A vida como narrativa

Por Géssica Brandino (jornalista)

Colaboração de Juliana Conte (jornalista)

Uma sala lotada por jornalistas à procura de uma boa história e dos segredos para contá-la. A expressão dos jovens que preenchiam o espaço era de reverência. Como na obra de Rodin, “O Pensador”, a maioria mantinha o rosto sobre as mãos, na posição de ouvinte. Atenção voltada para uma jornalista que, com a fala doce e calma, falava sobre a importância de escutar o outro, observar cada detalhe, duvidar, complicar a pauta e perceber que aquilo que é silenciado é tão fundamental quanto o que é dito para que uma vida seja contada.

Eliane Brum (freelancer)

Assim, Eliane Brum narrou a história de HusteneCosta Pereira,que ela acompanha há nove anos.  Em2002, arepórter encontrou nele a personificação da pobreza contemporânea trazida pelo desemprego. Hustene era um excluído, que sentia falta dos bens de consumo aos quais havia tido acesso. A vergonha por não trabalhar o fazia se esconder dos vizinhos durante o dia e passar a noite em claro. O desespero e stress eram tamanhos que ele perdeu 30 dos 32 clientes durante esse período. Apesar de tudo, ele tinha uma trindade que o sustentava: religião, ideologia e o Corinthians. Como um filho que conta coisas à mãe, Hustene escrevia, num diário, para Nossa Senhora de Fátima. Já para comentar sobre sua visão política, traçava linhas para Che Guevara. Além disso, desde 1974, montava álbuns sobre a história do time do coração. “A vida é a narrativa da vida e o Hustene narrava a dele de um jeito muito particular”, contou Eliane.

Segundo a repórter, é preciso estar atento a tudo, pois o que parece trivial pode ser a peça chave para decifrar alguém. “A realidade é muito mais complexa do que aquilo que é dito. É aquilo que não é dito, o que quase foi dito,  o silêncio. A realidade é cheiro, textura e gestos. É tudo isso. A nossa obrigação, como jornalistas, como repórteres, é dar a complexidade do real”, ressaltou.

Mesmo após a publicação de “O Homem estatística”, ao final do governo FHC, a jornalista não rompeu o contato com os Costa Pereira. Na verdade, a família não deixou que ela, que esteve tão presente como “escutadeira”, deixasse a vida deles da noite para o dia. Por meio de telefonemas, emails, mensagens e visitas a repórter continuou a acompanhar a saga do brasileiro.

Em maio de 2005, Hustene finalmente conseguiu um emprego e chegou à classe C, a nova classe média brasileira. A mudança não foi meramente econômica.  A mesa, na qual antes havia arroz com limão, hoje está farta de carne. A vida deles, na qual o futuro era incerto, hoje está repleta de sonhos. Foi somente em 2009 que Eliane, ao ser convidada para uma palestra sobre o governo Lula, percebeu que tinha em mãos uma reportagem pronta sobre o período.  “Uma família no governo Lula”, publicada no início de 2011, é o retrato vivo de uma história que vai do desespero à esperança.

“O exemplo da família do Hustene é magistral, no sentido que ela nos dá a perspectiva de que nós, jornalistas, ainda podemos continuar sonhando em transformar o mundo. Com uma revolução? Não. Mas com a qualidade do texto e a investigação do nosso trabalho, que ajuda a formar novas consciências”, finalizou o jornalista Celso Falaschi, moderador da palestra.

A palestra “Uma família no governo Lula” foi realizada das 14h às 16h30 de 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, com parte do 6° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Celso Falaschi A palestrante foi Eliane Brum elianebrum@uol.com.br http://www.twitter.com/brumelianebrum. Clique para ler a reportagem Uma família no governo Lula e A história dentro da história.

