Arquivo da categoria: Corrupção e crime organizado

O jornalista de investigação, peça clave na imprensa de fronteira

Por Andrea Rivera (4°ano/ Universidad Carlos III de Madrid/ Intercâmbio na Universidade de São Paulo)

“No Paraguai, a imprensa é o meio de comunicação que mais influencia exerce sobre a população e, além disso, é muito melhor do que a imprensa brasileira”, indicou o mediador José Roberto de Toledo na apresentação da palestra “Investigação transnacional: as conexões do PCC com o narcotráfico no Paraguai”, que contou com a presença do jornalista paraguaio Rosendo Duarte como palestrante.

A conferência foi uma explicação de como o Primeiro Comando da Capital (PCC) se tornou a principal organização criminosa no Paraguai, embora esteja presente em toda a América Latina. Além disso, Duarte prestou uma especial dedicação para a cidade Salto del Guairá, na que o PCC teve a sua origem no país vizinho.

Rosendo Duarte (ABC Color)

Como a principal atividade do PCC no Paraguai destaca o comércio de drogas, principalmente a a maconha, considerada a melhor do mundo. Essa atividade se vê facilitada pelo fato de que no Paraguai são utilizadas aproximadamente de 3 a 5 mil hectares por ano para a produção de marijuana dedicada ao consumo externo, superfície de terra que rende uma produção que oscila entre os 9 e 15 milhões de quilogramas.

Para combater essa realidade, foi criada a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) a qual, no ano passado, destruiu 1,013 hectares de terra dedicada à plantação de maconha, o que daria uma produção de 3,040,000 quilogramas.

Historicamente, o tráfico de drogas e armas no Paraguai começa com a instauração da República, fato que se viu motivado com que a marijuana é nativa do país e desde sempre foi utilizada pela comunidade dos Guaranis nos seus rituais e cultos. Hoje, foram trazidas da Europa sementes modificadas que oferecem uma maior qualidade e, na composição, 22% a mais de uma droga ainda mais forte, a THC, a abreviação para tetrahidrocanabinol, um composto químico encontrado na planta cannabis, que, quando usado, seja através de ingestão ou inalação, em doses baixas atua como redutor da dor e pode reduzir a agressividade, estimular o apetite e ajudar a reduzir a náusea. Em doses elevadas podem levar a alterações na percepção de tempo e espaço, sentimento de felicidade, ou sentimentos de fadiga.

O PCC chegou ao Paraguai entre os anos 2004 e 2005 e foi constituído, na sua maior parte, por delinquentes que fugiram do Brasil. Não obstante, também conta com os chamados “soldados brancos”, isto é, fichas limpas que unicamente vão fazer negócios de contrabando ou de abastecimento de entorpecentes, e voltam para o Brasil. Os delinquentes que se afiançam no país vizinho procuram uma nova identidade, tanto brasileira quanto paraguaia, ajudados pela corrupção policial existente.

Dentro dessa situação em que os delinquentes conseguem novas identidades, para Duarte resulta hilário que eles nunca são reconhecidos digitalmente, nem no Paraguai nem no Brasil, situação que facilita a sua ocultação, e dificulta o conhecimento real de quem são.

Outra realidade que resulta incoerente para Duarte é o fato de que as armas e as drogas não encontram resistência nas fronteiras. Seguindo esta linha, o palestrante considera que o grande problema que o jornalismo investigativo tem no Brasil é que não se investiga como é possivel o transporte dessas armas e drogas quilômetro atrás de quilômetro sem nenhum impedimento.

Os assistentes à palestra também puideram conhecer a história de Cándido Clovi, quem foi conhecido como Adrian Alex Lima e como “Cabelo”, homem que levou o estilo do PCC ao Paraguai em 2005 e se viu envolvido em vários atracos e assasinatos perpetrados em Salto del Guairá.

Para Duart, existe uma “necessidade de trabalhar conjuntamente no jornalismo investigativo”, embora esse tipo de jornalismo não seja fácil” pois, no seu caso pessoal, tem que ter viver com um policial nas suas costas, situação que apontou ser “comum na imprensa de fronteira”.

