Arquivos do Blog

Desafio econômico de Dilma Rousseff está na sustentabilidade

Por Vinicius Gorczeski (4° ano/ Metodista)

Foto: Lina Ibañez

Não é só a elevação dos preços – conhecida e repetida com frequência nos jornais como inflação – que a presidente Dilma Rousseff terá de enfrentar na política econômica. A insistência do indicador do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), em bater no teto da meta de inflação do Banco Central, que no acumulado 12 meses está em 6,77% (o valor máximo estipulado é de 6,5%), não é nem o principal problema, segundo a colunista de “O Globo” Miriam Leitão.

Miriam Leitão (O Globo)

Questões sustentáveis, como a preservação da Amazônia, que cobre 60% do território brasileiro, e demais regiões, cobertas por mata Atlântica, cujas áreas remanescentes não superam os 7%, serão assuntos a serem discutidos e reportados pelos futuros jornalistas econômicos. Temas se unem porque, segundo Leitão, falar de um é falar de outro. Escassez de recursos naturais é sinônimo de perda de dinheiro.

“Quanto custa para o país manter ou não suas reservas em prol do desenvolvimento econômico? Entendo a biodiversidade da Amazônia como uma floresta não desbravada. Imagine queimar essa biblioteca sem conhecê-la”, diz. Ela comenta que esses dilemas ainda esbarram em práticas ilegais, como na exploração de madeira e uso de carvão ilegal na siderurgia. “Não sejamos ingênuos, empresas fazem vistas grossas sobre como os fornecedores obtêm suas matérias primas de seus respectivos distribuidores”, diz Leitão, ao destacar que o papel do jornalista econômico também está em fiscalizar a cadeia de distribuição desses recursos a fim de checar ilegalidades – quanto a dinheiro e recursos naturais.

Outra crítica quanto ao tema é o desenvolvimento versus preservação ambiental. Para sustentar a ideia, a colunista cita a construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará. A promessa governamental é de que a obra oferecerá 11 mil megawatts de energia. “Isso é uma mentira. A capacidade média de geração é de 4,5 mil megawatts, e há especialistas que apontam que isso será possível apenas por dois meses do ano, nos demais não haverá, por conta do clima, com muita seca, capacidade para essa quantidade”, critica. “Será que vale a pena tanto desmatamento com a contrapartida do que Belo Monte vai conseguir propiciar?”, completa, ao questionar sobre a razão pelas quais alternativas de desenvolvimento energético não são adotadas, como a eólica ou a solar; não poluentes e que não desapropriariam moradores locais – caso da população que mora nos entornos da barragem de Belo Monte.

Aumentando a complexidade da discussão, Leitão também comenta se, apesar de tudo, é possível ignorar o potencia hídrico da Amazônia para produção de eletricidade. “Essa é a fronteira da discussão: o que vale mais?” – temas para os futuros repórteres de economia ajudarem a responder.

INFLAÇÃO

Autora do livro “A saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda”, em que reporta a evolução do poder de compra do dinheiro no Brasil, com hiperinflação há 30 anos, Leitão afirma que a preocupação atual da imprensa em torno do indicador é forma de pressionar por ações que mantenham os níveis estáveis, ao contrário de uma época em que os preços variavam ao longo de um único dia. Índices que superaram, em 15 anos que antecederam a execução do plano real, a impressionante soma de 13 trilhões e 342 bilhões por cento.

“Fiquei ainda mais feliz de ver que nosso trabalho serviu para explicar todas as mudanças complexas, planos fracassados para conter a inflação, e como o cidadão precisa agir sob novas políticas”, comemora Leitão.

Ela afirma que, durante a apuração do livro, percebeu que, apesar de sucessivos planos fracassados para tentar recolocar a economia nos eixos o brasileiro mantinha crença de haveria uma solução para o aumento de preços. A constatação de Leitão é de a população aprendeu a “gostar de viver com inflação em níveis baixos”. Isso porque, proporcionalmente, o poder de compra do dinheiro é maior.

Apesar de lançar luz sobre a inflação, Leitão também destacou que a ideia era mostrar a turbulência pelo qual passou o país em 30 anos, com muitas trocas de ministros da fazenda, calotes e o consumidor, que em meio ao “tumulto” buscou fiscalizar e entender todo o processo de perto.