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Veículos são criticados pela má cobertura sobre as preparações para a Copa de 2014

Da Redação

Foto: Vinicius Gorczeski (4° ano/ Metodista)

A três anos da abertura da Copa do Mundo no Brasil, já é consenso de que as obras de estádios e infraestrutura do país estão muito atrasadas e que, ao contrário do prometido, o poder público está entrando com investimentos milionários em forma de isenção de impostos.

Com a pressa para entregar os estádios e aeroportos a tempo para o evento, abre-se uma brecha para a corrupção que repete o que foi visto no Pan-Americano realizado no Rio de janeiro em 2007, avaliam os jornalistas esportivos Mauro Cezar Pereira, da ESPN, e José Cruz, do UOL. Ambos participaram da palestra “Como investigar obras para a Copa do Mundo 2014”, durante o 6º Congresso Internacional da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Para os dois palestrantes, existe uma conivência entre os veículos de comunicação ao falar sobre a seleção brasileira e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Pereira mencionou um episódio ocorrido em março deste ano, quando a Fifa (órgão mundial do esporte) criticou a organização da Copa de 2014 pelo atraso no cronograma.

“No dia seguinte, enquanto a Folha [de S. Paulo] deu uma matéria falando dos atrasos, a Globo deu na manchete: ‘Calma Fifa’. É assustador”, diz o jornalista da ESPN.

José Cruz, Mauro Cezar Pereira e Plínio Bortolotti

A abordagem ufanista também acaba omitindo o real significado dos altos valores das obras. Pereira comparou o custo das obras do Maracanã e do “Itaquerão” (provável nome do eventual estádio do Corinthians), que estão previstos em R$ 1 bilhão cada,segundo as contas atuais, e a nova arena do Palmeiras, que está orçada em R$ 300 milhões, de acordo com a WTorre, construtora do estádio.

“É claro que tem uma coisa errada, mas se o jornal fala o valor de 1 bilhão sem comparar, o cara vê  e pensa:  ‘Ah, deve custar isso mesmo´. As pessoas não se escandalizam mais com as cifras da Copa do Mundo. E não é assim”, afirma.

Cruz mencionou o exemplo do Panamericano de 2007, realizado no Rio de Janeiro, para explicar que, mesmo que os gastos não estivessem superfaturados, não haverá legado social para as cidades que ganharão um novo estádio, ou mesmo para a capital fluminense que abrigará as Olimpíadas em 2016. “Não teve legado social do Pan para a cidade [do Rio de Janeiro]”.  Segundo o jornalista, relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) afirmam que os jogos de 2007 custaram R$ 3,5 bilhões.

Além do custo total, Cruz mencionou uma série de irregularidades apontadas pelo TCU nos gastos do evento. “O relatório do TCU apontou que compramos 5.000 tochas, mas recebemos apenas 500. E também superfaturaram em tecnologia da informação. Faltando um mês, a Polícia Federal disse que as instalações compradas não eram adequadas”. Isso causou uma compra às vésperas do evento, conclui, que gerou um superfaturamento de 16.000%.“Nós estamos vendo isso se repetir e precisamos ficar atentos”.

As empreiteiras, os dirigentes do futebol e os políticos são os principais responsáveis pelo atraso das obras, dizem os dois jornalistas. “Quem são os principais financiadores de eleição? São as empreiteiras. A nossa política é dependente de pessoas que têm interesse que as coisas continuem assim”.

Governo federal

Desde a chegada de Lula ao Planalto, dizem os palestrantes, Ricardo Teixeira voltou a ter um poder que ele havia perdido no segundo mandato do Fernando Henrique Cardoso. “No governo FHC e a CPI da CBF, Ricardo Teixeira nem ia à Brasília. Mas, o Agnello [Queiroz, que assumiu o recém-criado Ministério do Esporte entre 2003 e 2006] quis se aproximar do futebol”, explica Cruz.

O jornalista do UOL afirma que o objetivo de Lula na época era usar a seleção brasileira para pavimentar o seu caminho político internacional. “Assim, eles colocaram o Brasil na agenda das competições internacionais”.

