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Investigação nos esportes: “Para perturbar os poderosos”

Por Marta Santos (2º ano / PUC-SP)

Para Andrew Jennings, único jornalista banido de todas as conferências da FIFA, o trabalho do repórter é de perturbar os poderosos. “A gente tem que fazer reportagens agressivas, as pessoas gostam de reportagens assim”,  afirma. Para ele, é desta forma que as pessoas veem a realização de um bom trabalho jornalístico.

Durante sua palestra, Jennings apresentou diversos documentos e fotos que mostram as relações entre empresas de marketing e os dirigentes de instituições esportivas. Ele conta que demorou 9 anos para conquistar a confiança da fonte que lhe passou os documentos, mas que ela aprovava o seu trabalho, e por isso lhe entregou os papéis.

Nesses documentos aparecem nomes como o de Nicolas Leoz, atual presidente da Confederação Sul-americana de Futebol (CONMEBOL), Issa Hayatou, um dos vice-presidentes da Federação Internacional de Futebol (FIFA), e Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Todos acusados de receber propina da agência suíça de marketing esportivo “International Sports &Leisure”, conhecida como ISL.

Ao se referir a João Havelange, ex-presidente da FIFA e atual membro do Comitê Olímpico Internacional (COI), como “o poderoso chefão”, Jennings afirma que ele também aparece em escândalos envolvendo a mesma empresa. As investigações do caso começaram depois que a BBC colocou no ar o programa que apontava para a suspeita de que Havelange e Ricardo Teixeira teriam recebido suborno nos anos 90.

Outro nome muito citado foi o de Orlando Silva, Ministro do Esporte. Em 15 de junho, ele teria afirmado que Ricardo Teixeira deve ser considerado inocente, pois não estava sendo investigado pela FIFA. Para Jennings, não há investigação porque Teixeira é “protegido”. O jornalista acredita que é vergonhoso para o Brasil achar que o país depende dessas pessoas para realizar a Copa do Mundo.

Andrew Jennings (Panorama BBC)

Participando de uma entrevista coletiva com o atual presidente da FIFA, Joseph Blatter, relembra Jennings, todos os jornalistas normalmente faziam perguntas muito educadas, que não causam desconforto algum a Blatter. Então Jennings levantou-se e disse: “Ei, Blatter, você aceitou suborno?”. Ele afirma que não tratou o presidente com o devido respeito, pois sabia que ele era corrupto, mas conseguiu a manchete: Blatter nega ter recebido suborno.

O jornalista finalizou sua palestra com um convite aos jornalistas brasileiros. Ele sugeriu a criação de um site que abrigasse matérias e artigos sobre o país, com tradução para o inglês, para que todo o mundo pudesse acompanhar. Ao terminar sua fala, diversos estudantes e jornalistas manifestaram interesse no projeto.

A palestra Investigação em esportes: conluios da FIFA e do COI”  foi realizada das 11h às 12:30h de 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada por Sérgio Xavier -sergio.xavier@abril.com.br. O palestrante foi: Andrew Jennings andrew-jennings@btconnect.org

Violência agrária no Brasil é menos pautada por correspondentes, afirma jornalista

Por Taina Mansani (Cientista Social/ USP e jornalismo/ Cásper Líbero)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/Metodista)

Nos últimos anos, o tema da violência agrária no Brasil perdeu espaço no noticiário internacional. A redução dos casos de conflitos agrários e a desmobilização do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) são alguns dos motivos. A avaliação é da correspondente internacional no Brasil do jornal argentino “Clarín”, Eleonora Gosman.

Eleonora Gosman (Clarín)

“Vamos reconhecer que durante o período Lula a atividade do MST foi menor, seja porque estavam muito ligados ao PT, ou por outros motivos”, acrescenta. Outra dificuldade apontada pela jornalista é a distância entre as regiões do Brasil. “Por ser um país grande, para quase tudo é preciso avião”, afirmou.

A última notícia sobre o tema violência agrária noticiada por Gósman foi a morte da missionária Dorothy Stang (2005), decorrente de conflitos agrários contra fazendeiros. Desde então, ela tem feito coberturas mais relacionadas a temas econômicos.

Apesar de perder espaço no noticiário internacional, o problema persiste no Brasil. No último dia 24 de maio o casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foi assassinado a tiros no Pará, por conta de conflitos contra a ação de madeireiros.

A palestra O Brasil visto de fora: o trabalho dos correspondentes foi realizada das 9h as 11h30 no dia 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi a jornalista Eleonora Gosman (Clarín).

“Investigamos para informar, não para punir”

Por Camila Moura (2º ano/ FIAM)

Quando falamos sobre ética no jornalismo, um assunto recorrente é a utilização de gravadores, câmeras escondidas, e o uso de falsa identidade por parte do profissional. Eduardo Faustini, o repórter sem rosto do Fantástico, defende a utilização desses artifícios desde que o conteúdo exposto seja de interesse público.

“Esse país é roubado todo dia, o jornalismo investigativo no Brasil é um dos melhores do mundo porque nossa matéria prima é farta”.

Faustini revelou que a matéria sobre a segurança dos aeroportos que foi ao ar em janeiro deste ano, na qual ele desembarca nos principais aeroportos do país com uma AR15 na mala sem ser pego, surgiu depois que uma funcionária do aeroporto disse que ele não poderia embarcar com um cortador de unhas, visto que a lixa seria pontuda e ia contra as normas de segurança.

