Arquivo da categoria: Jornalismo on-line

Jornal impresso é a vela, Internet é a lâmpada

Eduardo Nascimento (3º ano / ECA-USP)

 

Fotos: Lina Ibañez (publicitária)

Quando questionado sobre o papel do jornalismo impresso na atualidade, Luciano Suassuna, diretor de jornalismo do portal IG, responde com um dito que atribui a um amigo, chefe de redação em jornal impresso: “Às vezes eu tenho a sensação que a gente está numa fábrica de vela, fazendo a melhor vela possível, só que está chegando a energia elétrica”.

Márcia Menezes (G1)

Suassuna afirma que o tema da palestra – “Em tempo real: o desafio de garantir a qualidade da informação na velocidade da internet” – é pergunta de quem trabalha em jornal e tem preconceito com internet. Isso porque, para ele, o impresso não tem mais razões de existir, se não para catalizar recursos e satisfazer desejos excêntricos de leitores – o que, no futuro, considera o seu único meio de sobrevivência. “Tem gente que usa rapé até hoje, não?”, compara Suassuna.

O diretor do IG afirma que “agilidade é qualidade”, e a verdadeira questão é como garantir a qualidade no papel em tempo da velocidade na internet. “Porque o problema de qualidade hoje é do impresso, não é do on-line”.

Márcia Menezes, editora-chefe do portal G1, também foi palestrante e concorda com Suassuna, pois a conclusão a que seu portal chegou, com base em pesquisa de conteúdo acessado, é que “ninguém quer ver notícia, elas querem ver coisas que estão acontecendo”.

Luciano Suassuna (iG)

Márcia crê que o desafio da internet é produzir conteúdo com uma menor quantidade de filtros. Ela afirma que repórter de internet é sempre um “repórter-editor”, que posta seus próprios textos, faz seus próprios vídeos e fotos, sendo necessária, portanto, uma formação muito mais completa. Suassuna concorda nesse ponto, e crê que hoje é necessário um novo jornalista. “O jornal tem muito mais estrutura para correção, a internet precisa de profissionais melhores.”

Sobre o “agilidade é qualidade”, Suassuna usa como exemplo a capa dos jornais no dia 11 de março deste ano, quando aconteceu, durante a madrugada do Brasil, um tsunami no Japão. Como todos os jornais já tinham fechado suas edições, as capas variavam entre diversos outros assuntos – todos menos relevantes, naquele momento, do que a tragédia japonesa.

O problema do impresso é que na hora que ele chega para você, ele não é mais útil, enquanto na internet, o tempo inteiro você tem a notícia que as pessoas querem ler”, diz Suassuna. O jornalista se orgulha do sucesso, na internet, de notícias como a do eclipse lunar do dia 15 de junho – alcançando picos de milhares de visualizações por minuto, e sendo esquecidas depois de seis horas.

Os erros

Em relação aos erros de escrita tão comuns na internet, Suassuna crê que os textos impressos hoje têm mais qualidade que os digitais porque os melhores profissionais ainda estão nos jornais impressos. Márcia crê que proporcionalmente a quantidade de erros é a mesma – há mais erros no on-line porque o volume de notícias publicadas é bem maior, e “o repórter que digita errado na internet também digita errado no impresso”.

A palestra Em tempo real: o desafio de garantir a qualidade da informação na velocidade da internet  foi realizada das 14h às 15h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Luciano Suassuna (iG) e Márcia Menezes (G1)

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Uma classe que traz novos paradigmas

Por Michele Francisco (3º ano /Anhembi Morumbi)

A classe C é uma classe em plena ascensão no Brasil e tem se destacado em diversos setores da sociedade e da economia. Segundo pesquisa da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), essa classe cresceu 47,94%, está emergindo e tem um poder de força no país. Para a editora sênior da revista Exame em Brasília e representante do Brasil no Comitê Internacional da Online News Association (ONA), Angela Pimenta, o “jornalismo precisa de um canal direto para falar com essa classe, que quer construir carreira, quer trazer melhorias para o seu bairro, e são formadores de opinião”.

“Os jornalistas estão em um território novo e desconhecido. A classe C não quer ser tutelada, ela quer é ser informada”, afirma Pimenta. Para a jornalista, na medida em que a classe média sobe, ela se torna mais consciente do seu poder de voto e do seu papel como pagadora de impostos. “Os jornalistas precisam cobrir de maneira mais interessante o que é relevante” conclui.

