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“É preciso trocar informação”

Por Camila Moura

O que você, estudante de jornalismo ou foca, acharia se pudesse ter acesso ao making off das grandes reportagens, vencedoras dos principais prêmios de jornalismo do país? Todos os segredos e dificuldades seriam desvendados. Essa é a ideia de um projeto que nasceu há 5 anos, e foi retomado nos bastidores do 6º Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji por Sergio Gomes (OBORÉ) e Angelina Nunes (editora assistente da editoria Rio do O Globo e coordenadora o grupo de Administração Pública).

 

A ideia principal é fazer com que o regulamento dos concursos que premiam reportagens tenham uma cláusula que obrigue os vencedores a descrever em detalhes todo o processo de realização, desde a origem da pauta, as dificuldades e fontes de pesquisa, até chegar ao resultado final. Assim, grandes profissionais estarão contribuindo para a formação do jovem jornalista, uma vez que esse material ficará disponível às universidades.
Registramos o encontro de Sérgio Gomes e Angelina Nunes. Assista ao vídeo e confira:

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O futuro dos bancos de dados na internet

Por Taina Mansani (Cientista Social/ USP e jornalismo/ Cásper Líbero)

“Como fazer dados falarem?” Essa tem sido a preocupação de Aron Pilhofer, diretor de interatividade do jornal norte-americano The New York Times. Em palestra sobre Data-driven journalism: o futuro dos bancos de dados na internet, Pilhofer falou sobre como a linguagem web pode auxiliar na visualização dos dados para mostrar o que é importante.

Ele é responsável por uma equipe de repórteres e programadores que “contam histórias” através de ferramentas da internet. Pilhofer concorda que, além da interatividade, a web pode ser um campo em expansão para o trabalho jornalístico. O profissional que dominar essa linguagem certamente terá espaço no mercado de trabalho, que é concorrido.

Aron Pilhofer (The New York Times)

Para o moderador da palestra e diretor de infografia e multimídia da revista Época, Alberto Cairo, se há uma área dentro do jornalismo que está em expansão é a visualização de dados na internet.

Pilhofer é pioneiro no trabalho com bancos de dados em linguagem acessível na web. Também foi editor do banco de dados do “Center for Public Integrity” (organização sem fins lucrativos que atua para transparência de informações e auxílio ao jornalismo investigativo).

A palestra Data-driven journalism: o futuro dos bancos de dados na internet foi realizada das 14h as 15h30 no dia 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi a jornalista Aron Pilhofer (The New York Times).

Uma classe que traz novos paradigmas

Por Michele Francisco (3º ano /Anhembi Morumbi)

A classe C é uma classe em plena ascensão no Brasil e tem se destacado em diversos setores da sociedade e da economia. Segundo pesquisa da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), essa classe cresceu 47,94%, está emergindo e tem um poder de força no país. Para a editora sênior da revista Exame em Brasília e representante do Brasil no Comitê Internacional da Online News Association (ONA), Angela Pimenta, o “jornalismo precisa de um canal direto para falar com essa classe, que quer construir carreira, quer trazer melhorias para o seu bairro, e são formadores de opinião”.

“Os jornalistas estão em um território novo e desconhecido. A classe C não quer ser tutelada, ela quer é ser informada”, afirma Pimenta. Para a jornalista, na medida em que a classe média sobe, ela se torna mais consciente do seu poder de voto e do seu papel como pagadora de impostos. “Os jornalistas precisam cobrir de maneira mais interessante o que é relevante” conclui.

Marta Gleich (RBS), Mauricio Stycer (UOL) e Angela Pimenta (Exame)

O jornalismo on-line traz muitas oportunidades para falar de maneira mais intensa com a classe C, é uma classe que tem um peso inédito no consumo, no acesso à internet, e na formação da opinião pública. Pimenta acredita que é através desse canal que o jornalismo tem conseguido informar essa classe, e permitiu que passasse a refletir mais. “Não temos que ser um jornalismo apenas para a classe A e B, temos que trazer notícias com todos os segmentos da sociedade”.

Para Pimenta, o jornalismo de serviço, que é o “patinho feio” das redações, é um dos caminhos para abordar temas difíceis para algumas classes. É também a maneira para aproximar essa população do que eles precisam. A jornalista responsável pelo negócio de Internet do Grupo RBS, Marta Gleich, se utiliza das novas mídias para prestar serviços de interesse público. “A linha de comunicação era só para os jornalistas, a Revolução Digital trouxe a interatividade, o que aproximou o público do veículo. Essa proximidade nos possibilitou receber críticas, cobranças e novas ideias de pautas” afirma.