A palestra Cobertura Econômica: desafios no governo Dilma foi realizada das 14h às 15h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: MiriamLeitão (Globo) miriamleitao@oglobo.com.br, Moderador: SergioLeo (Valor Econômico)

Pauta: uma produção coletiva

Por Efraim Caetano (2º ano/Unicsul)

Godoy, Venéri e Beraba – Pautar e não ser pautado

Quem acorda pela manhã e lê o jornal ou liga o rádio e ouve uma notícia, não imagina o processo da produção da reportagem. Porém, em se tratar disso, os jornalistas Marcelo Godoy, Renata Venéri e Marcelo Beraba tiram de letra. “O trabalho que você vê no jornal no dia seguinte é um trabalho feito por dezenas de pessoas e, não por mini gênios que resolvem tudo sozinho”, afirma Godoy, chefe de reportagem do jornal “O Estado de S.Paulo”.

Beraba, diretor da sucursal no Rio de Janeiro do jornal “O Estado de S.Paulo” e diretor da Abraji, lembra que hoje não há mais o pauteiro como uma função específica. “A produção da pauta é uma produção coletiva e é um a dinâmica completamente diferente da época do pauteiro”, diz.

Para Venéri, chefe de produção da Rádio “BandNewsFM”, produzir notícia para rádio não há mais a formalidade da pauta, pois tudo é “muito dinâmico” e “é necessário que seja assim, senão fica amarrado e burocrático”. E vai além: “rádio é tudo muito rápido. Todo mundo produz notícia”, conclui.

Com uma plateia repleta de estudantes, Godoy e Venéri responderam sobre a chegada dos recém-formados em jornalismo na redação e foram enfáticos ao dizer que a nova geração é uma turma que tem muitas ideias e, o que falta é a técnica. “Não é todo mundo que chega pronto na redação, mas se aprende. Faz parte da sua função orientar”, diz Godoy.

Para a estudante de jornalismo Tamiris Gomes, 20, o conteúdo abordado na palestra é completamente diferente daquele adquirido na universidade e, ressalta que participar do congresso é um diferencial no aprendizado dos estudantes de comunicação.

A palestra Pauta e pauteiro: entre a agenda e a ousadia foi realizada das 11h às 12h30h de 02 de julho de 2011, na sede da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Marcelo Beraba (e-mail marcelo.beraba@grupoestado.com.br). Os palestrantes foram Marcelo Godoy (e-mail marcelo.godoy@grupoestado.com.br) e Renata Venéri (e-mail rveneri@band.com.br).

A força da grande reportagem

Por Jessica Mota (2º ano/Mackenzie)

Foto: Luana Copini (4º ano/Mackenzie)

Um caderno de 24 páginas sem anúncios em um dos maiores jornais do país, com reportagens feitas exclusivamente por você e um parceiro. É o sonho de nove em cada dez jornalistas. Leonêncio Nossa, repórter da sucursal em Brasília do “Estado de S. Paulo”, realizou esse feito com a produção de As Guerras Desconhecidas do Brasil.

Leonêncio Nossa (O Estado de S. Paulo) e Nivaldo Ferraz (Anhembi Morumbi)

Depois de ganhar crédito pela reportagem sobre os arquivos revelados da Guerrilha do Araguaia, Nossa teve a chance de sair dos corredores de Brasília para os sertões mais reclusos do Brasil. De Norte a Sul, ele e o fotógrafo Celso Júnior percorreram 13,5 mil quilômetros, falaram com 335 pessoas de 41 cidades diferentes.

A ideia surgiu a partir do trabalho sobre a Guerrilha do Araguaia. “Quando você entra numa linha de pesquisa, outras pautas nessa linha começam a surgir”, contou o jornalista.

Para chegar às nove histórias mais representativas desses conflitos esquecidos, Nossa e Júnior fizeram uma extensa pesquisa. Tiveram que percorrer os caminhos antigos da apuração. “A internet é fantástica, mas é muito recente. De 2000 para trás, você tem que ir a sebos e bibliotecas”. Foram 17 meses entre arquivos públicos, álbuns de família, registros de hospitais e cemitérios, cartas e telegramas.

