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Jornalismo Investigativo – e o que acontece agora?

Por Eduardo Nascimento (3 ano / ECA-USP) , Jéssica Mota (2º ano/ Mackenzie), Maria Clara Lima (4º ano / Unesp) e Marta Santos (2º ano /PUC – SP)

Foto: Lina Ibañez (publicitária)

Fernando Rodrigues, Rosental Alves, Joshua Benton, David Donald, Bill Allison e Brant Houston

Depois de três dias intensos, em que 125 palestrantes discursaram em 69 cursos e paineis, o 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo terminou com uma mesa em que estavam grandes nomes do jornalismo nacional e internacional, debatendo quais serão os rumos do jornalismo investigativo na era digital. O problema atual é que a receita vinda da internet ainda não é suficiente para bancar grandes investigações e o modelo que se estabeleceu nos jornalismo on-line é de textos curtos e pontuais.

Mesmo assim Rosental Calmon Alves, homenageado do evento, apresentou uma visão otimista sobre o assunto. Para ele “nunca foi melhor ser jornalista do que agora”, pois o mundo de ferramentas trazido pela internet possibilita inúmeras novas formas de jornalismo. Alves foi acompanhado de Joshua Benton (Nieman Lab), David Donald (The Center for Public Integrity), Brant Houston (Global Investigative Journalism Network), Bill Allison (Sunlight Foundation) e Fernando Rodrigues (Abraji).

Benton, que dirige o Nieman Journalism Lab de Harvard, concorda com Alves e afirma que jornalismo investigativo não é só para os repórteres mais experientes. Para ele, investigação pode ser feita em qualquer gênero de reportagem: “você pode ter parágrafos investigativos, frases investigativas dentro do texto”.

David Donald, especializado em banco de dados, crê que a chave para ser bem sucedido no mundo digital está em chamar a atenção no meio da névoa cibernética de informação. “Para o jornalismo investigativo quebrar essa barreira, ele tem que conseguir ser lido”. Por isso, Donald acredita que editores nunca foram tão necessários, para sugerir quais plataformas midiáticas podem ser usadas como o conteúdo conseguidos pelos repórteres.

Ele também afirma que o jornalista do futuro precisa saber lidar com uma gama variada de dados para investigação. Bill Allison ressalta o papel do jornalista nesse sentido – como hoje o custo para obter informações é muito baixo, o jornalista não precisa ir longe para conseguir, mas “ainda é preciso ter um jornalista para fazer boas perguntas”.

As fundações e as escolas

Um dos meios que o jornalismo investigativo encontrou para se bancar nesse começo de era é utilizando dinheiro de fundações – como acontece com a “ProPublica.com”, o “Knight Center for Journalism” e, aqui no Brasil, a “aPublica.org”. No entanto, nesse modelo todos os recursos vêm de poucas fontes, certas vezes de fonte única, o que o deixa muito frágil e dependente. Alves o defende mesmo assim, mas apenas como pontapé inicial para essas iniciativas: “dinheiro de fundação é dinheiro fundacional do projeto”, afirma.

Donald dá como exemplo de alternativa uma iniciativa do “Center for Public Integrity”, de oferecer assinaturas que garantam um conteúdo ou aplicativos extra, a exemplo do “pay wall” do New York Times. Já Benton acredita que um financiamento baseado majoritariamente em leitores não é viável, mas também nunca foi a fonte principal dos jornais estadunidenses, “nos EUA as pessoas não estão acostumadas a pagar por jornalismo”. Para Benton uma consequência inevitável da internet é que as “redações terão que diminuir”.

A mesa também foi unânime em afirmar que os cursos de jornalismo precisam se aprimorar. Para Houston, as escolas jornalísticas devem otimizar técnicas e habilidades. “O importante é dar aos estudantes lugar para trabalhar em suas matérias”, afirmou. Alves vê a criação de produtos jornalísticos para as comunidades universitárias como um grande viés para aprendizagem. Para ele, é importante dar espaço para o estudante criar. “Pratique, não teorize tanto”, sentencia o jornalista.