“O interessante não é o jeito que contamos a história, e que está mudando de uma maneira rápida, interessante”, conclui Gleich. Ela enfatiza que o importante é ter o público, as histórias e o trabalho dos jornalistas no meio. “É preciso ter uma visão multimídia da pauta, não tem mais limite para a maneira de contar as histórias”. Para ela o jornalismo “buraco de rua” que é a pauta mais chata de se fazer, tomou novos rumos com as mídias digitais, deu a ele mais visibilidade, mais repercussão.

A palestra A reinvenção da notícia? O que todo repórter deve saber sobre a expansão das novas mídias no país foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrante: Marta Gleich (RBS) e Angela Pimenta (e-mail apimenta11@gmail.com – download da apresentação). Moderador: Mauricio Stycer (UOL)

“Não há legislação que sirva para coisa alguma se a lei não é administrada”, Abramo

Por Andrea Rivera (4°ano/ Universidad Carlos III de Madrid/ Intercâmbio na Universidade de São Paulo)

Licitações foram foco da palestra

As licitações são um tema muito na pauta, por isso, como aprimorar essa lei das licitações e contatos? Isso é o que Claudio Weber Abramo se perguntou hoje no início da palestra “Licitações: técnicas para detectar as formas mais comuns de desrespeito à lei 8666”.

Para dar resposta, há de saber se que todos os governos têm gastos e que ninguém produz o que se consume. A forma que os governos têm para comprar é mediante as licitações públicas. O que os governos não gastam em pessoal, o gastam em licitações. Quando esse dinheiro estatal não está sendo bem utilizado, é quando falamos de corrupção; no obstante, a corrupção é, para Abramo, só “um detalhe” dentro de todo o sistema no que o dinheiro público é gastado.

Abramo explicou que cada governo escolhe como faz as suas compras, pelo que as leis criadas para determinar isto são muito diferentes umas das outras. Estudos de transação são precisos para poder entrar nos mercados e, ademais, ter condições de competir.

Uma licitação é o procedimento administrativo dos diferentes entes da Administração Pública para conseguir produtos, realizar serviços ou executar obras. Esse procedimento está regulado no Brasil pela Lei 8666/93.

Nas licitações, normalmente, as entidades públicas especificam as características dos produtos, serviços ou obras que querem encomendar. Quanto mais complicado é o produto, mais especificações serão necessárias.

Essas especificações, junto com as diligencias necessárias precisam de um capital mínimo por parte das empresas, como forma de assegurar o bom funcionamento e a consecução do projeto que foi encomendado.

Uma das formas que existem para cometer uma fraude e não dar a mesma oportunidade a todos os concorrentes às licitações é a de estipular especificações técnicas muito precisas e que só a empresa que se quer que adquira o projeto cumpre.

Outra forma de criar barreiras para a entrada de empresas na licitação é impedindo que elas possam se abrir a novas oportunidades de mercado. Por exemplo, que uma empresa que trabalha com plástico não possa entrar numa licitação para a fabricação de copos de plástico porque nunca antes tinha desenvolvido essa atividade empresarial.

A fraude também pode ser encontrada quando a empresa pública subdivide, com limites absurdos, a cadeia de produção. Isto é, quando em uma licitação para adquirir cadeiras, a empresa pública pede os ferros a uma empresa, a madeira a outra, etc. O mesmo acontece quando a uma mesma empresa lhe são dadas mais competências das que está capacitada para ter; o exemplo para isto seria que uma empresa tem o controle sobre as impressoras e o serviço técnico duma empresa pública. Essas duas atividades são totalmente diferentes e independentes a uma da outra, pelo que deveriam ser coordenadas por empresas especializadas em cada área.

A formação de cartéis (acordos entre empresas concorrentes) também é uma forma de fraudar, ao igual que, quando um projeto já está em execução, a empresa que obteve a licitação não cumpre rigorosamente com as especificações técnicas pedidas pela empresa pública.

Finalmente, Abramo também mostrou o funcionamento do site Assistente interativo de Licitações, no que todas as pessoas que acessam podem comprovar se as diferentes licitações cumprem com a normativa da Lei 8666/93.