Marta Gleich (RBS), Mauricio Stycer (UOL) e Angela Pimenta (Exame)

O jornalismo on-line traz muitas oportunidades para falar de maneira mais intensa com a classe C, é uma classe que tem um peso inédito no consumo, no acesso à internet, e na formação da opinião pública. Pimenta acredita que é através desse canal que o jornalismo tem conseguido informar essa classe, e permitiu que passasse a refletir mais. “Não temos que ser um jornalismo apenas para a classe A e B, temos que trazer notícias com todos os segmentos da sociedade”.

Para Pimenta, o jornalismo de serviço, que é o “patinho feio” das redações, é um dos caminhos para abordar temas difíceis para algumas classes. É também a maneira para aproximar essa população do que eles precisam. A jornalista responsável pelo negócio de Internet do Grupo RBS, Marta Gleich, se utiliza das novas mídias para prestar serviços de interesse público. “A linha de comunicação era só para os jornalistas, a Revolução Digital trouxe a interatividade, o que aproximou o público do veículo. Essa proximidade nos possibilitou receber críticas, cobranças e novas ideias de pautas” afirma.

“O interessante não é o jeito que contamos a história, e que está mudando de uma maneira rápida, interessante”, conclui Gleich. Ela enfatiza que o importante é ter o público, as histórias e o trabalho dos jornalistas no meio. “É preciso ter uma visão multimídia da pauta, não tem mais limite para a maneira de contar as histórias”. Para ela o jornalismo “buraco de rua” que é a pauta mais chata de se fazer, tomou novos rumos com as mídias digitais, deu a ele mais visibilidade, mais repercussão.

A palestra A reinvenção da notícia? O que todo repórter deve saber sobre a expansão das novas mídias no país foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrante: Marta Gleich (RBS) e Angela Pimenta (e-mail apimenta11@gmail.com – download da apresentação). Moderador: Mauricio Stycer (UOL)

“Os blogs se tornaram obsoletos”, diz Alon Feuerwerker

Por Vinícius Gorczeski (4ºano/Metodista)

Foto: Luana Copini (4º ano/Mackenzie)

Apuração bem cuidada, ouvir todos os atores envolvidos num processo e, assim, chegar o mais próximo possível da “verdade”. Essas são condições básicas para integrar opinião e jornalismo, principalmente nas produções para blog. Apesar da nomenclatura de blogueiro do “Correio Braziliense”, Alon Feuerwerker acredita que o conceito tenha se tornado obsoleto nos últimos três anos. Para ele, agora são as redes sociais que ditam quando e como o usuário buscará a informação que deseja.

Mas o assunto divide opiniões e causou alvoroço entre os estudantes de jornalismo que participaram da conversa com o repórter e outro blogueiro, Josias de Souza, da “Folha de São Paulo”, durante o 6º Congresso da Abraji. Souza diz ainda preferir textos de fôlego, “charmosos”, com menor aproximação entre opinião e jornalismo.

Josias de Souza (Folha de S. Paulo)

O jornalista da Folha defende uma tendência que teria se consolidado na imprensa brasileira: a interpretação dos fatos. “Não faço textos curtos porque me dizem que ninguém irá ler textos longos. Se o cara não quiser ler é opção dele, mas acho essa uma visão errada, tem de aprofundar os assuntos, esse é o papel”, diz ele.

A dinamicidade dos blogs e redes sociais gerou dúvidas entre os universitários sobre como é possível evitar erros e falhas de checagem de informações – risco maior no formato online, que por isso carregaria a fama de não ter credibilidade.

Para Feuerweker, o problema é não ser possível corrigir informações erradas ou mal explicadas depois de publicadas. “Se a informação sobre a qual o repórter opinou não se confirma, ele não tem como justificar que mudou de opinião de uma hora para outra. Fica ridículo”, declara.

Já Souza diz preferir levar “250 mil furos” a dar informação errada ao leitor. Avesso ao conceito de informação em tempo real da plataforma digital, diz preferir não fazer das possibilidades da plataforma seu “cavalo de batalha”.