Buscar uma identidade dos personagens foi fundamental. “Foram pessoas como a gente que fizeram essas revoltas”, fala o repórter. O cuidado em conquistar a confianças das pessoas e se adaptar às diferentes realidades encontradas também foram desafios na produção dessa matéria, além do trabalho de encontrar esses protagonistas. “Às vezes, para localizar a pessoa, a gente ia à bodega para ver a lista de fiado”, revela Nossa. Nesse trabalho, o jornalista orienta que toda fonte é válida.

Parece difícil acreditar que a mídia impressa dê espaço para matérias como As Guerras Desconhecidas do Brasil. Frente a realidade digital em que praticamente todos se tornam potenciais produtores de conteúdo, valorizar grandes reportagens talvez seja uma via possível para a mídia impressa. Mas para isso, antes de tudo, é preciso confiança em si. “Se você não acredita no seu trabalho, não tem jeito”, diz Nossa.

A palestra As guerras desconhecidas do Brasil foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrante: Leonêncio Nossa (O Estado de S. Paulo). Moderador: Nivaldo Ferraz (Anhembi Morumbi)

O desafio de ensinar o jornalismo investigativo

Por Camila Moura (2º ano/FIAM)

Foto: Lina Ibañez

A investigação é primordial em qualquer matéria jornalística. Ao trazer ao conhecimento da sociedade um fato de interesse público, o jornalista pode desde apressar um processo que demoraria anos para ser concluído até estimular a reformulação de leis.

Em sua palestra no 6º Congresso da Abraji, o professor Solano Nascimento da Universidade de Brasília apresentou casos em que o jornalismo investigativo foi fundamental por causa de reportagens que causaram grande impacto na sociedade, além de alertar e impedir a incidência de novos abusos e situações problemáticas.

“É difícil o jornalismo investigativo mudar governos ou mudar toda uma estrutura. Agora, fazer reformas é possível e, para determinados grupos de pessoas, elas são muito importantes”, disse, referindo-se a um episódio ocorrido em 2006 na região de Imperatriz (MA). Na ocasião, 16 pessoas morreram de forma misteriosa, agricultores entre 14 a 45 anos de idade. Posteriormente descobriu-se que a causa das mortes foi um fungo no arroz, colhido e consumido pelos trabalhadores.

Assim como os estudantes, os profissionais que ensinam o jornalismo investigativo também precisam se atualizar constantemente para poder proporcionar aos alunos encontros e trocas de experiências com jornalistas, no ambiente educacional.

A falta de critérios e atenção ao apurar uma notícia pode levar um veículo a cometer equívocos e transmitir informações que eventualmente não correspondem à realidade. Em suas aulas, o professor Solano aborda temas que treinam a perspicácia do universitário.  “Ele é provocado a olhar toda notícia com desconfiança, descobrir o que está errado”, explica.

Edson Flosi, professor da Faculdade Cásper Libero, lembra com pesar a ausência da disciplina de jornalismo investigativo, ou reportagem policial, na grade curricular das universidades brasileiras. Para ele, a reportagem policial tem diferenças importantes em relação às reportagens que abordam esportes ou saúde, por exemplo.

Luciana Kraemer, Solano Nascimento e Edson Flosi

“O repórter policial foge da versão oficial. Ele enfrenta a polícia, promotores, delegados, e ainda tem que ter outras qualidades como malandragem, esperteza, frieza, raciocínio e, principalmente, a desconfiança. Das especialidades do jornalismo, a mais difícil de ensinar é investigativa, porque depende muito mais do interesse do aluno”, conclui.

A palestra Jornalismo investigativo nas universidades foi realizada das 16h às 17h30 de 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Solano Nascimento (UnB), Edson Flosi (Cásper Líbero) Moderador: Luciana Kraemer (Unisinos/Abraji)

João tem um problema

Por  Alexandre Dall’Ara (3º ano/ ECA-USP)

No jornalismo, é princípio básico entender sobre o que se fala. Estudar o assunto e traduzir para o leitor. Tratar de temas complexos é um desafio, portanto. Mas, se o objetivo é falar sobre estudiosos que trabalham com a fronteira da matemática, com teoremas e objetos que muitas vezes não são decifrados nem mesmo pelos mais reconhecidos matemáticos do mundo, o trabalho parece impossível.