A palestra Investigação transnacional: as conexões do PCC com o narcotráfico no Paraguai foi realizada das 11h às 12h45 de 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista José Roberto de Toledo (toledo@abraji.org.br). O palestrante foi:  Rosendo Duarte (Rduarte@abc.com.py) (

“Investigamos para informar, não para punir”

Por Camila Moura (2º ano/ FIAM)

Quando falamos sobre ética no jornalismo, um assunto recorrente é a utilização de gravadores, câmeras escondidas, e o uso de falsa identidade por parte do profissional. Eduardo Faustini, o repórter sem rosto do Fantástico, defende a utilização desses artifícios desde que o conteúdo exposto seja de interesse público.

“Esse país é roubado todo dia, o jornalismo investigativo no Brasil é um dos melhores do mundo porque nossa matéria prima é farta”.

Faustini revelou que a matéria sobre a segurança dos aeroportos que foi ao ar em janeiro deste ano, na qual ele desembarca nos principais aeroportos do país com uma AR15 na mala sem ser pego, surgiu depois que uma funcionária do aeroporto disse que ele não poderia embarcar com um cortador de unhas, visto que a lixa seria pontuda e ia contra as normas de segurança.

Palestra com Eduardo Faustini (TV Globo)

Essa matéria reforça a glamourização que o público faz em torno do uso das micro câmeras. “A micro câmera quebrou a barreira do padrão Globo de qualidade, pois a imagem é extremamente ruim e o áudio é absolutamente condenável. Um material muito pobre em qualidade técnica, mas muito rico em informação e emoção”, afirma Tyndaro Menezes, também jornalista da TV Globo e mediador.

A dificuldade é encontrar no mercado, equipamentos de qualidade, que deem segurança para trabalhar. “Se você tem uma câmera é como se não tivesse nenhuma, se você tem duas, uma delas poderá funcionar, e se tiver três, pode ter a sorte que duas funcionem bem”.

Para ambos os profissionais, as reportagens de televisão dependem extremamente de imagens, áudio e vídeo.

A palestra Investigação em TV: câmera escondida e outros métodos foi realizada das 9h às 11h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Eduardo Faustini (TV Globo)

“Não há legislação que sirva para coisa alguma se a lei não é administrada”, Abramo

Por Andrea Rivera (4°ano/ Universidad Carlos III de Madrid/ Intercâmbio na Universidade de São Paulo)

Licitações foram foco da palestra

As licitações são um tema muito na pauta, por isso, como aprimorar essa lei das licitações e contatos? Isso é o que Claudio Weber Abramo se perguntou hoje no início da palestra “Licitações: técnicas para detectar as formas mais comuns de desrespeito à lei 8666”.

Para dar resposta, há de saber se que todos os governos têm gastos e que ninguém produz o que se consume. A forma que os governos têm para comprar é mediante as licitações públicas. O que os governos não gastam em pessoal, o gastam em licitações. Quando esse dinheiro estatal não está sendo bem utilizado, é quando falamos de corrupção; no obstante, a corrupção é, para Abramo, só “um detalhe” dentro de todo o sistema no que o dinheiro público é gastado.

Abramo explicou que cada governo escolhe como faz as suas compras, pelo que as leis criadas para determinar isto são muito diferentes umas das outras. Estudos de transação são precisos para poder entrar nos mercados e, ademais, ter condições de competir.

Uma licitação é o procedimento administrativo dos diferentes entes da Administração Pública para conseguir produtos, realizar serviços ou executar obras. Esse procedimento está regulado no Brasil pela Lei 8666/93.

Nas licitações, normalmente, as entidades públicas especificam as características dos produtos, serviços ou obras que querem encomendar. Quanto mais complicado é o produto, mais especificações serão necessárias.

Essas especificações, junto com as diligencias necessárias precisam de um capital mínimo por parte das empresas, como forma de assegurar o bom funcionamento e a consecução do projeto que foi encomendado.

Uma das formas que existem para cometer uma fraude e não dar a mesma oportunidade a todos os concorrentes às licitações é a de estipular especificações técnicas muito precisas e que só a empresa que se quer que adquira o projeto cumpre.

Outra forma de criar barreiras para a entrada de empresas na licitação é impedindo que elas possam se abrir a novas oportunidades de mercado. Por exemplo, que uma empresa que trabalha com plástico não possa entrar numa licitação para a fabricação de copos de plástico porque nunca antes tinha desenvolvido essa atividade empresarial.

