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Fazer jornalismo investigativo é retratar por completo a realidade

Por Michelle Magri (4º ano/Uninove)

Foto: Lina Ibañez

“O jornalismo investigativo consolidou-se no mundo todo como sinônimo de bom jornalismo, de reportagens profundas, alentadas, que procurem esgotar um determinado assunto”. Foi com o pensamento do presidente da Abraji, Fernando Rodrigues, que o repórter especial do Diário de Pernambuco, Vandeck Santiago, e o vice-presidente da Rede Paranaense de Comunicação, Guilherme Cunha Pereira, definiram jornalismo investigativo.

Para Santiago, que iniciou a carreira em 1985, todo veículo deveria direcionar ao menos três jornalistas da equipe para a produção de matérias especiais. Segundo ele, o primeiro passo para um jornal deixar de ser regional e tornar-se nacional é investir em pesquisas aprofundadas. “Toda matéria deve começar com uma boa pesquisa. Hoje o jornalista não tem mais tempo para ir a uma biblioteca, pesquisar na internet se há alguma tese ou alguma dissertação sobre o assunto, mas isso é fundamental”.

Vandeck Santiago discute o diferencial do jornalismo investigativo

Santiago afirma que a grande preocupação dos jornalistas, deve ser transformar um fato corriqueiro em documento da realidade. “As notícias imediatas são apenas fatos narrados. Aconteceu algo, você apurou e registrou, isso é apenas de um fragmento da realidade. Agora, à medida em que você pesquisa, traz fatos novos e os transforma em documento da realidade, você os tornam investigativos, e aí é retratada a realidade completa”.

Para Pereira, driblar a era do imediatismo e investir em um jornalismo de qualidade é extremamente vantajoso do ponto de vista institucional. “O que garante a solidez do veículo é a personalidade e a perenidade dele. Para se ter uma relação duradoura com o leitor ou com o telespectador, o veículo deve ter uma identidade bem constituída”.

Segundo o vice-presidente da Rede Paraense, ao investir em jornalismo investigativo é necessário saber que o lucro não é imediato: “o resultado econômico de um ano, por exemplo, não garante o sucesso posterior do jornal”. Para ele, a empresa tem de ter um resultado excepcional em um certo ano mas se isso não se traduzir em aumento da circulação, é muito grande o risco do resultado seguinte ser bem diferente.

Referindo-se a busca de audiência imediata, o palestrante ressalta que é preciso ter cautela, principalmente quando se comemora os ganhos financeiros. “Quem busca audiência a qualquer custo pode até obter resultados importantes a curto prazo, mas pode comprometer a sobrevivência do veículo”.

O jornalista Gustavo Mota,da Inter TV, filiada da Rede Globo em Campos (RJ), presente na plateia, conta que a palestra foi esclarecedora: “Os palestrantes esclareceram muitos pontos para mim, principalmente essa questão da identidade do veículo. Não devemos trabalhar apenas para cumprir nossa carga horária, temos que ajudar a criar a identidade do veículo em que trabalhamos. Vou tentar passar isso para o pessoal lá no Rio”.

A palestra Por que investimos em jornalismo investigativo foi realizada das 16h às 17:30h de 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi mediada pelo jornalista Mauri König. Os palestrantes foram: Vandeck Santiago (e-mail vandeck@uol.com.br) e Guilherme Cunha Pereira (e-mail guilherme@grpcom.com)

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Kristinn responde aos jornalistas

Kristinn Hrafnsson, representante do Wikileaks, falou sobre ética, dinheiro e motivações no jornalismo, durante a coletiva de imprensa da palestra Wikileaks – impactos dos vazamentos para o jornalismo investigativo no 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Por Maria Clara Lima (4º ano/Unesp)

Kritinn Hrafnsson

Que tipo de desafios éticos vocês encaram em divulgar tanta informação? 