A saída encontrada por João Moreira Salles foi engenhosa e lhe rendeu o prêmio Esso de 2010. O jornalista e fundador da Revista Piauí decidiu abordar a maneira como Artur, o personagem do perfil e matemático do IMPA (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), pensa e opera mentalmente quando tem ideias e resolve seus teoremas.

João conta ter percebido que não poderia compreender o trabalho de Artur na primeira ou segunda das 11 longas entrevistas que fez com sua fonte. “Comecei a ler em volta e algumas coisas me chamaram atenção” disse, explicando como encontrou o caminho para seu perfil. “Eu não entendo o que ele [Artur] intui, mas entendo o que é intuição. Outra questão é a beleza, que é universal na fala de todos os matemáticos”.

O tema, que espanta muitos, já interessava João. Ele diz que queria fazer uma reportagem sobre ciência quando viu uma notícia sobre Arthur no jornal “O Globo”. A matéria o descrevia como o único brasileiro e um dos poucos matemáticos do mundo com chances de ganhar a Medalha Fields, o maior prêmio da área, considerado o Nobel da matemática.

Para João, matemática é arte e não ciência

O IMPA também chamava a atenção de João. Considerado um dos maiores institutos de matemática do mundo, Salles diz que o órgão sediado no Rio de Janeiro é pouco conhecido. “A cobertura de ciências no Brasil é muito ruim, ao contrário das artes, por exemplo”.

Talvez a complexidade dos “objetos” estudados por matemáticos como Artur seja um dos motivos para o desconhecimento do IMPA. Além disso, o trabalho desses estudiosos é considerado “inútil”, pois não resultam em avanços práticos, por exemplo. Por mais que possam ser usados para alguma finalidade no futuro, a matemática avançada lida si mesma, com teoremas que resolvem problemas meramente teóricos.

Mas a abordagem de João foi diferente, ele conseguiu compreender o motivo pelo qual a beleza aparece tanto na fala dos matemáticos. “Eu sou um grande defensor daquilo que é inútil e a grande matemática é inútil, assim como um verso”.

 A palestra Esso 2010: Nos passos de Jean e Arthur tem um problema foi realizada das 16h às 18h no dia 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi: João Moreira Salles (download da apresentação).

O debate político não se esgota na televisão

Por Efraim Caetano (2º ano/Unicsul)

Tradicional em anos eleitorais, os debates políticos na televisão brasileira provoca inúmeras reações no mundo da política e imprime os rumos em ano de eleições, principalmente presidenciáveis. Para isso, as redes de televisão precisam de “jogo de cintura” para lidar com os interesses dos candidatos e as leis eleitorais.

Nada melhor para falar sobre o assunto que o diretor de jornalismo da TV Bandeirantes, Fernando Mitre, apresentador e produtor do primeiro debate à presidência da república após o regime militar em 1988, entre os candidatos Francisco Montoro e Leonel Brizola.

O diretor ressalta que as regras impostas pelos candidatos e as leis eleitorais comportam um debate “engessado” e não permitem ao eleitor avaliar as ideias de cada um dos candidatos. “A legislação é um desastre”, e vai além: “o debate acaba sendo a única oportunidade de o eleitor decidir e, restringir isso é um erro”, conclui.

Luciana Kraemer e Fernando Mitre

Segundo Mitre, o primeiro debate é mais importante do que o último, pois é dele que surgem os temas que ditam o rumo das eleições. “É um erro os jornais em dias de pós-debates dizerem que o evento não teve audiência e foi morno, pois é a partir deles que os candidatos têm a oportunidade de trabalhar as ideias apresentadas e, isso tem uma repercussão enorme”, e afirma: “O debate começa na televisão, mas só termina nas urnas”.

Para o diretor, as novas mídias contribuem para a discussão política, mas ressalva que a utilização delas torna o assunto artificializado. “A internet possui uma grande repercussão do que é discutido nos debates, mas a televisão está à frente”, diz.