A palestra Licitações: técnicas para detectar as formas mais comuns de desrespeito à lei 8666 foi realizada das 14h às 15h45 de 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Flávio Ferreira (flavio.ferreira@grupofolha.com.br/flaviomf@uol.com.br). O palestrante foi Claudio Weber Abramo (crwa@transparencia.org.br).

O interesse público na relação com a fonte

Por Alexandre Dall´Ara (3º ano/ECA-USP)

Foto: Vinicus Gorczeski (4º ano/ Metodista) e Alexandre Dall´Ara (3º ano/ECA-USP)

Marta Solomon e Matheus Leitão durante a palestra

Marta Salomon, da sucursal de Brasília de O Estado de S. Paulo, resiste em usar o termo jornalismo investigativo. Para ela, todo jornalismo é feito de investigação. Ela reconhece, no entanto, que existem peculiaridades. “Esse jornalismo depende muito de fontes como Polícia Federal e Ministério Público”

Mas lidar com fontes não é simples, principalmente quando o trabalho envolve denúncia. “O que nos liga em termos de confiança é a certeza de que ambos temos o mesmo objetivo que é o bem público. No momento que eu descobrir que você [a fonte] está querendo me usar por interesses pessoais, desculpa, mas não tem compromisso” explica Sérgio Leo, do jornal Valor Econômico. Leo é marido de Salomon e acompanhou a palestra.

A quebra de compromisso com a fonte é uma aposta delicada, mas de acordo com Matheus Leitão, é necessária para defender o interesse público. Ele cobriu o Caso Arruda pelo portal IG e conta que Durval, autor dos vídeos que provavam a corrupção, poderia ter mais material exclusivo, mas nem por isso ele deixou de ser alvo de denúncias. “O que a gente fez foi investigar ele também porque ele era um delator, ele fazia parte do esquema”.

Miriam Leitão assistiu à palestra do filho e também comentou o compromisso do jornalista com seu público. “A gente tem que saber o nosso compromisso é com o leitor. Você constrói uma relação de confiança de parte a parte [com a fonte], mas tem de ficar claro pra você [repórter] que a prioridade é o leitor”.

Marta Solomon conversa com participantes do Congresso

Segundo Salomon, o jornalismo investigativo depende também de uma boa leitura dos jornais e do acesso às informações públicas disponíveis nos portais do governo, no Diário Oficial, em sites como o da Caixa Econômica Federal e a Transparência Brasil.

Ela contou sobre sua matéria do Primeiro Emprego. Com uma pesquisa no Siafi (sistema informatizado de acompanhamento de gastos federais), a repórter descobriu que o programa governamental só havia empregado uma pessoa em um ano de governo do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. A jornalista foi atrás do personagem, um funcionário de uma franquia de restaurantes na Bahia. “Hoje você dispõe de uma quantidade enorme de acervo de informações na internet e aí você vai em cima das fontes. É sempre bom também ter um personagem para não ficar apenas nos números.”

Mas as investigações de corrupção ou irregularidades não devem necessariamente ser uma meta do jornalismo, segundo a repórter. “Eu acho que o leitor merece muito mais do que escândalo, se eu pudesse eu escreveria muito menos sobre escândalo. Eu gosto de contar histórias”.

A palestra Investigação em Brasília – Caminhos e descaminhos do dinheiro público foi realizada das 9h às 11h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Marta Salomon (O Estado de S. Paulo – download da apresentação), Matheus Leitão (Folha de S. Paulo – download da apresentação). Moderador: Angelina Nunes (O Globo)

Links úteis:

http://www.transparencia.org.br/

http://www.portaldatransparencia.gov.br/

http://www.excelencias.org.br/

http://www.tesouro.fazenda.gov.br/siafi/index.asp

Pauta: uma produção coletiva

Por Efraim Caetano (2º ano/Unicsul)

Godoy, Venéri e Beraba – Pautar e não ser pautado

Quem acorda pela manhã e lê o jornal ou liga o rádio e ouve uma notícia, não imagina o processo da produção da reportagem. Porém, em se tratar disso, os jornalistas Marcelo Godoy, Renata Venéri e Marcelo Beraba tiram de letra. “O trabalho que você vê no jornal no dia seguinte é um trabalho feito por dezenas de pessoas e, não por mini gênios que resolvem tudo sozinho”, afirma Godoy, chefe de reportagem do jornal “O Estado de S.Paulo”.