Nós trabalhamos com uma política restrita onde não devemos soltar informações inúteis que possam causar danos a alguma pessoa intencionalmente. Não vamos dizer que  não iremos falar em nomes ou citar nomes nos documentos. É quase necessário dizer que quando envolvemos ofícios políticos, técnicos ou pessoas em poder.  Nós temos o compromisso com as pessoas que não têm esse poder. Nós somos frequentemente chamados de inconsequentes, eu posso dizer que essas pessoas estão erradas, nós temos sido bastante cuidadosos. Há histórias grandes que soltamos sobre o Iraque, Afeganistão, missões diplomáticas em todo o mundo e Guantanamo, nenhuma pessoa foi prejudicada nesse processo. Esses relatórios são conhecidos pelo governo dos Estados Unidos, pelo Pentágono, pela OTAN, por oficiais do Afeganistão , e só porque divulgamos algumas declarações desses documentos nós estamos sendo descuidados. Isso está errado. Quando os documentos sobre o Iraque foram lançados, nós tivemos um cuidado de marcar algumas informações que poderiam causar algum efeito negativo.

Qual a importância que o Bradley Manning teve para o Wikileaks?

Você disse que o Bradley Manning foi a fonte do material que estamos lançando nos últimos 14 meses, alegam que ele é a fonte, eu não tenho conhecimento sobre se ele é a fonte ou não.   Ele está encarando um julgamento difícil, e se ele for de fato a fonte desses documentos, ele é o mais importante informante da atualidade, em minha opinião ele é um herói e deve ser solto.    Ele [Manning] está preso em uma solitária há 10 meses, foi despido e humilhado, impedido de dormir, torturado. O Wikileaks não aconteceu de uma vez só, começou em 2006 e até o ano passado já tínhamos soltado algumas informações. O projeto que desenvolvemos em 2010, de permitir a informação aos documentos que tínhamos foi um resultado disso. Mas se Bradley Manning foi o informante, sem ele não teria sido o mesmo. Por causa do vazamento desses documentos, pudemos expor alguns governos como o Queniano, onde ocorria corrupção e matanças, o da Costa do Marfim e o derramamento de lixo tóxico, coisas erradas que aconteciam no setor de bancos. A coisa engraçada é que sempre fomos vistos como anticapitalistas, antiamericanos, mas eu amo a Primeira Emenda, e chego a desejar que os americanos fossem mais fãs dos princípios da Primeira Emenda, mas eles pareceram esquecer o que é liberdade e democracia O Wikileaks para de funcionar amanhã, mas o nosso trabalho não foi terminado, porque a ideia está aí, e isso é o mais importante.

Você leu o livro Wikileaks do editor do The Guardian? 

Sim, eu li o livro do David Lee e seu parceiro [Luke Harding], e o mais interessante é o que está faltando nas informações. Há um exemplo que eu gosto muito. A primeira página do livro conta uma anedota sobre o Julian Assange, dizendo que por causa de sua paranoia, ele se vestiu de mulher para tentar escapar de um hotel, entrou em um beco escuro e partiu em um carro vermelho batido. Não havia carro batido algum, porque fui eu quem alugou o carro, e era uma minivan preta! Alguns amigos dele ouviram a história e contaram na redação do “The Guardian”, mas ele nem estava lá. Eu tirei a foto do Julian vestido de mulher e mostrei a um jornalista, que contou a história para David. Por que o Julian estava vestido assim? Era tudo uma brincadeira. Pegamos o casaco da Natalia [Viana], um cachecol e tiremos fotos. David Lee pegou essa piada e usou para mistificar a imagem de excêntrico do Assange.

Gostaria que o senhor falasse da diferença entre investigar documentos públicos e documentos de empresas privadas.

Não há diferença em termos de técnica jornalística de investigação, já que a posse do nosso material não está ligada de onde ele vem. Algumas informações são extremamente técnicas e difíceis de ler, como os documentos com linguagem militar que recebemos sobre o Iraque. Depois dessa fase, partimos para a apuração e verificação dos documentos, para a investigação.