Para o jornalista Rodrigo Mesquita Neiva, 25, que está participando de um programa de treinamento da “Folha de S.Paulo”, o evento não deve ser caracterizado como uma palestra, mas sim como um debate. Para ele, o encontro permitiu aos palestrantes e ao público participar e conhecer melhor como se faz fazer uma cobertura política diante dos rigores e os excessos da lei eleitoral. “Palestras como a do Fernando Mitre contribui muito para a nossa formação profissional”, avalia.

A palestra “Cobertura de política e eleições em televisão” foi realizada das 14h às 15h30h de 01 de julho de 2011, na sede da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pela jornalista Luciana Kraemer (e-mail lukraemer@terra.com.br). O palestrante foi Fernando Mitre (e-mail fmitre@band.com.br).

A ética dos bastidores do esporte

Por Marta Santos (2º ano / PUC-SP)

Foto: Lina Ibañez

A “Play the Game” é uma organização internacional que objetiva promover democracia, transparência e liberdade de expressão nos esportes. Para o diretor da organização, Jens Sejer Andersen, uma das suas principais funções é discutir  as questões esportivas que a mídia, geralmente, não mostra. O jornalista Juca Kfouri, que dividiu a mesa com Andersen, compartilha dos mesmos valores. Para ele, é função da imprensa mostrar o que os torcedores apaixonados muitas vezes não veem.

Apesar de receber apoio do governo da Dinamarca, Andersen explica que o trabalho da “Play the Game” é totalmente independente. Ela se mantém com poucos recursos financeiros, mas conserva sua liberdade, continua o diretor. Ele também destaca que este é um dos únicos fóruns de debate sobre esporte onde todos podem participar.

Andersen destaca alguns casos de corrupção e má administração em instituições esportivas, como a Federação Internacional de Handball, cujo presidente Hassan Moustafa, teria desligado o microfone de seu adversário nas eleições em 2009, além de se associar a empresas e veículos de comunicação.

Juca Kfouri em palestra no 6º Congresso da Abraji

“Precisamos de uma organização que trabalhe como o anti-doping para monitorar a transparência das instituições”, continua o diretor. Para ele, a corrupção está em todo lugar, e sem a ajuda do público e do governo, essa situação nunca irá mudar.

Alguns dos principais desafios do esporte brasileiro, na visão de Andersen, são: a democratização do esporte, a definição dos direitos do atleta e a resolução do conflito da cobertura da mídia, dividida entre os interesses comerciais e do público. Especificamente para a imprensa, ele também destaca a importância do treinamento para os jornalistas que trabalharão na cobertura dos grandes eventos esportivos, da coleta de dados e da cooperação com outros setores da sociedade.

Para Kfouri é necessário que o jornalismo esportivo mostre, além do que acontece dentro das quadras e campos, os bastidores dos eventos esportivos. Ele relembra que na época em que dirigia a revista Placar, lutava para cobrir não só a emoção dos esportes, mas o que há por trás deles, as negociações, os custos, pois “os torcedores tem o direito de saber o que se faz com a sua paixão pelo esporte”, diz o jornalista.

Em relação à Copa do Mundo de 2014, Kfouri afirma que o estádio do Morumbi deveria ser a sede paulista, pois ele já foi palco de diversos jogos importantes. O jornalista acredita que a construção de novos estádios, como o de Itaquera, não trarão, necessariamente, desenvolvimento para essas áreas. Os três grandes times de futebol de Pernambuco, por exemplo, já manifestaram que não farão uso do novo estádio que será construído no Estado, ele aponta. Se a torcida brasileira é levada a crer na necessidade dessas obras, cabe à imprensa “cutucar a ferida, incomode quem incomodar”, finaliza Kfouri.

A palestra Play the Game: em busca da ética no esporte foi realizada das 14h às 15h30 de 1º de julho de 2011, na sede da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada por André Luiz Azevedo. Os palestrantes foram: Juca Kfouri (e-mails  blogdojuca@uol.com.br ou jucakfouri@uol.com.br) e Jens Sejer Andersen (e-mail jens@playthegame.org download da apresentação).