O professor como guia e aprendiz

A discussão entre teoria e prática nas escolas de jornalismo ultrapassou a mesa de debate. No final da palestra, Rosental Calmon Alves, avisou “ninguém está preparado para mudanças, mas o bonito desse processo é que dá para aprender juntos”. O jornalista homenageado no Congresso acredita que os professores de jornalismo precisam aprender a entrar em sinergia com a tecnologia e os alunos. “Não precisa ter medo de aprender, muito menos de ensinar”, diz. Ele lembra, ainda,  que o professor precisa reconhecer suas limitações e aprender com os alunos, sendo um guia e facilitador do processo de aprendizagem, e não apenas um ditador de verdades.

Bill Allison, da Sunlight Foundation, foi mais além, e comparou o jornalismo atual ao “new journalism” – jornalismo literário- incorporado as grandes redações nos anos de 1960. Para ele, por causa da efervescência daquela época, houve a necessidade de uma nova linguagem no jornalismo, resultando em uma reconfiguração das reportagens e até da apuração. “Imagino que se aquelas pessoas tivessem os recursos que temos hoje, o que elas teriam inventado?”, indagou ao constatar que o avanço tecnológico é uma ferramenta poderosa para o jornalista de hoje. Ele pede para que os estudantes de jornalismo sejam empreendedores e agarrem a oportunidade de se fazer algo novo. “Não existe isso de que os jornais vão acabar, e que não poderemos mais fazer reportagens investigativas”, para ele, é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre o jornalismo de qualidade e a era digital. É apenas uma questão de adaptação.

Rosental Calmon Alves explica como o ensino do jornalismo deve ser no contexto atual.

Rosental Calmon Alves fala da nova postura que o professor de comunicação deve adotar.

O encerramento do Congresso aconteceu no dia 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Fernando Rodrigues. Os palestrantes foram Rosental Alves, Joshua Benton, David Donald, Bill Allison e  Brant Houston.

Jornal impresso é a vela, Internet é a lâmpada

Eduardo Nascimento (3º ano / ECA-USP)

 

Fotos: Lina Ibañez (publicitária)

Quando questionado sobre o papel do jornalismo impresso na atualidade, Luciano Suassuna, diretor de jornalismo do portal IG, responde com um dito que atribui a um amigo, chefe de redação em jornal impresso: “Às vezes eu tenho a sensação que a gente está numa fábrica de vela, fazendo a melhor vela possível, só que está chegando a energia elétrica”.

Márcia Menezes (G1)

Suassuna afirma que o tema da palestra – “Em tempo real: o desafio de garantir a qualidade da informação na velocidade da internet” – é pergunta de quem trabalha em jornal e tem preconceito com internet. Isso porque, para ele, o impresso não tem mais razões de existir, se não para catalizar recursos e satisfazer desejos excêntricos de leitores – o que, no futuro, considera o seu único meio de sobrevivência. “Tem gente que usa rapé até hoje, não?”, compara Suassuna.

O diretor do IG afirma que “agilidade é qualidade”, e a verdadeira questão é como garantir a qualidade no papel em tempo da velocidade na internet. “Porque o problema de qualidade hoje é do impresso, não é do on-line”.

Márcia Menezes, editora-chefe do portal G1, também foi palestrante e concorda com Suassuna, pois a conclusão a que seu portal chegou, com base em pesquisa de conteúdo acessado, é que “ninguém quer ver notícia, elas querem ver coisas que estão acontecendo”.

Luciano Suassuna (iG)

Márcia crê que o desafio da internet é produzir conteúdo com uma menor quantidade de filtros. Ela afirma que repórter de internet é sempre um “repórter-editor”, que posta seus próprios textos, faz seus próprios vídeos e fotos, sendo necessária, portanto, uma formação muito mais completa. Suassuna concorda nesse ponto, e crê que hoje é necessário um novo jornalista. “O jornal tem muito mais estrutura para correção, a internet precisa de profissionais melhores.”

Sobre o “agilidade é qualidade”, Suassuna usa como exemplo a capa dos jornais no dia 11 de março deste ano, quando aconteceu, durante a madrugada do Brasil, um tsunami no Japão. Como todos os jornais já tinham fechado suas edições, as capas variavam entre diversos outros assuntos – todos menos relevantes, naquele momento, do que a tragédia japonesa.

O problema do impresso é que na hora que ele chega para você, ele não é mais útil, enquanto na internet, o tempo inteiro você tem a notícia que as pessoas querem ler”, diz Suassuna. O jornalista se orgulha do sucesso, na internet, de notícias como a do eclipse lunar do dia 15 de junho – alcançando picos de milhares de visualizações por minuto, e sendo esquecidas depois de seis horas.

