Cobertura Jornalística de Situações de Emergência

Por Géssica Brandino (jornalista)

Tragédias de grandes proporções despertam o interesse público para além das fronteiras de um país. Enquanto a mídia local busca a prestação de serviço, os enviados especiais chegam à procura de histórias universais. Em ambos os lados, como ficou claro na palestra Jornalismo de emergência: a cobertura dos terremotos no Chile e no Japão é preciso ter cautela e rigor na apuração, para não gerar pânico ou preconceitos.

Durante o terremoto do Chile, em fevereiro de 2010, diante da falta de energia e internet, a rádio “Bío-bío” se tornou fundamental para a comunicação da população. As oito equipes independentes, em Santiago, Valparaiso, Concepción, Los Ángeles, Temuco, Valdivia, Osorno, Puerto Montt, permitiram ao veículo atender às informações locais. Diante da tragédia, a decisão foi priorizar conteúdos que ajudassem as autoridades a chegarem até os pontos críticos. No processo, houve colaboração dos próprios ouvintes, que enviavam dados relevantes e de utilidade pública. O comprometimento foi tanto, que durante dois dias a rádio deixou de lado os anúncios publicitários.

“Lembro de um grupo de pessoas que passava a madrugada inteira sentado em frente à casa destruída ao redor de um rádio, ligado na bateria do carro, ouvindo a rádio Bío-bío, porque era prestação de serviço o tempo todo”, relatou Daniel Scola, da Rádio Gaúcha, que passou nove dias cobrindo os terremotos do Chile e dez na cobertura no Japão, no início do ano.

Para Nibaldo Mosciatti, âncora da rádio “Bío-bío”, a cobertura de situações de emergência deixa evidente o grau de credibilidade e a capacidade de isenção de um veículo de comunicação: “Não há nenhum meio que reaja bem nessa situação se não tiver feito um trabalho prévio e de boa qualidade, o que significa estabelecer contatos com a população, vínculos de confiança e distâncias com os poderes de todo tipo”.

O jornalista também recomenda conter o lado emocional, que pode provocar mais tragédias. A informação deve ser verificada, precisa e muito relevante. Além disso, é preciso deixar de lado os preconceitos e tomar distância dos fatos para garantir a isenção da cobertura.

Já para os enviados especiais, surgem dificuldades como o acesso ao local da tragédia. No Chile, a maior dificuldade de Scola foi o que chamou de “jejum de comunicação”. Para transmitir as matérias, ele ligava para a rádio no Brasil e ditava o conteúdo. Já no Japão, a dificuldade foi o idioma, que dificultava o contato com a população. Na hora de definir a pauta, buscava priorizar depoimentos que mostrassem o lado humano da situação. “É preciso apostar na história da pessoa que vai retratar, porque essa será a melhor fotografia do que acontecendo”, defende.

Mônica Gonzales, diretora do Centro de Investigación e Información Periodística (CIPER), presente na palestra, lembrou que em um trabalho de qualidade deve ser pautado pelo interesse público e deixar de lado evitar o sensacionalismo na cobertura: “O correspondentes que fazem bem seu trabalho nunca vão ficar só com o sangue, mas com as histórias que nos deixam ensinamentos, porque o jornalismo nunca deixará de ser um grande serviço”.

A palestra Jornalismo de emergência: a cobertura dos terremotos no Chile e no Japão foi realizada das 16h às 18h de 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Os palestrantes foram: Nibaldo Mosciatti nibaldo@laradio.cl  e Daniel Scola daniel.scola@rdgaucha.com.br . Moderador: João Paulo Charleaux (Ultima Instância).

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Publicado em 1 de julho de 2011, em Fazer jornalístico e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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