Palestra com Eduardo Faustini (TV Globo)

Essa matéria reforça a glamourização que o público faz em torno do uso das micro câmeras. “A micro câmera quebrou a barreira do padrão Globo de qualidade, pois a imagem é extremamente ruim e o áudio é absolutamente condenável. Um material muito pobre em qualidade técnica, mas muito rico em informação e emoção”, afirma Tyndaro Menezes, também jornalista da TV Globo e mediador.

A dificuldade é encontrar no mercado, equipamentos de qualidade, que deem segurança para trabalhar. “Se você tem uma câmera é como se não tivesse nenhuma, se você tem duas, uma delas poderá funcionar, e se tiver três, pode ter a sorte que duas funcionem bem”.

Para ambos os profissionais, as reportagens de televisão dependem extremamente de imagens, áudio e vídeo.

A palestra Investigação em TV: câmera escondida e outros métodos foi realizada das 9h às 11h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Eduardo Faustini (TV Globo)

Desafio econômico de Dilma Rousseff está na sustentabilidade

Por Vinicius Gorczeski (4° ano/ Metodista)

Foto: Lina Ibañez

Não é só a elevação dos preços – conhecida e repetida com frequência nos jornais como inflação – que a presidente Dilma Rousseff terá de enfrentar na política econômica. A insistência do indicador do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), em bater no teto da meta de inflação do Banco Central, que no acumulado 12 meses está em 6,77% (o valor máximo estipulado é de 6,5%), não é nem o principal problema, segundo a colunista de “O Globo” Miriam Leitão.

Miriam Leitão (O Globo)

Questões sustentáveis, como a preservação da Amazônia, que cobre 60% do território brasileiro, e demais regiões, cobertas por mata Atlântica, cujas áreas remanescentes não superam os 7%, serão assuntos a serem discutidos e reportados pelos futuros jornalistas econômicos. Temas se unem porque, segundo Leitão, falar de um é falar de outro. Escassez de recursos naturais é sinônimo de perda de dinheiro.

“Quanto custa para o país manter ou não suas reservas em prol do desenvolvimento econômico? Entendo a biodiversidade da Amazônia como uma floresta não desbravada. Imagine queimar essa biblioteca sem conhecê-la”, diz. Ela comenta que esses dilemas ainda esbarram em práticas ilegais, como na exploração de madeira e uso de carvão ilegal na siderurgia. “Não sejamos ingênuos, empresas fazem vistas grossas sobre como os fornecedores obtêm suas matérias primas de seus respectivos distribuidores”, diz Leitão, ao destacar que o papel do jornalista econômico também está em fiscalizar a cadeia de distribuição desses recursos a fim de checar ilegalidades – quanto a dinheiro e recursos naturais.

Outra crítica quanto ao tema é o desenvolvimento versus preservação ambiental. Para sustentar a ideia, a colunista cita a construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará. A promessa governamental é de que a obra oferecerá 11 mil megawatts de energia. “Isso é uma mentira. A capacidade média de geração é de 4,5 mil megawatts, e há especialistas que apontam que isso será possível apenas por dois meses do ano, nos demais não haverá, por conta do clima, com muita seca, capacidade para essa quantidade”, critica. “Será que vale a pena tanto desmatamento com a contrapartida do que Belo Monte vai conseguir propiciar?”, completa, ao questionar sobre a razão pelas quais alternativas de desenvolvimento energético não são adotadas, como a eólica ou a solar; não poluentes e que não desapropriariam moradores locais – caso da população que mora nos entornos da barragem de Belo Monte.

Aumentando a complexidade da discussão, Leitão também comenta se, apesar de tudo, é possível ignorar o potencia hídrico da Amazônia para produção de eletricidade. “Essa é a fronteira da discussão: o que vale mais?” – temas para os futuros repórteres de economia ajudarem a responder.

INFLAÇÃO

Autora do livro “A saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda”, em que reporta a evolução do poder de compra do dinheiro no Brasil, com hiperinflação há 30 anos, Leitão afirma que a preocupação atual da imprensa em torno do indicador é forma de pressionar por ações que mantenham os níveis estáveis, ao contrário de uma época em que os preços variavam ao longo de um único dia. Índices que superaram, em 15 anos que antecederam a execução do plano real, a impressionante soma de 13 trilhões e 342 bilhões por cento.

“Fiquei ainda mais feliz de ver que nosso trabalho serviu para explicar todas as mudanças complexas, planos fracassados para conter a inflação, e como o cidadão precisa agir sob novas políticas”, comemora Leitão.

Ela afirma que, durante a apuração do livro, percebeu que, apesar de sucessivos planos fracassados para tentar recolocar a economia nos eixos o brasileiro mantinha crença de haveria uma solução para o aumento de preços. A constatação de Leitão é de a população aprendeu a “gostar de viver com inflação em níveis baixos”. Isso porque, proporcionalmente, o poder de compra do dinheiro é maior.

Apesar de lançar luz sobre a inflação, Leitão também destacou que a ideia era mostrar a turbulência pelo qual passou o país em 30 anos, com muitas trocas de ministros da fazenda, calotes e o consumidor, que em meio ao “tumulto” buscou fiscalizar e entender todo o processo de perto.

A palestra Cobertura Econômica: desafios no governo Dilma foi realizada das 14h às 15h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: MiriamLeitão (Globo) miriamleitao@oglobo.com.br, Moderador: SergioLeo (Valor Econômico)