A fraude também pode ser encontrada quando a empresa pública subdivide, com limites absurdos, a cadeia de produção. Isto é, quando em uma licitação para adquirir cadeiras, a empresa pública pede os ferros a uma empresa, a madeira a outra, etc. O mesmo acontece quando a uma mesma empresa lhe são dadas mais competências das que está capacitada para ter; o exemplo para isto seria que uma empresa tem o controle sobre as impressoras e o serviço técnico duma empresa pública. Essas duas atividades são totalmente diferentes e independentes a uma da outra, pelo que deveriam ser coordenadas por empresas especializadas em cada área.

A formação de cartéis (acordos entre empresas concorrentes) também é uma forma de fraudar, ao igual que, quando um projeto já está em execução, a empresa que obteve a licitação não cumpre rigorosamente com as especificações técnicas pedidas pela empresa pública.

Finalmente, Abramo também mostrou o funcionamento do site Assistente interativo de Licitações, no que todas as pessoas que acessam podem comprovar se as diferentes licitações cumprem com a normativa da Lei 8666/93.

A palestra Licitações: técnicas para detectar as formas mais comuns de desrespeito à lei 8666 foi realizada das 14h às 15h45 de 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Flávio Ferreira (flavio.ferreira@grupofolha.com.br/flaviomf@uol.com.br). O palestrante foi Claudio Weber Abramo (crwa@transparencia.org.br).

O interesse público na relação com a fonte

Por Alexandre Dall´Ara (3º ano/ECA-USP)

Foto: Vinicus Gorczeski (4º ano/ Metodista) e Alexandre Dall´Ara (3º ano/ECA-USP)

Marta Solomon e Matheus Leitão durante a palestra

Marta Salomon, da sucursal de Brasília de O Estado de S. Paulo, resiste em usar o termo jornalismo investigativo. Para ela, todo jornalismo é feito de investigação. Ela reconhece, no entanto, que existem peculiaridades. “Esse jornalismo depende muito de fontes como Polícia Federal e Ministério Público”

Mas lidar com fontes não é simples, principalmente quando o trabalho envolve denúncia. “O que nos liga em termos de confiança é a certeza de que ambos temos o mesmo objetivo que é o bem público. No momento que eu descobrir que você [a fonte] está querendo me usar por interesses pessoais, desculpa, mas não tem compromisso” explica Sérgio Leo, do jornal Valor Econômico. Leo é marido de Salomon e acompanhou a palestra.

A quebra de compromisso com a fonte é uma aposta delicada, mas de acordo com Matheus Leitão, é necessária para defender o interesse público. Ele cobriu o Caso Arruda pelo portal IG e conta que Durval, autor dos vídeos que provavam a corrupção, poderia ter mais material exclusivo, mas nem por isso ele deixou de ser alvo de denúncias. “O que a gente fez foi investigar ele também porque ele era um delator, ele fazia parte do esquema”.

Miriam Leitão assistiu à palestra do filho e também comentou o compromisso do jornalista com seu público. “A gente tem que saber o nosso compromisso é com o leitor. Você constrói uma relação de confiança de parte a parte [com a fonte], mas tem de ficar claro pra você [repórter] que a prioridade é o leitor”.

Marta Solomon conversa com participantes do Congresso

Segundo Salomon, o jornalismo investigativo depende também de uma boa leitura dos jornais e do acesso às informações públicas disponíveis nos portais do governo, no Diário Oficial, em sites como o da Caixa Econômica Federal e a Transparência Brasil.

Ela contou sobre sua matéria do Primeiro Emprego. Com uma pesquisa no Siafi (sistema informatizado de acompanhamento de gastos federais), a repórter descobriu que o programa governamental só havia empregado uma pessoa em um ano de governo do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. A jornalista foi atrás do personagem, um funcionário de uma franquia de restaurantes na Bahia. “Hoje você dispõe de uma quantidade enorme de acervo de informações na internet e aí você vai em cima das fontes. É sempre bom também ter um personagem para não ficar apenas nos números.”

Mas as investigações de corrupção ou irregularidades não devem necessariamente ser uma meta do jornalismo, segundo a repórter. “Eu acho que o leitor merece muito mais do que escândalo, se eu pudesse eu escreveria muito menos sobre escândalo. Eu gosto de contar histórias”.