Jornalismo com foco humano

Por Jessica Mota (2º ano/Mackenzie)

Com um leve sotaque mineiro, Sergio Vilas-Boas, deixou clara a diferença entre o jornalismo diário e o narrativo. “Estamos falando de personagens”. E é disso que vive o jornalismo literário. De dar voz às pessoas e a suas histórias.

Como qualquer atividade, esse tipo de jornalismo também tem diretrizes. Da pauta ao contato com os protagonistas, o jornalista deve passar por um processo cuidadoso e atento de pesquisa, organização e execução. E acontece tudo simultaneamente. “A gente escreve as coisas desde que tem a ideia”, explica Vilas-Boas, sob a leve trilha sonora do ar condicionado da sala 713.

Entre tosses e fungadas do público, o palestrante comentou sobre a inutilidade dos parâmetros da redação para esse tipo de narrativa. Diferente do jornalismo diário, a pauta narrativa nunca cai: ela se modifica. E como criar essa pauta? “Elas brotam de um entendimento que vem de dentro do autor”, poetiza Vilas-Boas.
“Às vezes você tropeça na pauta na rua, às vezes você tem um ‘insight’”. Ou a pauta pode estar na falta de pauta, também, por que não? Fazer um relato sobre como é impossível conseguir um perfil de João Gilberto, exemplo dado por um dos participantes da palestra, é uma ideia possível nesse campo.

Na narrativa do real, a fidelidade às características dos protagonistas nunca pode ser afetada. É necessário que se preserve o modo de ser e falar das pessoas. “Pegar um sujeito analfabeto e colocar um português correto é distorção do real. Um passo para a ficção”, atenta o jornalista. De latidos a carros que interferem nas cenas (ou aviões – como foi no caso da apuração desta matéria), é importante relatar as impressões que situam a realidade dos personagens.

Bagagem cultural e criatividade não podem faltar ao profissional dessa área. Os temas e personagens precisam ser originais. Para isso, Vilas-Boas dá as dicas: “Saia um pouco da sua estrada habitual. Mude seus hábitos”. Em vez de fazer entrevistas, converse. O relacionamento com os personagens é muito importante para a “literatura da realidade”. É preciso quebrar o gelo, compartilhar a vida com o personagem, de igual para igual. E encarar a possibilidade de ser o assunto da matéria. “Esse negócio de que o jornalista não pode ser personagem da reportagem é legal, mas para outro tipo de coisa”, sentencia Vilas-Boas. Longe das técnicas pragmáticas das redações, o jornalismo narrativo exige humanização.

A palestra Jornalismo literário: pesquisa e conservação foi realizada das 14h às 15h30 de 1º julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi: Sergio Vilas-Boas (cotato@sergiovilasboas.com.br).

Participação dos patrocinadores no 6º Congresso

Ana Paula Navarrete e Laura Luz exibem as canecas que ganharam no estande da Band

Por Maria Clara Lima (4º ano/Unesp) e Victor Santos (2º ano/Unesp)

Foto: Michele Francisco (3º ano/Anhembi Morumbi)

Quem entra na sede da Universidade Anhembi Morumbi, onde acontece o Congresso, já nota a diferença. Neste ano, o espaço foi ocupado por empresas patrocinadoras. A maioria é formada por veículos de comunicação. Os estandes representam jornais, redes de televisão e portais de internet. De acordo com o presidente da Abraji, Fernando Rodrigues, “a importância de empresas de mídia patrocinarem o evento é enorme, pois dessa forma é reconhecido o valor do jornalismo investigativo”. De acordo com ele, o espaço também serve para que os participantes conheçam o trabalho desenvolvido por estes meios de comunicação, e possam entrar em contato com as empresas.  Estão neste espaço a “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S.Paulo”, “Rede Bom Dia”, “Universo On Line”, “Rede Record”, “Rede Brasil Sul de Comunicação” e “Band”, da Rede Bandeirantes.