A palestra Blogueiros: o jornalismo de opinião em tempo real foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Josias de Souza (Folha de S. Paulo) e Alon Feuerwerker (Correio Braziliense/Abraji)

Jornalismo independente: uma alternativa que começa a dar certo

Por: Juliana Conte (jornalista)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/Metodista)

Palestra de Joshua Benton e Brant Houston

O jornalismo investigativo online pode ser uma alternativa para aqueles que estão cansados de trabalhar em jornais diários e não encontram espaços para publicar reportagens mais aprofundadas e analíticas.

De acordo com Joshua Benton, diretor da “Nieman Lab”, nos Estados Unidos, essa tendência vem aumentando a cada ano.
No começo, muitos jornalistas começam escrevendo em blogs sem fins lucrativos. Passado certo período, seu nome torna-se conhecido naquele meio e ele consegue entrar com projeto e ganhar recursos a órgãos como o Knigth Center for Journalism in the Americas para realizar reportagens de maior fôlego.

“Eu tenho exemplos de um blog que cobria a indústria do chocolate. Eles fizeram uma reportagem surpreendente sobre uma indústria que dizia vender chocolates de qualidade superior, no entanto, os ingredientes que eles utilizaram eram normais, não tinha nada demais. As pessoas estavam pagando por algo que não correspondia com a verdade”.

Brant Houstan, professor da Universidade de Illinois nos EUA, disse que é necessário buscar matérias que a grande mídia não está preocupada em fazer. Entretanto, para realizar essas publicações é preciso dinheiro, o que acaba dificultando um pouco as coisas.

Ele complementa ainda que países fora dos Estados Unidos não possuem tradição de criar instituições para ajudar os jornalistas com treinamentos e até suporte para realizar as matérias.

A mesa discutiu o Jornalismo Independente On-Line

No Brasil, esse tipo de jornalismo mais investigativo publicado em blogs e outras redes estão começando a ganhar espaço.

A moderadora da conferência, a jornalista Natalia Viana da “Pública”, disse que trabalha com jornalismo independente há sete anos, desde que saiu da revista “Caros Amigos”.

“É possível viver  fora da grande imprensa. Eu fazia matérias e conseguia emplacar em várias plataformas. Isso me dava um retorno financeira que permitia ficar cerca de dois meses só produzindo uma reportagem mais interessante”, finaliza.

A palestra Jornalismo independente on-line foi realizada das 9h às 11h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br).Palestrantes: Joshua Benton (Nieman Lab), Brant Houston (Investigative News Network). Moderador: Natalia Viana (Pública)

Em palestra, jornalistas discutem se conteúdos na internet podem ser integrados à TV

Por Taina Mansani (Cientista Social/USP e jornalismo/Cásper Líbero)

Fotos: Lina Ibañez

Rafael Coimbra (Globo News)

No contexto social em que até o Papa Bento XVI fez uso da internet para tuitar através de um tablet, o repórter e apresentador Rafael Coimbra (Globo News) defende que o advento das novas mídias não excluirá a TV. “Ainda que a internet seja um mundo infinito, existe a preocupação de uma mídia em alimentar a outra”, afirma.

Segundo Coimbra, as pessoas estão aprendendo a usar os conteúdos jornalísticos, mas nem todos sabem como fazer. “Seja de forma independente ou em parceria com os grandes veículos de comunicação, será possível aproximar o trabalho amador ao dos veículos”, diz.

A experiência da CNN norte-americana mostra que é possível obter conteúdos de amadores sem comprometer questões éticas, citou, como exemplo, o jornalista. O procedimento desse veículo, com a atuação de um “curador”, é postar vídeos enviados por amadores, e sem edição, apenas indicados no site como não modificados. Nesse sentido, as diferentes mídias, que no Brasil seriam vistas como inimigas, poderiam se integrar.

A outra participante da mesa, Márion Strecker, cofundandora do primeiro portal de internet no Brasil, o portal UOL, questionou, no entanto, se o exemplo do curador da CNN não se trataria também de uma forma de edição.

Strecker, que foi protagonista do advento dos portais no Brasil, mencionou em   palestra que a internet tem modificado a percepção das pessoas, inclusive, no que diz respeito à maneira como elas assistem televisão. “No atual cenário, a novas mídias dominam a internet e ajudam a mudar o mundo, e os jornalistas devem estar preparados para lidar com essas mudanças”.