A palestra Investigação em Brasília – Caminhos e descaminhos do dinheiro público foi realizada das 9h às 11h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Marta Salomon (O Estado de S. Paulo – download da apresentação), Matheus Leitão (Folha de S. Paulo – download da apresentação). Moderador: Angelina Nunes (O Globo)

Links úteis:

http://www.transparencia.org.br/

http://www.portaldatransparencia.gov.br/

http://www.excelencias.org.br/

http://www.tesouro.fazenda.gov.br/siafi/index.asp

O desafio de cobrir violência pela TV

Bette Lucchese e Mônica Puga comentam detalhes da cobertura da violência no Rio de Janeiro

Por Victor Santos (2ºano/ Unesp)

Foto: Luana Copini (4º ano/ Mackenzie)

“Há situações em que ou vai ou racha”. Foi assim que a repórter do SBT Mônica Puga definiu o trabalho de quem realiza cobertura da violência em tempo real. Esse foi o tema da palestra dela e de Bette Lucchese (Globo), mediada pelo editor-chefe do RJTV 2ª edição, Marcelo Moreira.

O foco da mesa foi a cobertura da pacificação do Complexo do Alemão, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, ocupado em uma megaoperação no dia 28 de novembro de 2010. A Força Tarefa incluiu policiais militares, civis e o exército.

As duas repórteres fizeram uma contextualização dos acontecimentos que antecederam a ocupação, recordando desde a morte do repórter Tim Lopes, em 2002, até a primeira invasão policial no complexo, em 2007. “A gente estava preparada para ver uma guerra sangrenta”, comentou Bette, “os equipamentos utilizados (tanques de guerra, as próprias Forças Armadas) é que chamaram a atenção”.

Puga, que está no SBT Rio há cinco anos e meio, exibiu quatro vídeos de sua cobertura antes da ocupação, mostrando entrevistas que fez com bandidos armados e sem o uso de colete a prova de balas. “Eu sabia que podia entrar e sair da favela, porque eles queriam falar”, contou. De acordo com ela, quando um helicóptero da PM foi derrubado pelos traficantes em outubro de 2009, reforçou-se a ideia de que “ninguém podia mais conviver com aquilo”.

Lucchese e o moderador comentaram sobre a cobertura da TV Globo na ocupação, desde a invasão da Vila Cruzeiro, em 25 de novembro, até a tomada do Complexo de Alemão, três dias depois. O trabalho envolveu 200 profissionais, horas ininterruptas de transmissão e entradas ao vivo por insistência, além de uma madrugada inteira de espera pela ocupação. Entre as imagens mais impressionantes, está a fuga em massa de bandidos da Vila Cruzeiro para o Alemão.

Lucchese e Puga comentaram também as dificuldades durante a cobertura, como, por exemplo, ver crianças baleadas. “Com experiência, a gente se acostuma com as situações”, disse Lucchese. As jornalistas fizeram questão de frisar que a ocupação é apenas uma etapa, concordando com a fala de Moreira na abertura: ainda é necessário um grande investimento social para recuperar o Complexo do Alemão.

A palestra Cobertura de violência em tempo real – a ocupação do Complexo do Alemão foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Bette Luchese (TV Globo) e Mônica Puga (SBT). Moderador: Marcelo Moreira (TV Globo/Abraji)

Os Migrantes que Importam

Por Eduardo Nascimento (3º ano / ECA-USP)

Foto: Alexandre Dall’Ara (3º ano/ ECA-USP)

Oscar Martínez e Marcelo Beraba em palestra sobre sequestro e massacre dos migrantes

Todo ano são cerca de 500 mil pessoas vindas da América do Sul e Central tentando cruzar a fronteira do México com os EUA – 98% delas vindas de Guatemala, El Salvador e Honduras. Essas pessoas percorrem mais de 5 mil quilômetros, em cerca de 25 dias de viagem, a pé, de trem, com “coiotes” (pessoas que alugam veículos para transportar ilegais), indo do sul ao norte do México. E esse meio milhão de pessoas simplesmente não existe para autoridades mexicanas, passam pelo país escondidos das autoridades, com o auxílio de alguns traficantes e a ameaça de outros. Foi vivendo por 7 meses nesse ambiente hostil que o repórter Oscar Martínez, do jornal El Faro, e sua equipe produziram dois livros e um documentário, contando a história dessas pessoas e tentando explicar essa complexa migração.

O ambicioso projeto existe desde 2006, ganhou o terceiro lugar no Prêmio Latino-americano de Jornalismo Investigativo, do “Instituto Prensa y Sociedad” (IPYS) e, em 2008, deu origem ao veículo “El Faro”, um jornal digital de grandes reportagens sobre corrupção, crime organizado e migração dentro da América Latina.  Os objetivos dos jornalistas eram vários, de compreender o vínculo da migração com o crime organizado a criar um perfil dos migrantes e das pessoas que os ajudavam no meio do caminho. Um exemplo desse último foco foi um grupo de mulheres que cozinhava e lançava a comida para o trem que passava, por vezes nem vendo o rosto das pessoas que ajudavam.

