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Especialista denuncia mau uso do dinheiro público para a Copa e Olimpíada

Por Géssica Brandino (jornalista)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/Metodista)

Lucro para as empreiteiras e prejuízo para a população. É esse o cenário previsto pelo professor da Universidade Federal Fluminense e geógrafo, Chris Gaffney, para a Copa de 2014 e para a Olimpíada de 2016. Há dois anos ele estuda os impactos das obras e os benefícios gerados no cenário urbano e social.

Para Gaffney, a falta de planejamento e adequação dos projetos ao plano diretor das cidades pode gerar o mau uso do dinheiro público. Segundo ele, o fluxo de turistas e o estímulo ao consumo não deveriam ser os focos dos projetos das obras, como têm ocorrido. “Reestruturar uma cidade pelo turismo, como fez Atenas em 2004, não está certo. O turismo no Brasil não move muita coisa, porque só recebe seis milhões de pessoas por ano”.

Chris Gaffney (UFF)

Ele criticou as mudanças que estão projetadas no Rio de Janeiro na área de transporte. Segundo o geógrafo, o projeto está priorizando a zona sul, onde a demanda de transporte é menor. Em compensação, o alto número de passageiros de Niterói e da zona norte não está sendo considerado.

A mesma falta de lógica, de acordo com ele, está presente nos projetos dos novos estádios. “A arquitetura exuberante está sendo valorizada, em compensação, estão deixando de lado a interação com o público, prevendo espaços maiores para áreas vips, diminuindo a capacidade dos estádios”, disse.  Ele questiona o argumento de que tais empreendimentos trarão desenvolvimento e novos investimentos para as cidades, uma vez que os estádios não funcionam diariamente.

“Estamos com uma previsão de oito bilhões de reais, sendo cinco bilhões de investimentos públicos em estádios, e sabemos, de antemão, que quatro deles serão elefantes brancos: Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília, onde não há times de futebol nem na terceira divisão”, frisou Gaffney. Para garantir a manutenção desses estádios, será necessário, segundo o especialista, um investimento anual de no mínimo seis milhões de dólares.

O Maracanã foi citado como exemplo do mau uso do dinheiro público. Em 1999, foram investidos 60 milhões de reais para colocação de cadeiras para o mundial da Fifa. Para as obras do Pan, foram gastos R$320 milhões para uma nova adequação e, quatro anos depois, tudo o que foi feito foi demolido para a Copa do Mundo. “Vamos chegar a quase dois bilhões de reais investidos no estádio do Maracanã nos últimos dez anos. Em compensação a capacidade do estádio será reduzida de 180 mil para 75 mil pessoas”, destacou.  O dinheiro poderia ser melhor gasto, por exemplo, se investido no esporte de base e melhoria da estrutura das escolas. Apenas 15% das escolas fluminenses têm áreas de lazer.

“A cidade constrói o estádio e tem que entregar para a Fifa durante o mês da Copa. Na África do Sul, durante a Copa, a dívida chegou a 6 bilhões de dólares enquanto que no mesmo período o lucro da Fifa chegou a 4 bilhões de dólares. É uma transferência de dinheiro público para os cofres da Fifa”, finalizou.

O geógrafo fez uma denúncia. Falou do impacto negativo para a administração pública das cidades com a renúncia fiscal gerada pela construção da hotéis no padrão cinco estrelas:  “O que vai acontecer com esses hotéis, que não tem que pagar IPTU até 2022 e são financiados pelo BNDES no Brasil inteiro?”.

O pesquisador destacou a importância de se identificar a geografia de interesses existentes por trás das grandes obras, seja por motivos políticos como econômicos, para que os profissionais da imprensa não se tornem meros reprodutores das declarações da FIFA e da COI. Para completar, citou uma lista com as empresas mais beneficiadas com as obras da Copa e da Olimpíada: Odebrecht, OAS, Carioca, Carvalho Hosken, Delta e empresas internacionais de aço, concreto, engenharia. “Temos que saber quais são os interesses econômicos, políticos, qual a geografia desses interesses”.

A palestra “Impactos urbanísticos das obras para Copa e Olimpíada no Brasil”  foi realizada das 9h às 10h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrante: Chris Gaffney (UFF) geostadia@gmail.com. Moderador: José Roberto de Toledo (O Estado de S. Paulo/Rede TV/Abraji). Clique para download da apresentação.