Beraba, diretor da sucursal no Rio de Janeiro do jornal “O Estado de S.Paulo” e diretor da Abraji, lembra que hoje não há mais o pauteiro como uma função específica. “A produção da pauta é uma produção coletiva e é um a dinâmica completamente diferente da época do pauteiro”, diz.

Para Venéri, chefe de produção da Rádio “BandNewsFM”, produzir notícia para rádio não há mais a formalidade da pauta, pois tudo é “muito dinâmico” e “é necessário que seja assim, senão fica amarrado e burocrático”. E vai além: “rádio é tudo muito rápido. Todo mundo produz notícia”, conclui.

Com uma plateia repleta de estudantes, Godoy e Venéri responderam sobre a chegada dos recém-formados em jornalismo na redação e foram enfáticos ao dizer que a nova geração é uma turma que tem muitas ideias e, o que falta é a técnica. “Não é todo mundo que chega pronto na redação, mas se aprende. Faz parte da sua função orientar”, diz Godoy.

Para a estudante de jornalismo Tamiris Gomes, 20, o conteúdo abordado na palestra é completamente diferente daquele adquirido na universidade e, ressalta que participar do congresso é um diferencial no aprendizado dos estudantes de comunicação.

A palestra Pauta e pauteiro: entre a agenda e a ousadia foi realizada das 11h às 12h30h de 02 de julho de 2011, na sede da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Marcelo Beraba (e-mail marcelo.beraba@grupoestado.com.br). Os palestrantes foram Marcelo Godoy (e-mail marcelo.godoy@grupoestado.com.br) e Renata Venéri (e-mail rveneri@band.com.br).

Jornalismo independente: uma alternativa que começa a dar certo

Por: Juliana Conte (jornalista)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/Metodista)

Palestra de Joshua Benton e Brant Houston

O jornalismo investigativo online pode ser uma alternativa para aqueles que estão cansados de trabalhar em jornais diários e não encontram espaços para publicar reportagens mais aprofundadas e analíticas.

De acordo com Joshua Benton, diretor da “Nieman Lab”, nos Estados Unidos, essa tendência vem aumentando a cada ano.
No começo, muitos jornalistas começam escrevendo em blogs sem fins lucrativos. Passado certo período, seu nome torna-se conhecido naquele meio e ele consegue entrar com projeto e ganhar recursos a órgãos como o Knigth Center for Journalism in the Americas para realizar reportagens de maior fôlego.

“Eu tenho exemplos de um blog que cobria a indústria do chocolate. Eles fizeram uma reportagem surpreendente sobre uma indústria que dizia vender chocolates de qualidade superior, no entanto, os ingredientes que eles utilizaram eram normais, não tinha nada demais. As pessoas estavam pagando por algo que não correspondia com a verdade”.

Brant Houstan, professor da Universidade de Illinois nos EUA, disse que é necessário buscar matérias que a grande mídia não está preocupada em fazer. Entretanto, para realizar essas publicações é preciso dinheiro, o que acaba dificultando um pouco as coisas.

Ele complementa ainda que países fora dos Estados Unidos não possuem tradição de criar instituições para ajudar os jornalistas com treinamentos e até suporte para realizar as matérias.

A mesa discutiu o Jornalismo Independente On-Line

No Brasil, esse tipo de jornalismo mais investigativo publicado em blogs e outras redes estão começando a ganhar espaço.

A moderadora da conferência, a jornalista Natalia Viana da “Pública”, disse que trabalha com jornalismo independente há sete anos, desde que saiu da revista “Caros Amigos”.

“É possível viver  fora da grande imprensa. Eu fazia matérias e conseguia emplacar em várias plataformas. Isso me dava um retorno financeira que permitia ficar cerca de dois meses só produzindo uma reportagem mais interessante”, finaliza.

A palestra Jornalismo independente on-line foi realizada das 9h às 11h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br).Palestrantes: Joshua Benton (Nieman Lab), Brant Houston (Investigative News Network). Moderador: Natalia Viana (Pública)

Banco de dados oferece independência de conexão e otimização de tempo

Por Michelle Magri (4º ano/ Uninove)

A utilização de bancos de dados no jornalismo não é algo novo. Desde a década de 80 as redações já eram informatizadas. Com a implementação das técnicas de reportagem que usam o computador como ferramenta principal, a chamada Reportagem Assistida por Computador (RAC), tornou-se mais simples e pertinente o armazenamento de conteúdos.