Martínez, escritor do projeto, conta que foram gastos 240 mil dólares na apuração. Foram quatro jornalistas além dele: uma documentarista e três fotógrafos espanhóis. Dessa verba, 70 mil se destinaram apenas para o documentário produzido por Marcela Zamora, chamado “Maria en Tierra de Nadie” (“Maria na Terra de Ninguém”, em tradução livre), que narra a história de mulheres migrantes que se tornam prostitutas no meio do caminho. Esse time viveu sete meses junto com os migrantes, tentando se misturar. Mas, como diz Martínez, “jornalista é um ator que não devia estar lá, é uma peça desencaixada numa estrutura social. Ali ou são migrantes, ou são narcotraficantes ou são habitantes”, e a barreira da linguagem por si já levou uma semana para ser rompida.

Outra dificuldade foi o fato de que os personagens buscados formavam uma população que nunca fica no mesmo lugar por muito tempo, que chega a lugares muito inacessíveis e que não denuncia, “que considera que as autoridades são seus inimigos”. Quando a população não denuncia, parece que não aconteceu nada, e “temos que ir a terreno arrancar as histórias”. Por isso Martínez conta que o processo de preparação para se iniciar a cobertura durou um ano. Antes de ir a campo, entraram em contato com autoridades como a Secretaria de Direitos Humanos do México, mas o órgão não tinha mais informações do que os repórteres. Toda informação que conseguiram vieram de órgãos independentes, como ONGs.
Los Zeta

Os trajetos que investigaram eram em parte dominados pelo grupo armada “Los Zeta”, antigo braço armado do “Cártel del Golfo”,  que depois se tornou autônomo e passou a trabalhar no sequestro de migrantes. A lógica para sequestrar pessoas sem documento, ilegais no país é tão cruel quanto parece: o padrão para esses migrantes ilegais é possuir família residente nos EUA, que paga pela entrada e pelo coiote que os leva até a fronteira. Os sequestradores agem extorquem o dinheiro da família, o que é rápido e oferece pouco risco. Sequestrar alguém rico causa muita visibilidade, enquanto os migrantes são esquecidos pelo poder estabelecido.

Para garantir sua própria segurança os jornalistas só se identificavam para as pessoas que entrevistavam e uma vez, para fotografar crianças prostituídas, fingiram ser um fotógrafo de arte e seu coiote que o guiava.
Martínez afirma que a base para esse tipo de matéria é a permanência. Não ter permanência, para ele, é o que faz interpretar mal. “Tudo para a pessoa que não conhece é uma grande conspiração”. O repórter segue o lema de “ficar para poder descobrir com o tempo”, pois acredita que não se pode contar a história de alguém sem experimentar um pouco do que essa pessoa viveu.

Quanto aos impactos dos dois livros (um contando as histórias, chamado “Los Migrantes que no Inportan”, outro de fotografias, chamado “En el Camino – la ruta de los migrantes que no inportan”), Martínez diz não ter visto mudança substancial nas políticas do governo mexicano, e também não sabia o destino de suas fontes “A maior parte das pessoas de quem escrevi, não sei onde estão, o que lhes aconteceu” , diz. Mas o projeto ainda tem uma última etapa não concluída: chegar às comunidades de origem, destino e trânsito dos migrantes. Este “novo” projeto se chama Sala Negra e atualmente já atua na Nicarágua, Honduras, Guatemala e El Salvador.

A palestra “Os migrantes que não importam: sequestros e massacres de migrantes a caminho dos EUA” foi realizada das 14h às 15h30 de 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Marcelo Beraba. O palestrante foi Oscar Martínez, para ver as apresentações mostradas na palestra, clique aqui, mais reportagem no site do El Faro.

Bem-vindo ao mundo virtual

Mesa discute a blogosfera policial no Brasil


Por Paula Bezerra (3º ano/Mackenzie)

Foto: Lina Ibañes (publicitária)

A era digital proporcionou à população uma nova forma de ver e ser visto, a partir do crescimento e popularização das redes sociais como blogs, twitter e sites de relacionamento. Agora, pessoas que não conseguiam se impor e expressar opiniões, conseguem publicá-las em sites pessoais. Tal mudança afetou, também a imprensa e a forma de se fazer o jornalismo como um todo. Esse foi um dos temas debatidos por Fábio Gusmão, editor do “Jornal Extra”, Jorge Antônio Barros, editor adjunto do jornal “O Globo” e Anabela Paiva, assessora de comunicação da Prefeitura do Rio de Janeiro na palestra A blogosfera policial no Brasil: do tiro ao Twitter, no segundo dia do Congresso da Abraji.