 Você considera o jornalismo colaborativo caro? Qual a relação entre o jornalismo de qualidade e o dinheiro?

Dinheiro sempre foi um fator difícil no jornalismo. Estou lendo um livro editado pelo John Pilgrim sobre suas matérias e investigações, e o que me chama atenção é que há momentos que não há dinheiro, ou sofremos censura, e até temos que trabalhar de graça até conseguirmos o primeiro furo, a primeira grande história. Há aqueles jornalistas tradicionais que se acomodam a receber informações e apenas distribuí-las.  Até mesmo na grande mídia, podemos enfrentar situações assim, empresas diminuem o orçamento e não há dinheiro para fazer matérias investigativas, e mesmo assim há aqueles que fazem e conseguem uma boa apuração. É aprender a se virar, e aí entra a importância do jornalismo colaborativo. Internet, blogs, comunicação virtual, tudo isso ajuda na hora de se escrever uma história. Temos a estrutura da redação, mas de maneira independente. Há blogs assim na Romênia, na Bulgária. Ao compartilhar esses dados, os jornalistas estão colaborando para apuração de outros que não podem ir até lá. Temos que ter a convicção de que não trabalhamos para as organizações midiáticas, nem para enriquecer nosso perfil, nem para o governo, e sim para o público.

As perguntas foram feitas durante a palestra Wikileaks – impactos dos vazamentos para o jornalismo investigativo foi realizada das 09h às 10h30 de 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Fernando Rodrigues (e-mail frodriguesbsb@uol.com.br). Os palestrantes foram:  Kristinn Hrafnsson (e-mail kristinn@ruv.is) e Natalia Viana (e-mail viana.natalia@gmail.com)

Os riscos e as vantagens do humor no jornalismo

Por Luiz Felipe Guimarães (1º ano, ECA-USP)

Foto: Vinicius Gorczeski

Marcelo Tas, jornalismo e humor

O último dia do 6º Congresso ABRAJI contou com a presença de Marcelo Tas, jornalista e humorista, para palestrar sobre a Cobertura Política com Humor. A palestra foi pautada pela  grande questão deste tipo de cobertura: o quão válido é o humor no Jornalismo?

Antes do início da palestra o que mais se ouvia na plateia eram comentários sobre o CQC, programa em que Tas é âncora e coordenador editorial, e especulações sobre qual tom teria a apresentação. Aqueles que esperavam por um tom descontraído não se decepcionaram: logo de início Marcelo brincou com o horário da palestra: “Palmas para nós que levantamos hoje cedo”. Em seguida, apresentou vídeos de Ernesto Varela, um antigo personagem que era um repórter/humorista.

Tas acredita que o Brasil tem paladar especial pelo humor misturado com o jornalismo, mas adverte que, a priori, os dois são incompatíveis: “O humor é impreciso, às vezes irresponsável, enquanto o jornalismo tem o dever de ser exatamente o oposto”. Com essa declaração Tas aproveitou para criticar a postura da mídia, que na ânsia de vender suas notícias, chega a ser menos responsável e séria do que muitos humoristas.

Como um entusiasta do humor no jornalismo, Tas constantemente ressaltou como o humor potencializa o efeito de uma matéria. Dando exemplos do CQC, programa que em seu início sofreu com a indiferença dos políticos, mas hoje é respeitado por eles, mostrou como o humor na cobertura política incentivou jovens a se interessarem pelas notícias do Planalto.

Perguntado se os telejornais tradicionais deveriam introduzir o humor em suas matérias, Tas foi contundente em afirmar os riscos: “o humor é sofisticado, caro e difícil. As chances de erro da mistura entre piada e informação são imensas”. Para ele, existe uma grande diferença entre o jornalismo com humor e jornalistas engraçadinhos.

A palestra Cobertura de administração pública com humor foi realizada das 9h às 10h30 de 2º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br).Palestrante: Marcelo Tas (CQC).