Coimbra foi questionado, em entrevista, sobre como a integração entre a TV e as novas mídias poderia proporcionar maior reflexão a respeito dos conteúdos por parte dos usuários, para além do consumo instantâneo da notícia. Segundo ele, é possível trabalhar diferentes conteúdos para que consumidor da notícia tenha acesso à informação como ele preferir, seja ela mais curta ou mais aprofundada.

Márion Strecker

Para Coimbra, não haveria espaço para discussões sobre conflitos ideológicos em torno da veiculação das notícias, sobretudo pelo tempo escasso de produção. “Se é notícia, ela vai acontecer em algum lugar do mundo em alguma plataforma […] não há mais tempo hoje para decidir o que pode ou que não pode, não há como negar a informação”, afirma.

A palestra Integração e TV on-line: o que o espectador tem a ganhar foi realizada das 16h as 17h30 no dia 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi Rafael Coimbra (Globo News) e Márion Strecker (UOL).

Kristinn responde aos jornalistas

Kristinn Hrafnsson, representante do Wikileaks, falou sobre ética, dinheiro e motivações no jornalismo, durante a coletiva de imprensa da palestra Wikileaks – impactos dos vazamentos para o jornalismo investigativo no 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Por Maria Clara Lima (4º ano/Unesp)

Kritinn Hrafnsson

Que tipo de desafios éticos vocês encaram em divulgar tanta informação? 

Nós trabalhamos com uma política restrita onde não devemos soltar informações inúteis que possam causar danos a alguma pessoa intencionalmente. Não vamos dizer que  não iremos falar em nomes ou citar nomes nos documentos. É quase necessário dizer que quando envolvemos ofícios políticos, técnicos ou pessoas em poder.  Nós temos o compromisso com as pessoas que não têm esse poder. Nós somos frequentemente chamados de inconsequentes, eu posso dizer que essas pessoas estão erradas, nós temos sido bastante cuidadosos. Há histórias grandes que soltamos sobre o Iraque, Afeganistão, missões diplomáticas em todo o mundo e Guantanamo, nenhuma pessoa foi prejudicada nesse processo. Esses relatórios são conhecidos pelo governo dos Estados Unidos, pelo Pentágono, pela OTAN, por oficiais do Afeganistão , e só porque divulgamos algumas declarações desses documentos nós estamos sendo descuidados. Isso está errado. Quando os documentos sobre o Iraque foram lançados, nós tivemos um cuidado de marcar algumas informações que poderiam causar algum efeito negativo.

Qual a importância que o Bradley Manning teve para o Wikileaks?

Você disse que o Bradley Manning foi a fonte do material que estamos lançando nos últimos 14 meses, alegam que ele é a fonte, eu não tenho conhecimento sobre se ele é a fonte ou não.   Ele está encarando um julgamento difícil, e se ele for de fato a fonte desses documentos, ele é o mais importante informante da atualidade, em minha opinião ele é um herói e deve ser solto.    Ele [Manning] está preso em uma solitária há 10 meses, foi despido e humilhado, impedido de dormir, torturado. O Wikileaks não aconteceu de uma vez só, começou em 2006 e até o ano passado já tínhamos soltado algumas informações. O projeto que desenvolvemos em 2010, de permitir a informação aos documentos que tínhamos foi um resultado disso. Mas se Bradley Manning foi o informante, sem ele não teria sido o mesmo. Por causa do vazamento desses documentos, pudemos expor alguns governos como o Queniano, onde ocorria corrupção e matanças, o da Costa do Marfim e o derramamento de lixo tóxico, coisas erradas que aconteciam no setor de bancos. A coisa engraçada é que sempre fomos vistos como anticapitalistas, antiamericanos, mas eu amo a Primeira Emenda, e chego a desejar que os americanos fossem mais fãs dos princípios da Primeira Emenda, mas eles pareceram esquecer o que é liberdade e democracia O Wikileaks para de funcionar amanhã, mas o nosso trabalho não foi terminado, porque a ideia está aí, e isso é o mais importante.

Você leu o livro Wikileaks do editor do The Guardian? 