Convidada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESec) para analisar a cobertura midiática em temas ligados a violência e segurança pública, a jornalista Anabela Paiva, conta que a maior descoberta foi a importância dos blogs em assuntos como esse. E não apenas os ligados a jornalistas, mas aos próprios policiais. Devido à hierarquia da profissão e importância social, muitos policiais não conseguem expressar o que sentem, veem e até mesmo se defender contra os ataques da mídia ou da sociedade. “Eles montaram o blog para mostrar o que é, de fato, ser policial, fazer denúncias sobre temas censurados, demonstrar os aspectos positivos da profissão e demonstrar o orgulho de ser policial”, afirma Paiva.

De acordo com a pesquisa realizada pela jornalista, juntamente com a coordenadora do CESec, Silvia Ramos, atualmente são encontrados cerca de 200 a 250 blogs de policiais. “Ocorreu um crescimento considerado acelerado na construção dos blogs. Em 2009 havia 70 blogs, atualmente esse número chega até 250, e a aceitação entre os próprios policiais é muito boa”, comenta.

Algumas vezes, eles servem como fonte oficial para determinadas pautas. Um exemplo disso ocorreu com a mobilização dos bombeiros em junho deste ano, no Rio de Janeiro. Os blogs S.O. S Bombeiros e S.O. S Guarda-Vidas foram muito utilizados para esclarecer dúvidas de grandes veículos de comunicação. Todavia, o editor Fábio Gusmão alerta: “é imprescindível checar as fontes, principalmente no mundo virtual”. Para ele, é dever do jornalista se comprometer com a apuração dos fatos, principalmente quando o assunto é policial.

Há três anos atuando como editor no “Jornal Extra”, Gusmão inovou o setor policial com a ideia de reportagem “3g”. A fim de dar visibilidade a casos que talvez não fosse publicado no impresso, seja pela falta de espaço, ou verba, repórteres vão às ruas e produzem vídeos com os próprios celulares; editam em notebooks e enviam o material pronto para a redação via internet 3g. “Nós percebemos o interesse do nosso público em vídeos, damos visibilidade a outros casos e não temos gastos, pois utilizamos materiais já existentes na redação”, diz Gusmão.

Complementando a colocação de Gusmão, Jorge Antônio Barros enfatizou a importância da internet para a evolução do jornalismo investigativo e policial, não só pela facilidade que os blogs proporcionam ao público, mas pela oportunidade do jornalista de se especializar no assunto. “Existe muita informação relacionada à segurança pública, o que, por muitas vezes, é deixado de lado pelos jornalistas por não saberem a relevância do tema. Com os blogs os jornalistas têm a oportunidade de pesquisar mais e apurar os dados para assim, opinar”, afirma.

Jorge Barros foi responsável pela campanha de grande repercussão no Twitter no dia 27 de junho com a hashtag ‘onde está Juan’, um menino desaparecido no Rio de Janeiro após uma ação policial. Barros conclui dizendo que os jornalistas, hoje, foram inseridos em um canal de expressão avançado, e devem utilizá-lo de todas as maneiras possíveis em prol da informação.

A palestra A blogosfera policial no Brasil: do tiro ao Twitter foi realizada das 9h às 10h30 de 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pela jornalista Anabela Paiva (e-mail anabelap@terra.com.br – download da apresentação). Os palestrantes foram:  Fábio Gusmão (e-mail fabiogusmao@globo.com – download da apresentação) e Jorge Antônio Barros (e-mail jorgeantonio.barros@gmail.com – download da apresentação).

Investigar crimes é mais do que acompanhar a polícia

Marcelo Rezende e Claudio Tognolli discutem dificuldades na cobertura policial

Por Eduardo Nascimento (3º ano/ECA-USP)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/ Metodista)

“Não tem glamour nenhum, e se você erra, pode destruir uma família”. É assim que Marcelo Rezende, 59, define o jornalismo investigativo. Desde os 17 anos na profissão, Marcelo já passou pelas maiores emissoras de televisão do Brasil e foi responsável pela entrevista, na TV Globo, com o assassino conhecido como “Maníaco do Parque”, em 2001. Em sua palestra no Congresso da Abraji comentou essa e outras duas matérias suas que considera emblemáticas para os diferentes tipos de jornalismo normalmente agrupados sobre a égide do jornalismo investigativo. “Há uma diferença brutal entre uma matéria de polícia e uma matéria investigativa”.