O jornalista de investigação, peça clave na imprensa de fronteira

Por Andrea Rivera (4°ano/ Universidad Carlos III de Madrid/ Intercâmbio na Universidade de São Paulo)

“No Paraguai, a imprensa é o meio de comunicação que mais influencia exerce sobre a população e, além disso, é muito melhor do que a imprensa brasileira”, indicou o mediador José Roberto de Toledo na apresentação da palestra “Investigação transnacional: as conexões do PCC com o narcotráfico no Paraguai”, que contou com a presença do jornalista paraguaio Rosendo Duarte como palestrante.

A conferência foi uma explicação de como o Primeiro Comando da Capital (PCC) se tornou a principal organização criminosa no Paraguai, embora esteja presente em toda a América Latina. Além disso, Duarte prestou uma especial dedicação para a cidade Salto del Guairá, na que o PCC teve a sua origem no país vizinho.

Rosendo Duarte (ABC Color)

Como a principal atividade do PCC no Paraguai destaca o comércio de drogas, principalmente a a maconha, considerada a melhor do mundo. Essa atividade se vê facilitada pelo fato de que no Paraguai são utilizadas aproximadamente de 3 a 5 mil hectares por ano para a produção de marijuana dedicada ao consumo externo, superfície de terra que rende uma produção que oscila entre os 9 e 15 milhões de quilogramas.

Para combater essa realidade, foi criada a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) a qual, no ano passado, destruiu 1,013 hectares de terra dedicada à plantação de maconha, o que daria uma produção de 3,040,000 quilogramas.

Historicamente, o tráfico de drogas e armas no Paraguai começa com a instauração da República, fato que se viu motivado com que a marijuana é nativa do país e desde sempre foi utilizada pela comunidade dos Guaranis nos seus rituais e cultos. Hoje, foram trazidas da Europa sementes modificadas que oferecem uma maior qualidade e, na composição, 22% a mais de uma droga ainda mais forte, a THC, a abreviação para tetrahidrocanabinol, um composto químico encontrado na planta cannabis, que, quando usado, seja através de ingestão ou inalação, em doses baixas atua como redutor da dor e pode reduzir a agressividade, estimular o apetite e ajudar a reduzir a náusea. Em doses elevadas podem levar a alterações na percepção de tempo e espaço, sentimento de felicidade, ou sentimentos de fadiga.

O PCC chegou ao Paraguai entre os anos 2004 e 2005 e foi constituído, na sua maior parte, por delinquentes que fugiram do Brasil. Não obstante, também conta com os chamados “soldados brancos”, isto é, fichas limpas que unicamente vão fazer negócios de contrabando ou de abastecimento de entorpecentes, e voltam para o Brasil. Os delinquentes que se afiançam no país vizinho procuram uma nova identidade, tanto brasileira quanto paraguaia, ajudados pela corrupção policial existente.

Dentro dessa situação em que os delinquentes conseguem novas identidades, para Duarte resulta hilário que eles nunca são reconhecidos digitalmente, nem no Paraguai nem no Brasil, situação que facilita a sua ocultação, e dificulta o conhecimento real de quem são.

Outra realidade que resulta incoerente para Duarte é o fato de que as armas e as drogas não encontram resistência nas fronteiras. Seguindo esta linha, o palestrante considera que o grande problema que o jornalismo investigativo tem no Brasil é que não se investiga como é possivel o transporte dessas armas e drogas quilômetro atrás de quilômetro sem nenhum impedimento.

Os assistentes à palestra também puideram conhecer a história de Cándido Clovi, quem foi conhecido como Adrian Alex Lima e como “Cabelo”, homem que levou o estilo do PCC ao Paraguai em 2005 e se viu envolvido em vários atracos e assasinatos perpetrados em Salto del Guairá.

Para Duart, existe uma “necessidade de trabalhar conjuntamente no jornalismo investigativo”, embora esse tipo de jornalismo não seja fácil” pois, no seu caso pessoal, tem que ter viver com um policial nas suas costas, situação que apontou ser “comum na imprensa de fronteira”.

A palestra Investigação transnacional: as conexões do PCC com o narcotráfico no Paraguai foi realizada das 11h às 12h45 de 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista José Roberto de Toledo (toledo@abraji.org.br). O palestrante foi:  Rosendo Duarte (Rduarte@abc.com.py) (