Sim, eu li o livro do David Lee e seu parceiro [Luke Harding], e o mais interessante é o que está faltando nas informações. Há um exemplo que eu gosto muito. A primeira página do livro conta uma anedota sobre o Julian Assange, dizendo que por causa de sua paranoia, ele se vestiu de mulher para tentar escapar de um hotel, entrou em um beco escuro e partiu em um carro vermelho batido. Não havia carro batido algum, porque fui eu quem alugou o carro, e era uma minivan preta! Alguns amigos dele ouviram a história e contaram na redação do “The Guardian”, mas ele nem estava lá. Eu tirei a foto do Julian vestido de mulher e mostrei a um jornalista, que contou a história para David. Por que o Julian estava vestido assim? Era tudo uma brincadeira. Pegamos o casaco da Natalia [Viana], um cachecol e tiremos fotos. David Lee pegou essa piada e usou para mistificar a imagem de excêntrico do Assange.

Gostaria que o senhor falasse da diferença entre investigar documentos públicos e documentos de empresas privadas.

Não há diferença em termos de técnica jornalística de investigação, já que a posse do nosso material não está ligada de onde ele vem. Algumas informações são extremamente técnicas e difíceis de ler, como os documentos com linguagem militar que recebemos sobre o Iraque. Depois dessa fase, partimos para a apuração e verificação dos documentos, para a investigação.

 Você considera o jornalismo colaborativo caro? Qual a relação entre o jornalismo de qualidade e o dinheiro?

Dinheiro sempre foi um fator difícil no jornalismo. Estou lendo um livro editado pelo John Pilgrim sobre suas matérias e investigações, e o que me chama atenção é que há momentos que não há dinheiro, ou sofremos censura, e até temos que trabalhar de graça até conseguirmos o primeiro furo, a primeira grande história. Há aqueles jornalistas tradicionais que se acomodam a receber informações e apenas distribuí-las.  Até mesmo na grande mídia, podemos enfrentar situações assim, empresas diminuem o orçamento e não há dinheiro para fazer matérias investigativas, e mesmo assim há aqueles que fazem e conseguem uma boa apuração. É aprender a se virar, e aí entra a importância do jornalismo colaborativo. Internet, blogs, comunicação virtual, tudo isso ajuda na hora de se escrever uma história. Temos a estrutura da redação, mas de maneira independente. Há blogs assim na Romênia, na Bulgária. Ao compartilhar esses dados, os jornalistas estão colaborando para apuração de outros que não podem ir até lá. Temos que ter a convicção de que não trabalhamos para as organizações midiáticas, nem para enriquecer nosso perfil, nem para o governo, e sim para o público.

As perguntas foram feitas durante a palestra Wikileaks – impactos dos vazamentos para o jornalismo investigativo foi realizada das 09h às 10h30 de 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Fernando Rodrigues (e-mail frodriguesbsb@uol.com.br). Os palestrantes foram:  Kristinn Hrafnsson (e-mail kristinn@ruv.is) e Natalia Viana (e-mail viana.natalia@gmail.com)

Em busca de uma linguagem para tablets

Leonardo Attuch, José Roberto de Toledo e Claudia Belfort discutindo os tablets e o fututo do jornalismo

Vinicius Gorczeski (4° ano/Metodista)

Foto: Lina Ibañes

O jornalismo ainda está em busca de rumos sobre a forma de se produzir para tablets, dispositivo móvel em forma de prancheta. A diretora de conteúdo online do “Estadão”, Cláudia Belfort, assinala que os jornais não têm produção específica para o novo formato. O que existe hoje é uma transposição de conteúdos copiados dos materiais impressos ou online diretamente para esse dispositivo.

“É preciso desenvolver uma nova linguagem. Se eu souber, vou ser o CEO (diretor geral) do New York Times”, brinca a diretora, indicando que ainda não há fórmula a ser seguida, embora exista a consciência sobre a necessidade de se mudar o que é feito hoje. “Ninguém a essa altura sabe”, completou o colunista do Estadão José Roberto de Toledo.

Segundo eles, para encontrar alternativas é preciso descobrir o perfil do leitor que consome notícias no equipamento. Isso acontece porque a atual parcela desses consumidores ainda não reflete a maioria dos leitores  – a previsão é de superar a venda de 300 mil tablets até o fim do ano no país.