Oito anos depois, Ricardo Teixeira ganhou um poder no país que nenhum político tem, avalia Pereira, tornando governadores, deputados e presidentes submissos ao presidente da CBF.

“Até o Geraldo Alckmin pretendia ir até o CT do Corinthians quando a seleção treinava lá para conversar com o Ricardo Teixeira, que não estava lá. Não satisfeito, o governador de São Paulo foi até o Rio de Janeiro para tirar uma foto patética ao lado do presidente da CBF”, diz Pereira.

A palestra Como investigar obras para a Copa do Mundo 2014 foi realizada das 9h às 11h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji(www.abraji.org.br). Palestrantes: José Cruz (UOL), Mauro Cezar Pereira (ESPN) (download da apresentação). Moderador: Plínio Bortolotti (O Povo/Abraji)

O jornalista de investigação, peça clave na imprensa de fronteira

Por Andrea Rivera (4°ano/ Universidad Carlos III de Madrid/ Intercâmbio na Universidade de São Paulo)

“No Paraguai, a imprensa é o meio de comunicação que mais influencia exerce sobre a população e, além disso, é muito melhor do que a imprensa brasileira”, indicou o mediador José Roberto de Toledo na apresentação da palestra “Investigação transnacional: as conexões do PCC com o narcotráfico no Paraguai”, que contou com a presença do jornalista paraguaio Rosendo Duarte como palestrante.

A conferência foi uma explicação de como o Primeiro Comando da Capital (PCC) se tornou a principal organização criminosa no Paraguai, embora esteja presente em toda a América Latina. Além disso, Duarte prestou uma especial dedicação para a cidade Salto del Guairá, na que o PCC teve a sua origem no país vizinho.

Rosendo Duarte (ABC Color)

Como a principal atividade do PCC no Paraguai destaca o comércio de drogas, principalmente a a maconha, considerada a melhor do mundo. Essa atividade se vê facilitada pelo fato de que no Paraguai são utilizadas aproximadamente de 3 a 5 mil hectares por ano para a produção de marijuana dedicada ao consumo externo, superfície de terra que rende uma produção que oscila entre os 9 e 15 milhões de quilogramas.

Para combater essa realidade, foi criada a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) a qual, no ano passado, destruiu 1,013 hectares de terra dedicada à plantação de maconha, o que daria uma produção de 3,040,000 quilogramas.

Historicamente, o tráfico de drogas e armas no Paraguai começa com a instauração da República, fato que se viu motivado com que a marijuana é nativa do país e desde sempre foi utilizada pela comunidade dos Guaranis nos seus rituais e cultos. Hoje, foram trazidas da Europa sementes modificadas que oferecem uma maior qualidade e, na composição, 22% a mais de uma droga ainda mais forte, a THC, a abreviação para tetrahidrocanabinol, um composto químico encontrado na planta cannabis, que, quando usado, seja através de ingestão ou inalação, em doses baixas atua como redutor da dor e pode reduzir a agressividade, estimular o apetite e ajudar a reduzir a náusea. Em doses elevadas podem levar a alterações na percepção de tempo e espaço, sentimento de felicidade, ou sentimentos de fadiga.

O PCC chegou ao Paraguai entre os anos 2004 e 2005 e foi constituído, na sua maior parte, por delinquentes que fugiram do Brasil. Não obstante, também conta com os chamados “soldados brancos”, isto é, fichas limpas que unicamente vão fazer negócios de contrabando ou de abastecimento de entorpecentes, e voltam para o Brasil. Os delinquentes que se afiançam no país vizinho procuram uma nova identidade, tanto brasileira quanto paraguaia, ajudados pela corrupção policial existente.

Dentro dessa situação em que os delinquentes conseguem novas identidades, para Duarte resulta hilário que eles nunca são reconhecidos digitalmente, nem no Paraguai nem no Brasil, situação que facilita a sua ocultação, e dificulta o conhecimento real de quem são.

