Investigar crimes é mais do que acompanhar a polícia

Marcelo Rezende e Claudio Tognolli discutem dificuldades na cobertura policial

Por Eduardo Nascimento (3º ano/ECA-USP)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/ Metodista)

“Não tem glamour nenhum, e se você erra, pode destruir uma família”. É assim que Marcelo Rezende, 59, define o jornalismo investigativo. Desde os 17 anos na profissão, Marcelo já passou pelas maiores emissoras de televisão do Brasil e foi responsável pela entrevista, na TV Globo, com o assassino conhecido como “Maníaco do Parque”, em 2001. Em sua palestra no Congresso da Abraji comentou essa e outras duas matérias suas que considera emblemáticas para os diferentes tipos de jornalismo normalmente agrupados sobre a égide do jornalismo investigativo. “Há uma diferença brutal entre uma matéria de polícia e uma matéria investigativa”.

Outra matéria foi sobre o tráfico de cigarros na fronteira entre Paraguai e Brasil. Nesta, os jornalistas acompanham uma operação policial, o que, para Rezende, não foi jornalismo investigativo, apenas policial. “[Numa investigação,] policial é fonte, mas não é ponto de partida nem de chegada”, ele afirma. Mesmo assim, ele diferencia este trabalho de muitas matérias em que o jornalista só exibe aspectos positivos da ação policial. Para ele, esse tipo de trabalho “é uma mancha para o jornalismo, é publicidade”.

A segunda matéria foi a entrevista com o “maníaco”. Como na época o assunto era sensação nos meios de comunicação, havia uma grande fila de espera para conseguir uma entrevista. Para agilizar as burocracias, Rezende, que na época trabalhava na Rede Globo, foi direto no gabinete do governador. Com a aprovação desse, teve de convencer o juiz do caso a permitir sua entrada no presídio. O repórter diz que esse é um exemplo de uma matéria de esforço, em que a grande dificuldade é acessar a fonte – nestas, pesa muito o prestígio social do veículo e do próprio jornalista.

A última, que Rezende considera uma matéria puramente investigativa, tratava de policiais que, alegando realizar uma blitz contra o tráfico em uma favela, espancavam, extorquiam dinheiro e até executavam transeuntes, em 1998. Tudo começou dois anos antes, quando ele conheceu uma fonte que viria a lhe entregar um vídeo amador mostrando as ações da PM.

Quando o jornalista mostra a fita para a Rede Globo, a emissora queria por no ar sem apurar.  Rezende se negou a assinar a matéria caso não houvesse uma investigação sobre os personagens antes e arriscou um vazamento segurando a matéria por duas semanas. Foram 13 jornalistas trabalhando juntamente na apuração e toda informação inicial que tinham era um vídeo e a data em que foi feito.

As dificuldades vieram logo no começo, pois os repórteres tinham que identificar as pessoas para verificar a veracidade do vídeo, mas não podiam pedir ajuda nem para a PM, nem para moradores do local – pois poderiam alertar a PM, e perguntar para a Polícia era furar a si mesmo.

A pista usada então foi a placa de um dos veículos parados pelos policiais. A partir dela conseguiram o nome e endereço do dono. Rezende também pensou que um dos disparos dos policiais poderia ter acertado alguém. Perguntando no pronto-socorro mais próximo, o repórter descobriu o nome de mais um dos espancados, que acabou morrendo no hospital pelo ferimento à bala.

Com o nome e endereço dos dois em mãos, Rezende decidiu entrevistar o dono do carro, que foi arredio. Mesmo assim, o rapaz cede o nome e endereço, mas apenas porque Rezende foi bastante enfático na conversa: disse que ele com certeza morreria após a publicação do vídeo, e a única chance de sobreviver seria conversando com ele. “Não sei se é ético ou não ético, sei que atende ao interesse da sociedade”.

Para entrevistar o outro agredido, Rezende precisou fazer vigília na porta da casa de seus parentes; também o “avisou” dos riscos que corria e conseguiu uma entrevista. No dia seguinte o vídeo vai ao ar, e logo depois a Polícia Militar já liga para a redação informando o nome de todos os PMs envolvidos nos abusos – e todos são presos.

Rezende afirma que essa matéria só deu certo porque houve uma grande apuração: “uma fita que não queria dizer nada e só passou a ter voz verdadeira porque nós fizemos um trabalho de investigação, com tempo, podendo errar e correndo o risco de ser furado”. Para ele, jornalismo investigativo é um gesto de transpiração, seja na apuração, no medo de ser assassinado ou respondendo a processos na justiça.

Quando perguntado sobre suas motivações, é direto: “a graça disso é revelar algo que tenha interesse público, antes de começar, pensem se vale a pena”.

A palestra Crime: os Desafios da Cobertura Policial foi realizada das 09 h às 10h30 de 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Cláudio Júlio Tognolli. O palestrante foi Marcelo Rezende.

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Sobre Eduardo

Aprendiz de jornalista, de músico, de marceneiro e de blogueiro

Publicado em 1 de julho de 2011, em Corrupção e crime organizado e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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