João tem um problema

Por  Alexandre Dall’Ara (3º ano/ ECA-USP)

No jornalismo, é princípio básico entender sobre o que se fala. Estudar o assunto e traduzir para o leitor. Tratar de temas complexos é um desafio, portanto. Mas, se o objetivo é falar sobre estudiosos que trabalham com a fronteira da matemática, com teoremas e objetos que muitas vezes não são decifrados nem mesmo pelos mais reconhecidos matemáticos do mundo, o trabalho parece impossível.

A saída encontrada por João Moreira Salles foi engenhosa e lhe rendeu o prêmio Esso de 2010. O jornalista e fundador da Revista Piauí decidiu abordar a maneira como Artur, o personagem do perfil e matemático do IMPA (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), pensa e opera mentalmente quando tem ideias e resolve seus teoremas.

João conta ter percebido que não poderia compreender o trabalho de Artur na primeira ou segunda das 11 longas entrevistas que fez com sua fonte. “Comecei a ler em volta e algumas coisas me chamaram atenção” disse, explicando como encontrou o caminho para seu perfil. “Eu não entendo o que ele [Artur] intui, mas entendo o que é intuição. Outra questão é a beleza, que é universal na fala de todos os matemáticos”.

O tema, que espanta muitos, já interessava João. Ele diz que queria fazer uma reportagem sobre ciência quando viu uma notícia sobre Arthur no jornal “O Globo”. A matéria o descrevia como o único brasileiro e um dos poucos matemáticos do mundo com chances de ganhar a Medalha Fields, o maior prêmio da área, considerado o Nobel da matemática.

Para João, matemática é arte e não ciência

O IMPA também chamava a atenção de João. Considerado um dos maiores institutos de matemática do mundo, Salles diz que o órgão sediado no Rio de Janeiro é pouco conhecido. “A cobertura de ciências no Brasil é muito ruim, ao contrário das artes, por exemplo”.

Talvez a complexidade dos “objetos” estudados por matemáticos como Artur seja um dos motivos para o desconhecimento do IMPA. Além disso, o trabalho desses estudiosos é considerado “inútil”, pois não resultam em avanços práticos, por exemplo. Por mais que possam ser usados para alguma finalidade no futuro, a matemática avançada lida si mesma, com teoremas que resolvem problemas meramente teóricos.

Mas a abordagem de João foi diferente, ele conseguiu compreender o motivo pelo qual a beleza aparece tanto na fala dos matemáticos. “Eu sou um grande defensor daquilo que é inútil e a grande matemática é inútil, assim como um verso”.

 A palestra Esso 2010: Nos passos de Jean e Arthur tem um problema foi realizada das 16h às 18h no dia 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi: João Moreira Salles (download da apresentação).

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Publicado em 1 de julho de 2011, em Boas Histórias, Boas Reportagens e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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