Tudo indica que este novo público não se satisfaz apenas com notícias, mas também está em busca de entretenimento. Um passo além nesta discussão seria a produção de conteúdos específicos para cada suporte: celulares, internet, tablets, com base no horário que o leitor acessa o conteúdo e que tipo de informação o satisfaz – que varia ao longo do dia, segundo Belfort. “Esse momento deve ser usado para experimentação e não para se falar de conceitos”.

Outra questão em discussão pelos responsáveis pela produção jornalística é modo como o leitor recebe a informação nos tablets: é preciso estar conectado à internet, mas, no entanto, o produto em si é offline, por isso não sofre atualizações. Para “misturar a salada”, a diretora de conteúdo online do “Estadão” aponta a experiência de usuário mista. Dessa forma, se acessa uma manchete com informações do dia anterior e, com o tocar de outro botão, notícias quentes do dia são apresentadas na tela.

Por ser uma nova mídia, investidores do setor evitam lançar fichas sobre esta nova plataforma.  Apesar disso, há o caso do “Brasil 247”, que nasceu digital. Trata-se da primeira empresa de conteúdo jornalístico a ser criada exclusivamente para tablets, além de contar com um portal na rede.

O repórter do veículo Cláudio Tognolli ressaltou que o novo formato contribui para aumentar a participação do leitor. A própria concepção do “Brasil 247” – cuja ideia é funcionar 24h por dia, sete dias por semana – foi pautada por essa interatividade.

Tognolli comentou a percepção das mídias de oferecer ao público não apenas a interatividade, mas a possibilidade de produzir para as novas mídias. O “iCentric”, em que o ‘eu’, diz ele, é o centro de tudo. Prática que, devido à dinâmica instantânea de divulgação, pode levar a erros de checagem.

“É um jornalismo assertivo, tem que mandar primeiro que os outros veículos”, afirma.

Questionados sobre como devem atuar os profissionais que nasceram na era digital, acostumados com o dilema de informação apurada versus premissa do furo de reportagem, Belfort enfatiza que a experiência profissional é essencial para essa plataforma. Para evitar erros de texto e apuração, um caminho é montar uma boa bagagem com referências como bons livros, filmes, etc. “Isso é fundamental para esse jornalismo assertivo. Hoje em dia tem estudante que sai da faculdade sem saber o que é sujeito verbo e complemento”, diz.

Já Tognolli acredita que a falta de experiência dos estudantes e o pouco contato próximo com fontes no início da carreira nem sempre são fatores prejudiciais. Mas aponta a necessidade de jornalistas buscarem uma formação multimídia. “Tem de voltar para a redação com podcasts, fotos, texto, vídeos. E também trabalhar narrativas urbanas. É o que muita gente experiente já está fazendo lá fora”, sustenta o jornalista.

A palestra O jornalismo e os tablets: quando a forma é o conteúdo foi realizada das 16h às 17h30 de 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br).Palestrantes: Leonardo Attuch (Brasil 247), Claudia Belfort (O Estado de S. Paulo).Moderador: José Roberto de Toledo (O Estado de S. Paulo/RedeTV)

O sigilo é o refúgio dos incompetentes

Por Luiz Felipe Guimarães (1º ano, ECA-USP)

Fotos: Lina Ibáñez

Kristinn Hrafnsonn,do WikiLeaks, e Gregory Michener, da universidade do Texas, debatem o tema no 6º Congresso ABRAJI

Fernando Paulino, Kristinn Hrafnsson e Greg Michener

A mídia tem um papel fundamental na luta pelo direito às informações públicas. “O acesso aos dados públicos garante a possibilidade de se fazer um melhor jornalismo” disse o canadense Gregory Michener, um dos palestrantes do painel Acesso a Informações Públicas. Segundo ele,  também papel dos meios de comunicação  cobrar os governos por mais transparência. Em um gráfico apresentando pelo palestrante, vê-se que a mídia no Brasil dá mais atenção ao tema do que na Argentina e no Uruguai, mas fica atrás de países como Chile, Guatemala e não atinge nem um terço da cobertura mexicana.

“O sigilo é o refúgio dos incompetentes” disse Michener. Difundir a ideia do acesso às informações públicas é fundamental para fazer crescer esse novo direito.