Outra matéria foi sobre o tráfico de cigarros na fronteira entre Paraguai e Brasil. Nesta, os jornalistas acompanham uma operação policial, o que, para Rezende, não foi jornalismo investigativo, apenas policial. “[Numa investigação,] policial é fonte, mas não é ponto de partida nem de chegada”, ele afirma. Mesmo assim, ele diferencia este trabalho de muitas matérias em que o jornalista só exibe aspectos positivos da ação policial. Para ele, esse tipo de trabalho “é uma mancha para o jornalismo, é publicidade”.

A segunda matéria foi a entrevista com o “maníaco”. Como na época o assunto era sensação nos meios de comunicação, havia uma grande fila de espera para conseguir uma entrevista. Para agilizar as burocracias, Rezende, que na época trabalhava na Rede Globo, foi direto no gabinete do governador. Com a aprovação desse, teve de convencer o juiz do caso a permitir sua entrada no presídio. O repórter diz que esse é um exemplo de uma matéria de esforço, em que a grande dificuldade é acessar a fonte – nestas, pesa muito o prestígio social do veículo e do próprio jornalista.

A última, que Rezende considera uma matéria puramente investigativa, tratava de policiais que, alegando realizar uma blitz contra o tráfico em uma favela, espancavam, extorquiam dinheiro e até executavam transeuntes, em 1998. Tudo começou dois anos antes, quando ele conheceu uma fonte que viria a lhe entregar um vídeo amador mostrando as ações da PM.

Quando o jornalista mostra a fita para a Rede Globo, a emissora queria por no ar sem apurar.  Rezende se negou a assinar a matéria caso não houvesse uma investigação sobre os personagens antes e arriscou um vazamento segurando a matéria por duas semanas. Foram 13 jornalistas trabalhando juntamente na apuração e toda informação inicial que tinham era um vídeo e a data em que foi feito.

As dificuldades vieram logo no começo, pois os repórteres tinham que identificar as pessoas para verificar a veracidade do vídeo, mas não podiam pedir ajuda nem para a PM, nem para moradores do local – pois poderiam alertar a PM, e perguntar para a Polícia era furar a si mesmo.

A pista usada então foi a placa de um dos veículos parados pelos policiais. A partir dela conseguiram o nome e endereço do dono. Rezende também pensou que um dos disparos dos policiais poderia ter acertado alguém. Perguntando no pronto-socorro mais próximo, o repórter descobriu o nome de mais um dos espancados, que acabou morrendo no hospital pelo ferimento à bala.

Com o nome e endereço dos dois em mãos, Rezende decidiu entrevistar o dono do carro, que foi arredio. Mesmo assim, o rapaz cede o nome e endereço, mas apenas porque Rezende foi bastante enfático na conversa: disse que ele com certeza morreria após a publicação do vídeo, e a única chance de sobreviver seria conversando com ele. “Não sei se é ético ou não ético, sei que atende ao interesse da sociedade”.

Para entrevistar o outro agredido, Rezende precisou fazer vigília na porta da casa de seus parentes; também o “avisou” dos riscos que corria e conseguiu uma entrevista. No dia seguinte o vídeo vai ao ar, e logo depois a Polícia Militar já liga para a redação informando o nome de todos os PMs envolvidos nos abusos – e todos são presos.

Rezende afirma que essa matéria só deu certo porque houve uma grande apuração: “uma fita que não queria dizer nada e só passou a ter voz verdadeira porque nós fizemos um trabalho de investigação, com tempo, podendo errar e correndo o risco de ser furado”. Para ele, jornalismo investigativo é um gesto de transpiração, seja na apuração, no medo de ser assassinado ou respondendo a processos na justiça.

Quando perguntado sobre suas motivações, é direto: “a graça disso é revelar algo que tenha interesse público, antes de começar, pensem se vale a pena”.

A palestra Crime: os Desafios da Cobertura Policial foi realizada das 09 h às 10h30 de 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Cláudio Júlio Tognolli. O palestrante foi Marcelo Rezende.