Para o jornalista, mestre em políticas públicas e editor no Webinsider, Paulo Rebêlo, todo jornalista deve saber as regras da RAC. “Se você é jornalista tem que ter muita precisão no que faz, então, aprender a usar as técnicas avançadas do Google é fundamental. Isso vai servir não só para alimentar seu banco de dados, mas para você produzir suas matérias e sem erro”, ressalta.

A cobrança pela produção imediata de conteúdo aliada ao excesso de tarefas faz com que o jornalista nem sempre salve as informações levantadas naquele dia. Porém, segundo Rebêlo, é extremamente vantajoso fazer um esforço para armazena-las,- “Quando montar um banco de dados você vai saber o que tem ali dentro; vai ter uma precisão muito maior do que se você recorrer ao Google. O que é mais importante é a independência da conexão, com o seu banco, você perde a dependência pela internet, além disso, você otimiza o tempo ao procurar um dado”.

Segundo o jornalista, toda informação que existe pode ser transformada em arquivo e por isso deve ser armazenada: “Eu acho que tem que guardar tudo que é arquivo: ‘reportagens, estudos, teses, fotos, vídeos e etc’. Para isso, basta organizar da melhor forma possível esse conteúdo e não precisa ter um computador potente”, diz. “Contrariando o senso comum, o banco de dados não ocupa espaço. Eu guardo meu ‘pequeno google de bolso’, que tem 12 anos, em um pen drive de apenas três gigas”, conta.

Pensando na compactação dos arquivos, Rebêlo sugere salvá-los no formato PDF, por ser leve e porque pode ser aberto em qualquer sistema. Para ele, salvar as informações no formato DOC é perda de tempo: “o word não foi feito para lidar com arquivos grandes. “Se você salvar em DOC, vai lidar com um problema sério de velocidade. Portanto, o PDF é o formato mais universal, mais rápido e mais simples”, comenta.

Na era do jornalismo digital, novos softwares tornaram simples a adoção de bancos de dados inteligentes que auxiliam profissionais de comunicação na procura pelo material produzido. “Para quem utiliza o PC o programa indicado é o DTSearch, já para quem utiliza o Mac o melhor é o DevonThink, ambos realizam a busca do conteúdo do texto e não apenas da descrição”, explica Paulo, que define o banco de dados como uma forma de sistematizar informações.

Quando o assunto é segurança digital, Paulo alerta para as ‘espetadas’ dos pen drives nos computadores desconhecidos. Segundo ele, principalmente em lan houses, há hackers que instalam programas capazes de copiar automaticamente todas as pastas e documentos do pen drive. Por isso, para driblar a armadilha, o recomendado é criptografar o objeto. “O jeito mais simples é baixar um programa chamado TrueCrypt, que é gratuito e atende todas as plataformas, e então instalar, criar uma senha e criptografar. A criptografia é uma segurança de que ninguém vai ter acesso a seus dados”, alerta.

 

A palestra Banco de dados no jornalismo para iniciantes foi realizada das 9h às 10h30 de 2º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrante: Paulo Rebêlo (e-mail rebelo@gmail.com).

 

O desafio de cobrir violência pela TV

Bette Lucchese e Mônica Puga comentam detalhes da cobertura da violência no Rio de Janeiro

Por Victor Santos (2ºano/ Unesp)

Foto: Luana Copini (4º ano/ Mackenzie)

“Há situações em que ou vai ou racha”. Foi assim que a repórter do SBT Mônica Puga definiu o trabalho de quem realiza cobertura da violência em tempo real. Esse foi o tema da palestra dela e de Bette Lucchese (Globo), mediada pelo editor-chefe do RJTV 2ª edição, Marcelo Moreira.

O foco da mesa foi a cobertura da pacificação do Complexo do Alemão, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, ocupado em uma megaoperação no dia 28 de novembro de 2010. A Força Tarefa incluiu policiais militares, civis e o exército.

As duas repórteres fizeram uma contextualização dos acontecimentos que antecederam a ocupação, recordando desde a morte do repórter Tim Lopes, em 2002, até a primeira invasão policial no complexo, em 2007. “A gente estava preparada para ver uma guerra sangrenta”, comentou Bette, “os equipamentos utilizados (tanques de guerra, as próprias Forças Armadas) é que chamaram a atenção”.