Outra realidade que resulta incoerente para Duarte é o fato de que as armas e as drogas não encontram resistência nas fronteiras. Seguindo esta linha, o palestrante considera que o grande problema que o jornalismo investigativo tem no Brasil é que não se investiga como é possivel o transporte dessas armas e drogas quilômetro atrás de quilômetro sem nenhum impedimento.

Os assistentes à palestra também puideram conhecer a história de Cándido Clovi, quem foi conhecido como Adrian Alex Lima e como “Cabelo”, homem que levou o estilo do PCC ao Paraguai em 2005 e se viu envolvido em vários atracos e assasinatos perpetrados em Salto del Guairá.

Para Duart, existe uma “necessidade de trabalhar conjuntamente no jornalismo investigativo”, embora esse tipo de jornalismo não seja fácil” pois, no seu caso pessoal, tem que ter viver com um policial nas suas costas, situação que apontou ser “comum na imprensa de fronteira”.

A palestra Investigação transnacional: as conexões do PCC com o narcotráfico no Paraguai foi realizada das 11h às 12h45 de 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista José Roberto de Toledo (toledo@abraji.org.br). O palestrante foi:  Rosendo Duarte (Rduarte@abc.com.py) (

O futuro dos bancos de dados na internet

Por Taina Mansani (Cientista Social/ USP e jornalismo/ Cásper Líbero)

“Como fazer dados falarem?” Essa tem sido a preocupação de Aron Pilhofer, diretor de interatividade do jornal norte-americano The New York Times. Em palestra sobre Data-driven journalism: o futuro dos bancos de dados na internet, Pilhofer falou sobre como a linguagem web pode auxiliar na visualização dos dados para mostrar o que é importante.

Ele é responsável por uma equipe de repórteres e programadores que “contam histórias” através de ferramentas da internet. Pilhofer concorda que, além da interatividade, a web pode ser um campo em expansão para o trabalho jornalístico. O profissional que dominar essa linguagem certamente terá espaço no mercado de trabalho, que é concorrido.

Aron Pilhofer (The New York Times)

Para o moderador da palestra e diretor de infografia e multimídia da revista Época, Alberto Cairo, se há uma área dentro do jornalismo que está em expansão é a visualização de dados na internet.

Pilhofer é pioneiro no trabalho com bancos de dados em linguagem acessível na web. Também foi editor do banco de dados do “Center for Public Integrity” (organização sem fins lucrativos que atua para transparência de informações e auxílio ao jornalismo investigativo).

A palestra Data-driven journalism: o futuro dos bancos de dados na internet foi realizada das 14h as 15h30 no dia 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi a jornalista Aron Pilhofer (The New York Times).

Investigação nos esportes: “Para perturbar os poderosos”

Por Marta Santos (2º ano / PUC-SP)

Para Andrew Jennings, único jornalista banido de todas as conferências da FIFA, o trabalho do repórter é de perturbar os poderosos. “A gente tem que fazer reportagens agressivas, as pessoas gostam de reportagens assim”,  afirma. Para ele, é desta forma que as pessoas veem a realização de um bom trabalho jornalístico.

Durante sua palestra, Jennings apresentou diversos documentos e fotos que mostram as relações entre empresas de marketing e os dirigentes de instituições esportivas. Ele conta que demorou 9 anos para conquistar a confiança da fonte que lhe passou os documentos, mas que ela aprovava o seu trabalho, e por isso lhe entregou os papéis.

Nesses documentos aparecem nomes como o de Nicolas Leoz, atual presidente da Confederação Sul-americana de Futebol (CONMEBOL), Issa Hayatou, um dos vice-presidentes da Federação Internacional de Futebol (FIFA), e Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Todos acusados de receber propina da agência suíça de marketing esportivo “International Sports &Leisure”, conhecida como ISL.

