Kristinn responde aos jornalistas

Kristinn Hrafnsson, representante do Wikileaks, falou sobre ética, dinheiro e motivações no jornalismo, durante a coletiva de imprensa da palestra Wikileaks – impactos dos vazamentos para o jornalismo investigativo no 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Por Maria Clara Lima (4º ano/Unesp)

Kritinn Hrafnsson

Que tipo de desafios éticos vocês encaram em divulgar tanta informação? 

Nós trabalhamos com uma política restrita onde não devemos soltar informações inúteis que possam causar danos a alguma pessoa intencionalmente. Não vamos dizer que  não iremos falar em nomes ou citar nomes nos documentos. É quase necessário dizer que quando envolvemos ofícios políticos, técnicos ou pessoas em poder.  Nós temos o compromisso com as pessoas que não têm esse poder. Nós somos frequentemente chamados de inconsequentes, eu posso dizer que essas pessoas estão erradas, nós temos sido bastante cuidadosos. Há histórias grandes que soltamos sobre o Iraque, Afeganistão, missões diplomáticas em todo o mundo e Guantanamo, nenhuma pessoa foi prejudicada nesse processo. Esses relatórios são conhecidos pelo governo dos Estados Unidos, pelo Pentágono, pela OTAN, por oficiais do Afeganistão , e só porque divulgamos algumas declarações desses documentos nós estamos sendo descuidados. Isso está errado. Quando os documentos sobre o Iraque foram lançados, nós tivemos um cuidado de marcar algumas informações que poderiam causar algum efeito negativo.

Qual a importância que o Bradley Manning teve para o Wikileaks?

Você disse que o Bradley Manning foi a fonte do material que estamos lançando nos últimos 14 meses, alegam que ele é a fonte, eu não tenho conhecimento sobre se ele é a fonte ou não.   Ele está encarando um julgamento difícil, e se ele for de fato a fonte desses documentos, ele é o mais importante informante da atualidade, em minha opinião ele é um herói e deve ser solto.    Ele [Manning] está preso em uma solitária há 10 meses, foi despido e humilhado, impedido de dormir, torturado. O Wikileaks não aconteceu de uma vez só, começou em 2006 e até o ano passado já tínhamos soltado algumas informações. O projeto que desenvolvemos em 2010, de permitir a informação aos documentos que tínhamos foi um resultado disso. Mas se Bradley Manning foi o informante, sem ele não teria sido o mesmo. Por causa do vazamento desses documentos, pudemos expor alguns governos como o Queniano, onde ocorria corrupção e matanças, o da Costa do Marfim e o derramamento de lixo tóxico, coisas erradas que aconteciam no setor de bancos. A coisa engraçada é que sempre fomos vistos como anticapitalistas, antiamericanos, mas eu amo a Primeira Emenda, e chego a desejar que os americanos fossem mais fãs dos princípios da Primeira Emenda, mas eles pareceram esquecer o que é liberdade e democracia O Wikileaks para de funcionar amanhã, mas o nosso trabalho não foi terminado, porque a ideia está aí, e isso é o mais importante.

Você leu o livro Wikileaks do editor do The Guardian? 

Sim, eu li o livro do David Lee e seu parceiro [Luke Harding], e o mais interessante é o que está faltando nas informações. Há um exemplo que eu gosto muito. A primeira página do livro conta uma anedota sobre o Julian Assange, dizendo que por causa de sua paranoia, ele se vestiu de mulher para tentar escapar de um hotel, entrou em um beco escuro e partiu em um carro vermelho batido. Não havia carro batido algum, porque fui eu quem alugou o carro, e era uma minivan preta! Alguns amigos dele ouviram a história e contaram na redação do “The Guardian”, mas ele nem estava lá. Eu tirei a foto do Julian vestido de mulher e mostrei a um jornalista, que contou a história para David. Por que o Julian estava vestido assim? Era tudo uma brincadeira. Pegamos o casaco da Natalia [Viana], um cachecol e tiremos fotos. David Lee pegou essa piada e usou para mistificar a imagem de excêntrico do Assange.

Gostaria que o senhor falasse da diferença entre investigar documentos públicos e documentos de empresas privadas.

Não há diferença em termos de técnica jornalística de investigação, já que a posse do nosso material não está ligada de onde ele vem. Algumas informações são extremamente técnicas e difíceis de ler, como os documentos com linguagem militar que recebemos sobre o Iraque. Depois dessa fase, partimos para a apuração e verificação dos documentos, para a investigação.

 Você considera o jornalismo colaborativo caro? Qual a relação entre o jornalismo de qualidade e o dinheiro?

Dinheiro sempre foi um fator difícil no jornalismo. Estou lendo um livro editado pelo John Pilgrim sobre suas matérias e investigações, e o que me chama atenção é que há momentos que não há dinheiro, ou sofremos censura, e até temos que trabalhar de graça até conseguirmos o primeiro furo, a primeira grande história. Há aqueles jornalistas tradicionais que se acomodam a receber informações e apenas distribuí-las.  Até mesmo na grande mídia, podemos enfrentar situações assim, empresas diminuem o orçamento e não há dinheiro para fazer matérias investigativas, e mesmo assim há aqueles que fazem e conseguem uma boa apuração. É aprender a se virar, e aí entra a importância do jornalismo colaborativo. Internet, blogs, comunicação virtual, tudo isso ajuda na hora de se escrever uma história. Temos a estrutura da redação, mas de maneira independente. Há blogs assim na Romênia, na Bulgária. Ao compartilhar esses dados, os jornalistas estão colaborando para apuração de outros que não podem ir até lá. Temos que ter a convicção de que não trabalhamos para as organizações midiáticas, nem para enriquecer nosso perfil, nem para o governo, e sim para o público.

As perguntas foram feitas durante a palestra Wikileaks – impactos dos vazamentos para o jornalismo investigativo foi realizada das 09h às 10h30 de 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Fernando Rodrigues (e-mail frodriguesbsb@uol.com.br). Os palestrantes foram:  Kristinn Hrafnsson (e-mail kristinn@ruv.is) e Natalia Viana (e-mail viana.natalia@gmail.com)

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Publicado em 2 de julho de 2011, em Jornalismo Internacional, Jornalismo on-line, Política e administração pública e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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