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Legislação eleitoral ainda não se adequou às campanhas pela Internet

Por Mateus Marcel Netzel (1º ano ECA-USP)

A eleição presidencial de 2010 no Brasil ficou marcada por ser a primeira em que a Internet teve papel significativo nas campanhas dos candidatos.  O fenômeno, notável principalmente nas redes sociais como o Twitter, Orkut e Facebook, mobilizou eleitores em todo o Brasil e levantou uma série de questões relacionadas ao controle da legislação sobre o uso das novas tecnologias.

A rápida expansão das mídias digitais não foi acompanhada de adequações nas leis eleitorais, o que provocou algumas divergências e incertezas ao longo do último processo eleitoral.  Joélson Dias, juiz do Tribunal Superior Eleitoral, esclareceu que até a eleição do ano passado a Justiça Eleitoral não tinha parâmetros para agir em questões envolvendo a Internet e que, agora, pelo menos, possui referências para as eleições municipais de 2012.

Para ele, o grande desafio da Justiça Eleitoral na esfera digital é conciliar o ambiente livre e democrático da Internet com os casos que violam direitos garantidos por lei. “A Internet deve ser usada para promover a liberdade de expressão, mas alguns princípios garantidos pela Constituição, como o direito à privacidade e a preservação da imagem e da honra devem ser observados”, explicou. O juiz enfatizou também a postura contraditória dos partidos durante o ano passado, quando reclamavam pela liberdade de imprensa ao mesmo tempo em que requeriam à Justiça que repreendesse legalmente seus concorrentes e impedisse a divulgação de certas declarações.

O principal destaque na incorporação de recursos online à propaganda eleitoral foi a campanha de Marina Silva, concorrendo pelo Partido Verde. Com um planejamento de atuação online inovador na política brasileira, a candidata conseguiu superar uma série de desvantagens em relação aos outros candidatos e terminar o primeiro turno com a terceira maior votação, com mais de 20 milhões de eleitores. “É impossível precisar quantos votos a Internet conseguiu angariar, mas, sem dúvida, foi um fator muito positivo”, afirma Caio Túlio Costa, coordenador de mídias digitais da campanha de Marina Silva em 2010.

O comunicador classificou o uso dos recursos digitais na última eleição como um sucesso, apesar das várias restrições impostas pela legislação. Fazendo sempre a comparação com as eleições estadunidenses, apontou uma série de dificuldades na coordenação da campanha, desde a arrecadação de doações, restrita aos 58 dias de campanha oficial, até a proibição da compra de anúncios online.

Segundo ele, as inadequações da legislação devem-se não à Justiça Eleitoral, mas ao “profundo desconhecimento por parte dos nossos legisladores em relação às novas mídias”. Para Dias, a legislação precisa, de fato, ser modificada, mas essas modificações devem ser precedidas por um debate qualificado, opinião compartilhada por Caio Túlio Costa.

A palestra “Onde a Internet falhou nas eleições e por quê?” foi realizada das 16h às 17h30 no dia 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Os palestrantes foram: Caio Túlio Costa (e-mail: caiotulio@ig.com.brdownload da apresentação) e Joélson Dias(e-mail: joelson@barbosaedias.com.br). Moderador: Jaime Spitzcovsky

Multiplataformas e multitarefas: um novo jornalismo

Por Jessica Mota (2º ano/Mackenzie)

Foto: Lina Ibañes (publicitária)

José Roberto de Toledo (centro) mediou a palestra de Rodrigo Fontes (esquerda) e Antonio Prada

A competição, o jornalismo declaratório e o risco de má apuração na busca por um furo são alguns dos desafios que os jornalistas de jornal impresso enfrentam há anos. Na plataforma online, a realidade é a mesma, com cara diferente. É importante saber comunicar bem e rápido, mas reproduzir as falas de perfis do twitter, por exemplo, deve ser feita com critério. “O jornalismo em tempo real deve ter o cuidado em não ser apenas declaratório”, coloca Rodrigo Flores, diretor de conteúdo do “UOL”.

Papel de repórter que trabalha em sites não é ficar só na frente do computador. Ele também deve ir às ruas, captar o material de diferentes formas e passar as informações em tempo real para os editores. Para Flores, o ideal é explorar ao máximo a plataforma digital e utilizar todas as linguagens possíveis. Além do texto, a foto e o vídeo também são importantes. “A imagem comunica demais”, fala.

No jornalismo, a internet é a única plataforma que possibilita a resposta imediata do consumidor da informação. “Você posta uma matéria e em 30 segundos o internauta pode corrigir você”, exemplifica Antonio Prada, diretor de conteúdo do “Terra”. Com uma proximidade tão grande com os leitores, a interatividade é outro fator que entra na roda. Além dos comentários, existem veículos que recebem a colaboração do público em seções específicas dos sites. Tudo com a moderação do veículo, claro. “A gente não pode transferir a responsabilidade para o internauta”, sentencia Flores.

No Brasil, as técnicas para jornalismo online vêm se desenvolvendo com sucesso. Hoje, em veículos como o Terra, existem inclusive manuais de redação e estilo. Nem sempre foi assim. “A gente teve que descobrir aos trancos e barrancos maneiras de construir mídia online”, revela Prada. Coberturas em campo e produção de conteúdo exclusivo são algumas das prioridades do veículo. Quando os mineiros ficaram presos em uma mina no Chile e um tsunami devastou o Japão, por exemplo, o Terra não ficou dependente do conteúdo das agências de notícias, porque enviou seus correspondentes.

Além dos desafios da produção, o online também enfrenta desafios econômicos. Prada revela que o mercado publicitário brasileiro ainda não reconhece a audiência dos sites. “Se a internet é tão relevante para os usuários como parece, por que não tem reconhecimento do mercado?”

Uma das soluções para a sobrevivência seria oferecer também outros serviços, como antivírus e assistência técnica, exemplo do que faz o UOL. Para além da economia, entender a mídia online é um fator essencial para o contínuo desenvolvimento dessa plataforma. “Se você achar que está escrevendo para computador, você está enganado”, fala Rodrigo aos jornalistas. Hoje, a web também está em celulares e tablets. É justamente aí que mora a possibilidade de uma nova produção jornalística. Para Rodrigo, é a chance dos jornalistas fazerem a pergunta que, segundo ele, deveriam fazer todo dia ao acordar: “o que eu posso fazer de diferente hoje?”.

A palestra Produção de jornalismo na era digital foi realizada das 9h às 10h30 no dia 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista José Roberto de Toledo. Os palestrantes foram: Rodrigo Flores (e-mail: rflores@uolinc.com – download da apresentação) e Antonio Prada (antonio.prada@corp.terra.com.br – download da apresentação).