Ao se referir a João Havelange, ex-presidente da FIFA e atual membro do Comitê Olímpico Internacional (COI), como “o poderoso chefão”, Jennings afirma que ele também aparece em escândalos envolvendo a mesma empresa. As investigações do caso começaram depois que a BBC colocou no ar o programa que apontava para a suspeita de que Havelange e Ricardo Teixeira teriam recebido suborno nos anos 90.

Outro nome muito citado foi o de Orlando Silva, Ministro do Esporte. Em 15 de junho, ele teria afirmado que Ricardo Teixeira deve ser considerado inocente, pois não estava sendo investigado pela FIFA. Para Jennings, não há investigação porque Teixeira é “protegido”. O jornalista acredita que é vergonhoso para o Brasil achar que o país depende dessas pessoas para realizar a Copa do Mundo.

Andrew Jennings (Panorama BBC)

Participando de uma entrevista coletiva com o atual presidente da FIFA, Joseph Blatter, relembra Jennings, todos os jornalistas normalmente faziam perguntas muito educadas, que não causam desconforto algum a Blatter. Então Jennings levantou-se e disse: “Ei, Blatter, você aceitou suborno?”. Ele afirma que não tratou o presidente com o devido respeito, pois sabia que ele era corrupto, mas conseguiu a manchete: Blatter nega ter recebido suborno.

O jornalista finalizou sua palestra com um convite aos jornalistas brasileiros. Ele sugeriu a criação de um site que abrigasse matérias e artigos sobre o país, com tradução para o inglês, para que todo o mundo pudesse acompanhar. Ao terminar sua fala, diversos estudantes e jornalistas manifestaram interesse no projeto.

A palestra Investigação em esportes: conluios da FIFA e do COI”  foi realizada das 11h às 12:30h de 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada por Sérgio Xavier -sergio.xavier@abril.com.br. O palestrante foi: Andrew Jennings andrew-jennings@btconnect.org

Violência agrária no Brasil é menos pautada por correspondentes, afirma jornalista

Por Taina Mansani (Cientista Social/ USP e jornalismo/ Cásper Líbero)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/Metodista)

Nos últimos anos, o tema da violência agrária no Brasil perdeu espaço no noticiário internacional. A redução dos casos de conflitos agrários e a desmobilização do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) são alguns dos motivos. A avaliação é da correspondente internacional no Brasil do jornal argentino “Clarín”, Eleonora Gosman.

Eleonora Gosman (Clarín)

“Vamos reconhecer que durante o período Lula a atividade do MST foi menor, seja porque estavam muito ligados ao PT, ou por outros motivos”, acrescenta. Outra dificuldade apontada pela jornalista é a distância entre as regiões do Brasil. “Por ser um país grande, para quase tudo é preciso avião”, afirmou.

A última notícia sobre o tema violência agrária noticiada por Gósman foi a morte da missionária Dorothy Stang (2005), decorrente de conflitos agrários contra fazendeiros. Desde então, ela tem feito coberturas mais relacionadas a temas econômicos.

Apesar de perder espaço no noticiário internacional, o problema persiste no Brasil. No último dia 24 de maio o casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foi assassinado a tiros no Pará, por conta de conflitos contra a ação de madeireiros.

A palestra O Brasil visto de fora: o trabalho dos correspondentes foi realizada das 9h as 11h30 no dia 02 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). O palestrante foi a jornalista Eleonora Gosman (Clarín).

Como investigar empresas privadas

Por Alexandre Dall’Ara (3º ano/ ECA-USP)

Foto: Lina Ibañez

Jornalismo econômico exige “investimento”. É preciso conhecer as leis vigentes, as leis anteriores, o funcionamento das agências reguladoras, conhecer o mercado de ações, as empresas, as pessoas por trás delas. “Você precisa saber do que está falando”, conta Elvira Lobato, da Folha de S. Paulo.

