Jornalismo de precisão para abordar a questão indígena

Por Taina Mansani (Cientista social/USP e 1ºano jornalismo/Cásper Líbero)

“Se não morreu ninguém, não dá para bancar viagem”. Infelizmente, essa tem sido a realidade quando a pauta nas redações de jornalismo é a questão indígena. De acordo com o antropólogo e jornalista Spensy Pimentel (USP), em palestra ministrada no primeiro dia do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, a abordagem jornalística sobre esse tema carece de análises, reflexões e mudanças.

Pimentel abordou os pontos incomuns e os discrepantes entre o trabalho do jornalista e o do antropólogo, ofícios pelos quais ele mesmo transita. Segundo afirmou, a antropologia demanda um exercício constante de tradução da cultura estudada. Logo, o trabalho em torno da linguagem seria mais cioso e meticuloso. Em contrapartida, um dos grandes desafios da prática jornalística seria a dificuldade em conciliar o exercício de reflexão em torno dos conceitos ao tempo para preparação das matérias, considerados os “deadlines” cada vez mais curtos nas redações. Nesse sentido, lidar com pressupostos e categorias de culturas alheias seria um desafio ainda maior para os jornalistas.

O interesse comercial pela notícia e a pertinência para os veículos de comunicação dos temas relacionados à questão indígena também são desafios para o jornalismo. Quando uma notícia de assassinato decorrente do conflito entre índios e garimpeiros, por exemplo, é veiculada, a equipe de jornalismo da emissora ou da redação do jornal deveriam acompanhar os desdobramentos do fato em uma sequência de matérias, o que nem sempre é viável para os veículos, tendo em vista o retorno financeiro que nem sempre acontece.

Outro problema, segundo Pimentel, seria a dificuldade do jornalista em questionar seus estereótipos e lidar com conceitos da Antropologia. Ele citou, por exemplo, matérias em que termos como “índios primitivos” são usados indiscriminadamente. O tema “identidade étnica” também é, segundo o palestrante, um dos pressupostos menos questionados por jornalistas, e que mais envolvem interesses políticos e econômicos, como no caso das demarcações de terra e do acesso aos programas sociais do governo por descendentes indígenas, a exemplo do Bolsa Família.

Constantemente, grupos políticos com interesses econômicos bastante específicos reafirmam a suposta “inautenticidade” dos índios quando esses lutam por seus direitos. Consideram que grupos indígenas “aculturados” não deveriam ser beneficiados.

Citando o antropólogo norueguês Fredrik Barth, Pimentel responde a essa questão conceituando grupos étnicos como “aqueles que identificam a si mesmos e são identificados por outros como tais”. O jornalista pondera que julgar os direitos dos índios pela sua suposta “autenticidade” ou “pureza” poderia ser falacioso.

A questão colocada, portanto, diz respeito a como o jornalista deve usar conceitos e refletir sobre os mesmos, afastando-se de pressupostos e visões estereotipadas. Pimentel conclui que “conceitos, obtenção de dados, e cultura acadêmica” são elementos centrais para a prática do jornalismo de precisão para abordar a questão indígena.

O workshop Questão indígena no Brasil: elementos para um jornalismo de precisão e investigativo foi realizado das 9h às 12h e das 14h às 17h de 30 de junho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi Spensy Pimentel.

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Sobre Victor Santos

Jornalista pela Unesp/Bauru.

Publicado em 1 de julho de 2011, em Fundamentos da Reportagem e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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