O canadense entende que o acesso a informações governamentais facilita o exercício da democracia, pois ajuda a afirmar os direitos dos cidadãos de fiscalizar o governo em seus atos administrativos e suas despesas. Michener criticou a falta de clareza do governo brasileiro ao cobrar seus tributos, dizendo: “vocês brasileiros pagam mais impostos do que no Canadá e nem sabem o porquê”.

Greg Michener

Já o porta-voz do Wikileaks Kristinn Hrafnsonn preferiu conversar com a platéia. Bem humorado, alfinetou a imprensa norte-americana: “Alguns jornais chamam o WikiLeaks de ‘associação de anti-segurança’. Se formos pensar que há alguns meses atrás éramos considerados terroristas, isso já é um grande avanço”.

O jornalista  islandês centrou sua fala  na crítica aos governos e a tendência do Estado em  tentar esconder informações importantes do público. Kristinn aponta que essa prática se fortaleceu após o 11 de setembro, e se diz chocado com a passividade das pessoas em aceitar tal atitude dos seus governos: “as pessoas acham que tudo o que é do governo deve ser secreto”.

Kristinn afirma que vê o WikiLeaks  quer influenciar o debate sobre o acesso as informações públicas, e provoca novamente: “o que viemos fazendo é publicar informações de governos e deixando eles furiosos. Eles n chamam de terroristas, trataram o Assange (Julian Assange, fundador do WikiLeaks) como se fosse o Bin Laden”.

Questionado sobre se toda informação deve ser livre,o colega de mesa, Gregory Michener foi contundente em afirmar que teme a divulgação de informações individuais, ideia compartilhada por Kristinn. Ele ressaltou que mesmo assim o governo não deve ter segredos.

A palestra “Acesso a Informações Públicas” foi realizada das 16h às 18h de 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Os palestrante foram: Gregory Michener (Universidade do Texas): rgm@gregmichener.com e Kristinn Hrafnsson (WikiLeaks): kristinn@ruv.is

Legislação eleitoral ainda não se adequou às campanhas pela Internet

Por Mateus Marcel Netzel (1º ano ECA-USP)

A eleição presidencial de 2010 no Brasil ficou marcada por ser a primeira em que a Internet teve papel significativo nas campanhas dos candidatos.  O fenômeno, notável principalmente nas redes sociais como o Twitter, Orkut e Facebook, mobilizou eleitores em todo o Brasil e levantou uma série de questões relacionadas ao controle da legislação sobre o uso das novas tecnologias.

A rápida expansão das mídias digitais não foi acompanhada de adequações nas leis eleitorais, o que provocou algumas divergências e incertezas ao longo do último processo eleitoral.  Joélson Dias, juiz do Tribunal Superior Eleitoral, esclareceu que até a eleição do ano passado a Justiça Eleitoral não tinha parâmetros para agir em questões envolvendo a Internet e que, agora, pelo menos, possui referências para as eleições municipais de 2012.

Para ele, o grande desafio da Justiça Eleitoral na esfera digital é conciliar o ambiente livre e democrático da Internet com os casos que violam direitos garantidos por lei. “A Internet deve ser usada para promover a liberdade de expressão, mas alguns princípios garantidos pela Constituição, como o direito à privacidade e a preservação da imagem e da honra devem ser observados”, explicou. O juiz enfatizou também a postura contraditória dos partidos durante o ano passado, quando reclamavam pela liberdade de imprensa ao mesmo tempo em que requeriam à Justiça que repreendesse legalmente seus concorrentes e impedisse a divulgação de certas declarações.

O principal destaque na incorporação de recursos online à propaganda eleitoral foi a campanha de Marina Silva, concorrendo pelo Partido Verde. Com um planejamento de atuação online inovador na política brasileira, a candidata conseguiu superar uma série de desvantagens em relação aos outros candidatos e terminar o primeiro turno com a terceira maior votação, com mais de 20 milhões de eleitores. “É impossível precisar quantos votos a Internet conseguiu angariar, mas, sem dúvida, foi um fator muito positivo”, afirma Caio Túlio Costa, coordenador de mídias digitais da campanha de Marina Silva em 2010.

O comunicador classificou o uso dos recursos digitais na última eleição como um sucesso, apesar das várias restrições impostas pela legislação. Fazendo sempre a comparação com as eleições estadunidenses, apontou uma série de dificuldades na coordenação da campanha, desde a arrecadação de doações, restrita aos 58 dias de campanha oficial, até a proibição da compra de anúncios online.