Investigar empresas é ainda mais delicado, diz a jornalista. Quando o foco são as estatais ou empresas com alguma verba que envolva o governo, alguns instrumentos podem ajudar. A repórter explica que os contratos com o Estado são sempre públicos de alguma forma. Pode-se recorrer ainda ao TCU (Tribunal de Contas da União), aos ministérios, à Receita, entre outros órgãos. A relação entre capital privado e o Estado também garante boas pautas, segundo Lobato. “Sempre que você tem dinheiro público e interesse privado você tem um campo propício para o jornalismo investigativo”.

Mas o acesso a informações de empresas privadas é mais restrito. Se as empresas têm ações negociadas em bolsa, elas devem publicar balanços públicos, o que pode ajudar na apuração.  Caso o capital seja fechado, o trabalho fica impossível, diz a repórter. A única opção, segundo ela seria conseguir uma fonte, que costuma aparecer quando existe algum tipo de disputa. “Quando têm sócios brigando, tem a possibilidade de a informação chegar ao jornalista”.

Com tantas dificuldades, Lobato conta que já chegou a comprar ações com direito a voto (ações ordinárias) de empresas para poder participar das reuniões de conselho. “É muito difícil achar alguém que te venda o pacote mínimo de ações, mas eu já consegui, paguei 200 reais”.

Elvira Lobato (Folha de S. Paulo)

Em outra investigação, sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, a jornalista conseguiu a lista de todas as rádios da Rede Record passando-se por uma anunciante. Ela ainda recorreu a estratégias mais prosaicas, como o uso de informações da própria biografia de Edir Macedo. “Se um juiz pegasse o livro e olhasse a fundo, ele condenava o bispo só pelo que está lá”.

A matéria resultou numa série de mais de 100 processos contra Lobato. Como as ações eram movidas por fiéis, em juizados de pequenas causas, não foi possível unificá-los e a jornalista conta que adotou uma estratégia de guerra junto com o jornal para se defender. “Eu tinha medo de levar uma pedrada na cabeça de algum fiel”, conta. Apesar de perambular por vários municípios brasileiros, a repórter conta que não não foi condenada em nenhum processo.

A palestra Como investigar empresas privadas foi realizada das 14h às 15h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Elvira Lobato (Folha de S. Paulo)

“Investigamos para informar, não para punir”

Por Camila Moura (2º ano/ FIAM)

Quando falamos sobre ética no jornalismo, um assunto recorrente é a utilização de gravadores, câmeras escondidas, e o uso de falsa identidade por parte do profissional. Eduardo Faustini, o repórter sem rosto do Fantástico, defende a utilização desses artifícios desde que o conteúdo exposto seja de interesse público.

“Esse país é roubado todo dia, o jornalismo investigativo no Brasil é um dos melhores do mundo porque nossa matéria prima é farta”.

Faustini revelou que a matéria sobre a segurança dos aeroportos que foi ao ar em janeiro deste ano, na qual ele desembarca nos principais aeroportos do país com uma AR15 na mala sem ser pego, surgiu depois que uma funcionária do aeroporto disse que ele não poderia embarcar com um cortador de unhas, visto que a lixa seria pontuda e ia contra as normas de segurança.

Palestra com Eduardo Faustini (TV Globo)

Essa matéria reforça a glamourização que o público faz em torno do uso das micro câmeras. “A micro câmera quebrou a barreira do padrão Globo de qualidade, pois a imagem é extremamente ruim e o áudio é absolutamente condenável. Um material muito pobre em qualidade técnica, mas muito rico em informação e emoção”, afirma Tyndaro Menezes, também jornalista da TV Globo e mediador.

A dificuldade é encontrar no mercado, equipamentos de qualidade, que deem segurança para trabalhar. “Se você tem uma câmera é como se não tivesse nenhuma, se você tem duas, uma delas poderá funcionar, e se tiver três, pode ter a sorte que duas funcionem bem”.

