mackenzie)

Apuração bem cuidada, ouvir todos os atores envolvidos num processo e, assim, chegar o mais próximo possível da “verdade”. Essas são condições básicas para integrar opinião e jornalismo, principalmente nas produções para blog. Apesar da nomenclatura de blogueiro do “Correio Braziliense”, Alon Feuerwerker acredita que o conceito tenha se tornado obsoleto nos últimos três anos. Para ele, agora são as redes sociais que ditam quando e como o usuário buscará a informação que deseja.

Mas o assunto divide opiniões e causou alvoroço entre os estudantes de jornalismo que participaram da conversa com o repórter e outro blogueiro, Josias de Souza, da “Folha de São Paulo”, durante o 6º Congresso da Abraji. Souza diz ainda preferir textos de fôlego, “charmosos”, com menor aproximação entre opinião e jornalismo.

Josias de Souza (Folha de S. Paulo)

O jornalista da Folha defende uma tendência que teria se consolidado na imprensa brasileira: a interpretação dos fatos. “Não faço textos curtos porque me dizem que ninguém irá ler textos longos. Se o cara não quiser ler é opção dele, mas acho essa uma visão errada, tem de aprofundar os assuntos, esse é o papel”, diz ele.

A dinamicidade dos blogs e redes sociais gerou dúvidas entre os universitários sobre como é possível evitar erros e falhas de checagem de informações – risco maior no formato online, que por isso carregaria a fama de não ter credibilidade.

Para Feuerweker, o problema é não ser possível corrigir informações erradas ou mal explicadas depois de publicadas. “Se a informação sobre a qual o repórter opinou não se confirma, ele não tem como justificar que mudou de opinião de uma hora para outra. Fica ridículo”, declara.

Já Souza diz preferir levar “250 mil furos” a dar informação errada ao leitor. Avesso ao conceito de informação em tempo real da plataforma digital, diz preferir não fazer das possibilidades da plataforma seu “cavalo de batalha”.

A palestra Blogueiros: o jornalismo de opinião em tempo real foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Josias de Souza (Folha de S. Paulo) e Alon Feuerwerker (Correio Braziliense/Abraji)