RBS: estande multimídia

A “Rede Brasil Sul de Comunicação” montou uma estrutura multimídia para ilustrar o trabalho desenvolvido pelo grupo. Na tela de LCD são transmitidas reportagens que se destacaram. Já os painéis foram montados com as principais séries de reportagens dos jornais que integram a empresa. Os iPads, mostram como a empresa trabalha com a interatividade nos seus meios.  “A ‘Zero Hora’ coleciona prêmios na categoria investigativa, é o nosso diferencial”, informa Lúcia Pires, editora de comunicação do jornal. Ela veio especialmente para divulgar o trabalho da empresa no Congresso. A interação com os participantes se dá de maneira direta: quem quiser conferir o material dos jornais do Grupo pode folheá-lo virtualmente pelos iPads: “estamos usando esta plataforma desde março desse ano, e o conteúdo, por enquanto, é de graça”, explica a editora.

Lúcia Pires comenta que, ao contrário da tendência global de queda nas vendas de periódicos, a “Zero Hora” vem crescendo cerca de 2% ao ano. Para Lúcia, a qualidade das reportagens conquista o leitor.  A “RBS” também participa do evento com palestrantes e ouvintes. Há o entendimento por parte da empresa de que o jornalista especializado precisa estar em constante atualização. É o caso da repórter Adriana Irion. Ela veio de Porto Alegre para assistir à palestra Investigação de Gastos Públicos, ministrada por Gil Castello Branco, da Associação Contas Abertas. Neste sábado deverá chegar ao Congresso outro repórter do Grupo, José Luis Costa.

Lúcia Pires diz que, além de trabalhar, quer assistir a palestras dos colegas. O repórter Daniel Scola é um dos que vai falar no painel Jornalismo de Emergência: a cobertura dos terremotos no Chile e no Japão, programado para esta sexta-feira, às 16h. No sábado, a diretora de on-line da RBS, Marta Gleich, vai participar da palestra A invenção da notícia? O que todo repórter deve saber sobre a expansão das novas mídias no país.

Band: 44 anos de história

A Band trouxe para o Congresso cinco telões em que são exibidos trechos da programação das suas mais de quatro décadas no ar. Quem para no estande tem a oportunidade de assistir a momentos que marcaram o jornalismo nos últimos quarenta anos, como, por exemplo, o debate entre Collor e Lula na primeira eleição direta depois do fim da ditadura militar.

Além de se informar, o participante ganha um presente: uma caneca personalizada. Dois caricaturistas se dividem na função de desenhar o rosto de quem visita o estande. Enquanto o artista faz a caricatura, é possível acompanhar a produção em outro telão. Depois de pronto, o desenho é impresso na caneca.

As estudantes de jornalismo Ana Paula Navarrete e Laura Luz, que vieram pela primeira vez ao Congresso, estão curtindo a novidade: “é o máximo, tá muito legal!”, comenta Ana Paula. Para Laura, os brindes dão uma animada no congresso. “Peguei todas as coisas que eles ofereceram: bloquinho, caneca, ecobag…”, disse.

A Rede Record , que também passa imagens da programação no estande,  distribuiu bloquinhos para os visitantes.

O UOL instalou uma central para carregar a bateria de equipamentos eletrônicos e uma TV que transmite informações sobre o portal em tempo real.

“O Estado de S. Paulo” está disponibilizando sua versão para iPad em tablets da Apple. Já a “Folha de S.Paulo” exibe as páginas de reportagens que ganharam destaque nos 90 anos do jornal e distribui exemplares diariamente pela manhã. A “Rede Bom Dia” também distribui o “Diário de S.Paulo” na área dos estandes.

As ações continuam durante todo o Congresso.

6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

De jornalistas para jornalistas, o maior encontro do país.

Interessados poderão se inscrever nos dias do evento.

http://bit.ly/6congresso

Realizado anualmente desde 2005 pela Abraji, o congresso reúne jornalistas, estudantes e professores de jornalismo interessados nas melhores práticas jornalísticas e técnicas de reportagem.

A sexta edição do evento é organizada em palestras e workshops simultâneos, concentrados em um eixo temático principal: jornalismo on-line. Além disso, a programação de 2011oferece painéis sobre crime organizado, política, megaeventos esportivos, fundamentos da reportagem, técnicas de RAC (Reportagem com Auxílio do Computador) e outros temas.

Venha aprender com alguns dos melhores jornalistas do Brasil e do mundo.
Local: Universidade Anhembi Morumbi – Campus Vila Olímpia (Unidade 7)
Rua Casa do Ator, 275
São Paulo, Brazil

Página no Facebook

O 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.