Para ambos os profissionais, as reportagens de televisão dependem extremamente de imagens, áudio e vídeo.

A palestra Investigação em TV: câmera escondida e outros métodos foi realizada das 9h às 11h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Eduardo Faustini (TV Globo)

Desafio econômico de Dilma Rousseff está na sustentabilidade

Por Vinicius Gorczeski (4° ano/ Metodista)

Foto: Lina Ibañez

Não é só a elevação dos preços – conhecida e repetida com frequência nos jornais como inflação – que a presidente Dilma Rousseff terá de enfrentar na política econômica. A insistência do indicador do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), em bater no teto da meta de inflação do Banco Central, que no acumulado 12 meses está em 6,77% (o valor máximo estipulado é de 6,5%), não é nem o principal problema, segundo a colunista de “O Globo” Miriam Leitão.

Miriam Leitão (O Globo)

Questões sustentáveis, como a preservação da Amazônia, que cobre 60% do território brasileiro, e demais regiões, cobertas por mata Atlântica, cujas áreas remanescentes não superam os 7%, serão assuntos a serem discutidos e reportados pelos futuros jornalistas econômicos. Temas se unem porque, segundo Leitão, falar de um é falar de outro. Escassez de recursos naturais é sinônimo de perda de dinheiro.

“Quanto custa para o país manter ou não suas reservas em prol do desenvolvimento econômico? Entendo a biodiversidade da Amazônia como uma floresta não desbravada. Imagine queimar essa biblioteca sem conhecê-la”, diz. Ela comenta que esses dilemas ainda esbarram em práticas ilegais, como na exploração de madeira e uso de carvão ilegal na siderurgia. “Não sejamos ingênuos, empresas fazem vistas grossas sobre como os fornecedores obtêm suas matérias primas de seus respectivos distribuidores”, diz Leitão, ao destacar que o papel do jornalista econômico também está em fiscalizar a cadeia de distribuição desses recursos a fim de checar ilegalidades – quanto a dinheiro e recursos naturais.

Outra crítica quanto ao tema é o desenvolvimento versus preservação ambiental. Para sustentar a ideia, a colunista cita a construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará. A promessa governamental é de que a obra oferecerá 11 mil megawatts de energia. “Isso é uma mentira. A capacidade média de geração é de 4,5 mil megawatts, e há especialistas que apontam que isso será possível apenas por dois meses do ano, nos demais não haverá, por conta do clima, com muita seca, capacidade para essa quantidade”, critica. “Será que vale a pena tanto desmatamento com a contrapartida do que Belo Monte vai conseguir propiciar?”, completa, ao questionar sobre a razão pelas quais alternativas de desenvolvimento energético não são adotadas, como a eólica ou a solar; não poluentes e que não desapropriariam moradores locais – caso da população que mora nos entornos da barragem de Belo Monte.

Aumentando a complexidade da discussão, Leitão também comenta se, apesar de tudo, é possível ignorar o potencia hídrico da Amazônia para produção de eletricidade. “Essa é a fronteira da discussão: o que vale mais?” – temas para os futuros repórteres de economia ajudarem a responder.

INFLAÇÃO

Autora do livro “A saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda”, em que reporta a evolução do poder de compra do dinheiro no Brasil, com hiperinflação há 30 anos, Leitão afirma que a preocupação atual da imprensa em torno do indicador é forma de pressionar por ações que mantenham os níveis estáveis, ao contrário de uma época em que os preços variavam ao longo de um único dia. Índices que superaram, em 15 anos que antecederam a execução do plano real, a impressionante soma de 13 trilhões e 342 bilhões por cento.

“Fiquei ainda mais feliz de ver que nosso trabalho serviu para explicar todas as mudanças complexas, planos fracassados para conter a inflação, e como o cidadão precisa agir sob novas políticas”, comemora Leitão.