Segundo ele, as inadequações da legislação devem-se não à Justiça Eleitoral, mas ao “profundo desconhecimento por parte dos nossos legisladores em relação às novas mídias”. Para Dias, a legislação precisa, de fato, ser modificada, mas essas modificações devem ser precedidas por um debate qualificado, opinião compartilhada por Caio Túlio Costa.

A palestra “Onde a Internet falhou nas eleições e por quê?” foi realizada das 16h às 17h30 no dia 01 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Os palestrantes foram: Caio Túlio Costa (e-mail: caiotulio@ig.com.brdownload da apresentação) e Joélson Dias(e-mail: joelson@barbosaedias.com.br). Moderador: Jaime Spitzcovsky

Multiplataformas e multitarefas: um novo jornalismo

Por Jessica Mota (2º ano/Mackenzie)

Foto: Lina Ibañes (publicitária)

José Roberto de Toledo (centro) mediou a palestra de Rodrigo Fontes (esquerda) e Antonio Prada

A competição, o jornalismo declaratório e o risco de má apuração na busca por um furo são alguns dos desafios que os jornalistas de jornal impresso enfrentam há anos. Na plataforma online, a realidade é a mesma, com cara diferente. É importante saber comunicar bem e rápido, mas reproduzir as falas de perfis do twitter, por exemplo, deve ser feita com critério. “O jornalismo em tempo real deve ter o cuidado em não ser apenas declaratório”, coloca Rodrigo Flores, diretor de conteúdo do “UOL”.

Papel de repórter que trabalha em sites não é ficar só na frente do computador. Ele também deve ir às ruas, captar o material de diferentes formas e passar as informações em tempo real para os editores. Para Flores, o ideal é explorar ao máximo a plataforma digital e utilizar todas as linguagens possíveis. Além do texto, a foto e o vídeo também são importantes. “A imagem comunica demais”, fala.

No jornalismo, a internet é a única plataforma que possibilita a resposta imediata do consumidor da informação. “Você posta uma matéria e em 30 segundos o internauta pode corrigir você”, exemplifica Antonio Prada, diretor de conteúdo do “Terra”. Com uma proximidade tão grande com os leitores, a interatividade é outro fator que entra na roda. Além dos comentários, existem veículos que recebem a colaboração do público em seções específicas dos sites. Tudo com a moderação do veículo, claro. “A gente não pode transferir a responsabilidade para o internauta”, sentencia Flores.

No Brasil, as técnicas para jornalismo online vêm se desenvolvendo com sucesso. Hoje, em veículos como o Terra, existem inclusive manuais de redação e estilo. Nem sempre foi assim. “A gente teve que descobrir aos trancos e barrancos maneiras de construir mídia online”, revela Prada. Coberturas em campo e produção de conteúdo exclusivo são algumas das prioridades do veículo. Quando os mineiros ficaram presos em uma mina no Chile e um tsunami devastou o Japão, por exemplo, o Terra não ficou dependente do conteúdo das agências de notícias, porque enviou seus correspondentes.

Além dos desafios da produção, o online também enfrenta desafios econômicos. Prada revela que o mercado publicitário brasileiro ainda não reconhece a audiência dos sites. “Se a internet é tão relevante para os usuários como parece, por que não tem reconhecimento do mercado?”

Uma das soluções para a sobrevivência seria oferecer também outros serviços, como antivírus e assistência técnica, exemplo do que faz o UOL. Para além da economia, entender a mídia online é um fator essencial para o contínuo desenvolvimento dessa plataforma. “Se você achar que está escrevendo para computador, você está enganado”, fala Rodrigo aos jornalistas. Hoje, a web também está em celulares e tablets. É justamente aí que mora a possibilidade de uma nova produção jornalística. Para Rodrigo, é a chance dos jornalistas fazerem a pergunta que, segundo ele, deveriam fazer todo dia ao acordar: “o que eu posso fazer de diferente hoje?”.

A palestra Produção de jornalismo na era digital foi realizada das 9h às 10h30 no dia 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista José Roberto de Toledo. Os palestrantes foram: Rodrigo Flores (e-mail: rflores@uolinc.com – download da apresentação) e Antonio Prada (antonio.prada@corp.terra.com.br – download da apresentação).