Wikileaks vai processar as operadoras de cartões de crédito

Fernando Rodrigues, presidente da Abraji, media palestra com Kristinn Hrafnsson e Natália Viana

Por Andrea Rivera (4°ano/ Universidad Carlos III de Madrid – Intercâmbio na Universidade de São Paulo)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/Metodista)

O porta-voz do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson, anunciou nesta sexta-feira durante o Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, em São Paulo, que a organização ingressará, nas próximas horas, com uma ação legal contra as operadoras de cartões de crédito e instituições financeiras que suspenderam, em dezembro do ano passado, pagamentos e doações à organização. Hrafnsson entende que as empresas agiram alegando a suposta ilegalidade da ação do Wikileaks, que não teria sido comprovada por qualquer ação judicial.

“Eles fizeram este julgamento sozinhos, sem demonstrar qualquer preocupação com um processo justo. Este comportamento foi condenado pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas e é muito preocupante permitir que eles continuem a agir desta forma – disse o porta-voz da organização”.

Hrafnsson estima em milhões de euros o volume de recursos que o Wikileaks deixou de arrecadar devido ao bloqueio, já que em apenas um dia a organização conseguia arrecadar, em média, cerca de 25 mil euros por meio de doações virtuais.

“Você pode doar para a Klu-Klux-Klan, nos Estados Unidos, mas não pode doar US$ 10 ou US$ 50 para uma organização que luta pela liberdade de expressão em todo o mundo – disse o ativista e jornalista, que acredita ser este o momento de dar o troco e brigar na Justiça pelo direito de financiamento das atividades do grupo”.

Desde quando passaram a publicar uma série de telegramas do Departamento de Estado americano, no fim do ano passado, o Wikileaks e as instituições financeiras que intermediavam o pagamento de doações à causa estiveram sob intensa pressão. Uma semana depois dos documentos virem à tona, Visa, Mastercard, Paypal e outras empresas decidiram parar de processar os pagamentos à organização.

“É muito importante que cada pessoa entenda que isso não é sobre o Wikileaks, muito mais sobre o seu direito de expressão de opinião e o seu direito de ajudar a organização” – disse Hrafnsson.

Hrafnsson ainda falou sobre o trabalho dele antes de ingressar na organização, quando pertencia a uma televisão islandesa e começou a investigação sobre a crise bancária que assolou a Islândia. “De repente as pessoas perdiam casas, dinheiro… tudo e não tinham respostas. Nesse contexto os culpados foram os jornalistas, as pessoas ficaram bravas com os profissionais de imprensa por não ter previsto a crise nem informar sobre ela”. A crise forçou os jornalistas a estudarem durante messes para conseguir entender tudo o que tinha acontecido. Ele demorou uns três ou quatro meses para obter todos os dados: “era difícil conseguir informação porque os bancos estavam protegidos por uma lei que protegia o sigilo bancário, conhecida como a Lei da Mordaça. A solução passava por conseguir contatos pessoais para montar o quebra-cabeça que a economia mundial tinha virado”.

A investigação ganhou mais força quando ele descobriu o Wikileaks. “Dei uma olhada e fiquei chocado. Tinha uma lista com todos os empréstimos que os bancos tinham feito. Essa era uma nova história que ninguém tinha produzido”, falou. Esses bancos fizeram operações envolvendo milhões de libras, sem terem garantias nenhuma. Essa seria, para ele, “a história mais importante do ano, após a  crise econômica”. E quando estas notícias começaram a ser divulgadas tanto ele quanto os colegas próximos foram despedidos e o programa que veiculou as notícias foi tirado do ar. “Perdi o emprego, toda a renda e fui perseguido e processado pelas autoridades”, contou.

“Não podíamos falar sobre a crise porque estamos submetidos à Lei mordaça, mas podemos acessar a Wikileaks. Isso era hilário”.

Hrafnsson também falou sobre a parceria que o Wikileaks fez para divulgar os registros da Guerra do Iraque  e sobre o Cablegates (divulgação de documentos secretos (telegramas) da diplomacia dos EUA).  A parceria foi feita com cinco grandes veículos de comunicação, The New York Times, The Guardian, Le Monde, Der Spiegel, El País.

“Wikileaks revolucionou a mídia tradicional: a mídia como um espaço mais colaborativo e não tão competitivo”, comentou.

Ao lado de Hrafnsson estava Natália Viana, jornalista independente da agência de reportagem e jornalismo investigativo Pública, e uma das responsáveis por divulgar as informações do Wikileaks no Brasil. Dos grandes jornais, os parceiros foram a “Folha de S.Paulo” e “O Globo”. Natália contou como surgiu o convite para a colaboração.“Me perguntaram se eu podia estar em Londres em dois dias, e fui”. Durante quatro meses, quinze jornalistas independentes se reuniram para analisar cerca de três mil documentos. Agora este trabalho pode ser visto no site da “Pública”. A escolha do Wikileaks por um site independente tem a ver, segundo ela, com a natureza do meio.  Os grandes jornais são pautados pela factualidade, já Pública não se importa em divulgar documentos e informações que não sejam atuais. A jornalista também enfatizou que o grande interesse da organização não é dar furo, e sim fazer com que este material repercuta, seja amplamente utilizado por qualquer meio de comunicação.

 A palestra Wikileaks – impactos dos vazamentos para o jornalismo investigativo foi realizada das 09h às 10h30 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Fernando Rodrigues (e-mail frodriguesbsb@uol.com.br). Os palestrantes foram:  Kristinn Hrafnsson (e-mail kristinn@ruv.is) e Natalia Viana (e-mail viana.natalia@gmail.com).

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Sobre Victor Santos

Jornalista pela Unesp/Bauru.

Publicado em 1 de julho de 2011, em Fundamentos da Reportagem e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

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