Ela afirma que, durante a apuração do livro, percebeu que, apesar de sucessivos planos fracassados para tentar recolocar a economia nos eixos o brasileiro mantinha crença de haveria uma solução para o aumento de preços. A constatação de Leitão é de a população aprendeu a “gostar de viver com inflação em níveis baixos”. Isso porque, proporcionalmente, o poder de compra do dinheiro é maior.

Apesar de lançar luz sobre a inflação, Leitão também destacou que a ideia era mostrar a turbulência pelo qual passou o país em 30 anos, com muitas trocas de ministros da fazenda, calotes e o consumidor, que em meio ao “tumulto” buscou fiscalizar e entender todo o processo de perto.

A palestra Cobertura Econômica: desafios no governo Dilma foi realizada das 14h às 15h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: MiriamLeitão (Globo) miriamleitao@oglobo.com.br, Moderador: SergioLeo (Valor Econômico)

Uma classe que traz novos paradigmas

Por Michele Francisco (3º ano /Anhembi Morumbi)

A classe C é uma classe em plena ascensão no Brasil e tem se destacado em diversos setores da sociedade e da economia. Segundo pesquisa da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), essa classe cresceu 47,94%, está emergindo e tem um poder de força no país. Para a editora sênior da revista Exame em Brasília e representante do Brasil no Comitê Internacional da Online News Association (ONA), Angela Pimenta, o “jornalismo precisa de um canal direto para falar com essa classe, que quer construir carreira, quer trazer melhorias para o seu bairro, e são formadores de opinião”.

“Os jornalistas estão em um território novo e desconhecido. A classe C não quer ser tutelada, ela quer é ser informada”, afirma Pimenta. Para a jornalista, na medida em que a classe média sobe, ela se torna mais consciente do seu poder de voto e do seu papel como pagadora de impostos. “Os jornalistas precisam cobrir de maneira mais interessante o que é relevante” conclui.

Marta Gleich (RBS), Mauricio Stycer (UOL) e Angela Pimenta (Exame)

O jornalismo on-line traz muitas oportunidades para falar de maneira mais intensa com a classe C, é uma classe que tem um peso inédito no consumo, no acesso à internet, e na formação da opinião pública. Pimenta acredita que é através desse canal que o jornalismo tem conseguido informar essa classe, e permitiu que passasse a refletir mais. “Não temos que ser um jornalismo apenas para a classe A e B, temos que trazer notícias com todos os segmentos da sociedade”.

Para Pimenta, o jornalismo de serviço, que é o “patinho feio” das redações, é um dos caminhos para abordar temas difíceis para algumas classes. É também a maneira para aproximar essa população do que eles precisam. A jornalista responsável pelo negócio de Internet do Grupo RBS, Marta Gleich, se utiliza das novas mídias para prestar serviços de interesse público. “A linha de comunicação era só para os jornalistas, a Revolução Digital trouxe a interatividade, o que aproximou o público do veículo. Essa proximidade nos possibilitou receber críticas, cobranças e novas ideias de pautas” afirma.

“O interessante não é o jeito que contamos a história, e que está mudando de uma maneira rápida, interessante”, conclui Gleich. Ela enfatiza que o importante é ter o público, as histórias e o trabalho dos jornalistas no meio. “É preciso ter uma visão multimídia da pauta, não tem mais limite para a maneira de contar as histórias”. Para ela o jornalismo “buraco de rua” que é a pauta mais chata de se fazer, tomou novos rumos com as mídias digitais, deu a ele mais visibilidade, mais repercussão.

A palestra A reinvenção da notícia? O que todo repórter deve saber sobre a expansão das novas mídias no país foi realizada das 11h às 12h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrante: Marta Gleich (RBS) e Angela Pimenta (e-mail apimenta11@gmail.com – download da apresentação). Moderador: Mauricio Stycer (UOL)