Sergio Vilas-Boas

Por Jessica Mota (2º ano/Mackenzie)

Sergio Vilas-boas

Sergio Vilas-Boas é escritor e professor de pós-graduação em Narrativas do Real. Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Autor de “Biografismo”, “Biografias & Biógrafos” e “Perfis”, entre outros. Venceu do prêmio Jabuti em 1998 com o romance “Os Estrangeiros do Trem N”. Nesta entrevista, ele dá um panorama do jornalismo literário no Brasil e quais as estratégias necessárias para melhorar essa produção em nosso país.

Repórter: Como você define o jornalismo literário? É mais que um estilo?

Sergio Vilas-Boas: O jornalismo literário é uma maneira diferente de fazer jornalismo. É uma maneira mais aprofundada, que gira em torno da vivência de personagens. A razão de ser do jornalismo narrativo ou literário é a existência de protagonistas, de pessoas que falam sobre suas experiências pessoais, como viveram, e o que pensam da vida e do mundo.

Repórter: Em que espaços esse estilo cabe? Por que não é tão encontrado nas redações?

SVB: Há 20 anos ele não era encontrado porque havia uma aversão no Brasil a esse tipo de jornalismo. Hoje ele não é encontrado porque não há muita gente que saiba fazer, porque ainda é uma prática muito idealizada. Ela é muito concreta, tem parâmetros claros, tem métodos e técnicas muito claros, mas nem todo mundo sabe usar. E às vezes usa mal e deforma o processo, ou seja, em vez de contribuir para o campo, atrapalha.

Repórter: Para Carlos Heitor Cony, a princípio, o romancista não tem leitor. Já o jornalista tem um compromisso obrigatório com o leitor e com o dono do jornal. Como conciliar essas duas perspectivas dentro do jornalismo literário?

SVB: O jornalismo literário está a serviço de uma empresa, mas está a serviço, também, desse trabalho autoral. O leitor de jornalismo narrativo compra o autor. Ele não compra a empresa jornalística, nem o chefe. Ele compra o autor. Então, se a empresa não permitir que autores cresçam, não tem como isso acontecer. Mas não quer dizer que ele não está a serviço de uma empresa. Embora seja autoral, ele está a serviço de uma empresa. Para realiza-lo [o trabalho de jornalismo literário] é preciso estar em sintonia com os interesses dessa empresa, como é em qualquer outra atividade jornalística.

Repórter: Fugir da ditadura da pauta e do espaço seria a raiz para a produção de um bom jornalismo literário?

SVB: Tem que fugir da ditadura da pauta. Isso é decisivo. Mas não é tão importante quanto saber fazer. Porque a gente vê no dia-a-dia, nas grandes empresas, pautas típicas de jornalismo literário para desenvolver personagens, para atingir compreensão sobre um assunto ou sobre uma pessoa, mas não são realizadas porque [os jornalistas] não sabem fazer. Porque o imperativo da formação pura, supostamente isenta, prevalece sobre outros sentidos e o jornalismo literário não trabalha com esse sentido fixo, rígido. O que o autor conseguir fazer é o que foi possível dentro daquela faixa de tempo e com as estruturas que ele tinha. Então ele [o jornalista] não está ali pra oferecer respostas. No dia-a-dia, existe essa ambição: oferecer as respostas e verdades. Aí não tem jeito.

Repórter: Até que ponto você acha que a pouca produção do jornalismo literário é culpa do leitor? Até que ponto é culpa do próprio jornalista?

SVB: O leitor nunca pode ser culpado de nada. Nunca, nunca, nunca. Nunca pode se dizer que o leitor gosta de esculhambação, de mulher pelada, de jogo de futebol. Você nunca pode esculhambar o leitor dessa maneira. Existe leitor para tudo. Existe público para tudo. Existem pessoas interessadas em tudo quanto é tipo de profissão e de atividade. Se uma matéria não sai bem no jornalismo narrativo, nunca é culpa dos personagens envolvidos. É culpa do autor. Sempre a culpa é do narrador. Esse negócio de culpar leitor por causa disso e daquilo é um absurdo. As pessoas não estão aí para serem culpadas. Elas não pediram nada, né?

Repórter: Quais as perspectivas para o jornalismo literário brasileiro?

SVB: As perspectivas futuras são as mesmas que acontecem nos Estados Unidos sobre as quais o Rosental falou de manhã [na homenagem do dia 1º de julho]. A gente vai ter que ter uma formação mais empreendedora, a gente vai ter que investir. As escolas de comunicação e jornalismo vão ter que investir mais em múltiplas maneiras de fazer jornalismo e não apenas naquelas que servem ao funcionário, ao futuro prestador de serviços de grandes empresas. Vão ter que fazer coisas que enalteçam e façam florescer o indivíduo, o autor, o cara capaz de criar caminhos e não esse ser subserviente, treinado para achar que vai derrubar o mundo. E não vai. Daí ele chega lá e se frustra, quer se matar, quer largar a profissão. É preciso romper com esse círculo vicioso. Incentivar novas maneiras de trabalhar e não apenas ser o âncora do Jornal Nacional.

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