Entrevista com Leonardo Sakamoto

De galpões de confecções da cidade São Paulo até propriedades rurais em áreas recônditas da região Norte. É assim amplo e diverso o espaço de ação da Repórter Brasil. Com o objetivo de revelar situações de desrespeito aos direitos humanos no cerne de diversas cadeias produtivas e sua relação direta com o consumo e modelo de desenvolvimento de nossa sociedade, a organização, que já comemorou dez anos de existência, tem como foco central a luta contra o trabalho escravo. Ao apresentar em seu curso os métodos investigativos utilizados pela organização, Leonardo Sakamoto, idealizador do projeto, pôde também expor algumas de suas ideias e opiniões sobre os conflitos de interesse no processo de investigação dentro dos grandes jornais, o estímulo à impunidade gerado pelo novo código florestal, entre outros assuntos.
Confira no vídeo a seguir as palavras do próprio Sakamoto.

http://www.youtube.com/watch?v=5LNVTHkvE30&w=425&h=349

Lavagem de Dinheiro requer rigor na apuração

Por Mateus Marcel Netzel (1º ano/ECA-USP)
Foto: Michele Francisco (3º ano/ Anhembi Morumbi)

Público atento à palestra do procurador Rodrigo de Grandis


A lavagem de dinheiro é um dos temas preferidos do jornalista. Se define, segundo o procurador federal Rodrigo de Grandis, como “o processo que permite aos criminosos o uso de recursos ganhos ilegalmente por meio da conversão destes, em outros meios de pagamento legal”. Casos de corrupção e estelionato, que envolvem, com frequência, políticos e empresários, costumam gerar grande interesse público. A cobertura destes casos costuma exigir rigor na apuração e intenso trabalho de cruzamento de dados.

A lavagem, como o próprio nome diz, é feita com o objetivo de tornar o dinheiro ilícito em lícito. Ou seja, permitir que os bens, obtidos com recursos ilegais, sejam usufruídos sem levantar suspeita. Há casos também em que o dinheiro é lavado para ser investido no mercado financeiro e gerar lucros com aparência legal.

Um dos objetivos do Ministério Público Federal é identificar todas as etapas da lavagem: localizar e bloquear os bens, e depois tentar restituir esses bens ao poder público, geralmente a parte mais prejudicada. Segundo o palestrante, a legislação brasileira falha ao não especificar o destino dos recursos que voltam para o Estado. “Esses bens podem ser integralmente convertidos em verba publicitária, por exemplo”. Mas a melhor opção, de acordo com Grandis, seria a criação de um fundo público que destinasse estes valores restituídos a ações sociais.

Durante as três horas da oficina, o procurador detalhou como funciona o processo de lavagem de dinheiro, explicando suas três etapas: a conversão dos bens ilícitos em bens legais; a dissimulação, que é o disfarce da transação e dos valores, impedindo que ela seja descoberta; e a integração, que é a dispersão dos bens, já legalizados, para dificultar seu rastreamento. Destacou ainda que o maior entrave jurídico para a acusação e condenação por lavagem de dinheiro é a necessidade de um crime antecedente para legitimar a acusação.

Outra estratégia dos criminosos é o envio de valores para o exterior, geralmente para paraísos fiscais. Uma dificuldade enfrentada para coibir estes crimes é a sofisticação do esquema. Os envolvidos, normalmente especialistas nas transações, conseguem dar a aparência de licitude à movimentação dos bens.

Para o procurador, além de cobrir as investigações, o papel da imprensa é o de denúncia, citando como exemplo o caso das acusações a Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo. O processo criminal contra o político foi iniciado após denúncia do jornalista Roberto Cosso, em matéria publicada na “Folha de S.Paulo” em 2001. A reportagem, que noticiava o bloqueio dos bens de Maluf em um paraíso fiscal europeu motivou a investigação movida pelo Ministério Público Federal.

Sobre a cobertura da imprensa, Rodrigo ressalva que os jornalistas precisam conhecer pelo menos o básico da legislação para realizar uma reportagem precisa e evitar cometer erros conceituais ou alguma injustiça. “Muitas vezes, os jornalistas não tratam os temas jurídicos com a mesma atenção que outros, como, por exemplo, a medicina, e acabam divulgando informações incorretas”, finalizou.

A palestra Lavagem de Dinheiro foi realizada das 14h às 17h de 30 de junho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi: Rodrigo de Grandis. E-mail: rgrandis@prsp.mpf.gov.br