Puga, que está no SBT Rio há cinco anos e meio, exibiu quatro vídeos de sua cobertura antes da ocupação, mostrando entrevistas que fez com bandidos armados e sem o uso de colete a prova de balas. “Eu sabia que podia entrar e sair da favela, porque eles queriam falar”, contou. De acordo com ela, quando um helicóptero da PM foi derrubado pelos traficantes em outubro de 2009, reforçou-se a ideia de que “ninguém podia mais conviver com aquilo”.

Lucchese e o moderador comentaram sobre a cobertura da TV Globo na ocupação, desde a invasão da Vila Cruzeiro, em 25 de novembro, até a tomada do Complexo de Alemão, três dias depois. O trabalho envolveu 200 profissionais, horas ininterruptas de transmissão e entradas ao vivo por insistência, além de uma madrugada inteira de espera pela ocupação. Entre as imagens mais impressionantes, está a fuga em massa de bandidos da Vila Cruzeiro para o Alemão.

Lucchese e Puga comentaram também as dificuldades durante a cobertura, como, por exemplo, ver crianças baleadas. “Com experiência, a gente se acostuma com as situações”, disse Lucchese. As jornalistas fizeram questão de frisar que a ocupação é apenas uma etapa, concordando com a fala de Moreira na abertura: ainda é necessário um grande investimento social para recuperar o Complexo do Alemão.

A palestra Cobertura de violência em tempo real – a ocupação do Complexo do Alemão foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Bette Luchese (TV Globo) e Mônica Puga (SBT). Moderador: Marcelo Moreira (TV Globo/Abraji)

A força da grande reportagem

Por Jessica Mota (2º ano/Mackenzie)

Foto: Luana Copini (4º ano/Mackenzie)

Um caderno de 24 páginas sem anúncios em um dos maiores jornais do país, com reportagens feitas exclusivamente por você e um parceiro. É o sonho de nove em cada dez jornalistas. Leonêncio Nossa, repórter da sucursal em Brasília do “Estado de S. Paulo”, realizou esse feito com a produção de As Guerras Desconhecidas do Brasil.

Leonêncio Nossa (O Estado de S. Paulo) e Nivaldo Ferraz (Anhembi Morumbi)

Depois de ganhar crédito pela reportagem sobre os arquivos revelados da Guerrilha do Araguaia, Nossa teve a chance de sair dos corredores de Brasília para os sertões mais reclusos do Brasil. De Norte a Sul, ele e o fotógrafo Celso Júnior percorreram 13,5 mil quilômetros, falaram com 335 pessoas de 41 cidades diferentes.

A ideia surgiu a partir do trabalho sobre a Guerrilha do Araguaia. “Quando você entra numa linha de pesquisa, outras pautas nessa linha começam a surgir”, contou o jornalista.

Para chegar às nove histórias mais representativas desses conflitos esquecidos, Nossa e Júnior fizeram uma extensa pesquisa. Tiveram que percorrer os caminhos antigos da apuração. “A internet é fantástica, mas é muito recente. De 2000 para trás, você tem que ir a sebos e bibliotecas”. Foram 17 meses entre arquivos públicos, álbuns de família, registros de hospitais e cemitérios, cartas e telegramas.

Buscar uma identidade dos personagens foi fundamental. “Foram pessoas como a gente que fizeram essas revoltas”, fala o repórter. O cuidado em conquistar a confianças das pessoas e se adaptar às diferentes realidades encontradas também foram desafios na produção dessa matéria, além do trabalho de encontrar esses protagonistas. “Às vezes, para localizar a pessoa, a gente ia à bodega para ver a lista de fiado”, revela Nossa. Nesse trabalho, o jornalista orienta que toda fonte é válida.

Parece difícil acreditar que a mídia impressa dê espaço para matérias como As Guerras Desconhecidas do Brasil. Frente a realidade digital em que praticamente todos se tornam potenciais produtores de conteúdo, valorizar grandes reportagens talvez seja uma via possível para a mídia impressa. Mas para isso, antes de tudo, é preciso confiança em si. “Se você não acredita no seu trabalho, não tem jeito”, diz Nossa.

A palestra As guerras desconhecidas do Brasil foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrante: Leonêncio Nossa (O Estado de S. Paulo). Moderador: Nivaldo Ferraz (Anhembi Morumbi)