Os erros

Em relação aos erros de escrita tão comuns na internet, Suassuna crê que os textos impressos hoje têm mais qualidade que os digitais porque os melhores profissionais ainda estão nos jornais impressos. Márcia crê que proporcionalmente a quantidade de erros é a mesma – há mais erros no on-line porque o volume de notícias publicadas é bem maior, e “o repórter que digita errado na internet também digita errado no impresso”.

A palestra Em tempo real: o desafio de garantir a qualidade da informação na velocidade da internet  foi realizada das 14h às 15h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrantes: Luciano Suassuna (iG) e Márcia Menezes (G1)

Os Migrantes que Importam

Por Eduardo Nascimento (3º ano / ECA-USP)

Foto: Alexandre Dall’Ara (3º ano/ ECA-USP)

Oscar Martínez e Marcelo Beraba em palestra sobre sequestro e massacre dos migrantes

Todo ano são cerca de 500 mil pessoas vindas da América do Sul e Central tentando cruzar a fronteira do México com os EUA – 98% delas vindas de Guatemala, El Salvador e Honduras. Essas pessoas percorrem mais de 5 mil quilômetros, em cerca de 25 dias de viagem, a pé, de trem, com “coiotes” (pessoas que alugam veículos para transportar ilegais), indo do sul ao norte do México. E esse meio milhão de pessoas simplesmente não existe para autoridades mexicanas, passam pelo país escondidos das autoridades, com o auxílio de alguns traficantes e a ameaça de outros. Foi vivendo por 7 meses nesse ambiente hostil que o repórter Oscar Martínez, do jornal El Faro, e sua equipe produziram dois livros e um documentário, contando a história dessas pessoas e tentando explicar essa complexa migração.

O ambicioso projeto existe desde 2006, ganhou o terceiro lugar no Prêmio Latino-americano de Jornalismo Investigativo, do “Instituto Prensa y Sociedad” (IPYS) e, em 2008, deu origem ao veículo “El Faro”, um jornal digital de grandes reportagens sobre corrupção, crime organizado e migração dentro da América Latina.  Os objetivos dos jornalistas eram vários, de compreender o vínculo da migração com o crime organizado a criar um perfil dos migrantes e das pessoas que os ajudavam no meio do caminho. Um exemplo desse último foco foi um grupo de mulheres que cozinhava e lançava a comida para o trem que passava, por vezes nem vendo o rosto das pessoas que ajudavam.

Martínez, escritor do projeto, conta que foram gastos 240 mil dólares na apuração. Foram quatro jornalistas além dele: uma documentarista e três fotógrafos espanhóis. Dessa verba, 70 mil se destinaram apenas para o documentário produzido por Marcela Zamora, chamado “Maria en Tierra de Nadie” (“Maria na Terra de Ninguém”, em tradução livre), que narra a história de mulheres migrantes que se tornam prostitutas no meio do caminho. Esse time viveu sete meses junto com os migrantes, tentando se misturar. Mas, como diz Martínez, “jornalista é um ator que não devia estar lá, é uma peça desencaixada numa estrutura social. Ali ou são migrantes, ou são narcotraficantes ou são habitantes”, e a barreira da linguagem por si já levou uma semana para ser rompida.

Outra dificuldade foi o fato de que os personagens buscados formavam uma população que nunca fica no mesmo lugar por muito tempo, que chega a lugares muito inacessíveis e que não denuncia, “que considera que as autoridades são seus inimigos”. Quando a população não denuncia, parece que não aconteceu nada, e “temos que ir a terreno arrancar as histórias”. Por isso Martínez conta que o processo de preparação para se iniciar a cobertura durou um ano. Antes de ir a campo, entraram em contato com autoridades como a Secretaria de Direitos Humanos do México, mas o órgão não tinha mais informações do que os repórteres. Toda informação que conseguiram vieram de órgãos independentes, como ONGs.
Los Zeta

Os trajetos que investigaram eram em parte dominados pelo grupo armada “Los Zeta”, antigo braço armado do “Cártel del Golfo”,  que depois se tornou autônomo e passou a trabalhar no sequestro de migrantes. A lógica para sequestrar pessoas sem documento, ilegais no país é tão cruel quanto parece: o padrão para esses migrantes ilegais é possuir família residente nos EUA, que paga pela entrada e pelo coiote que os leva até a fronteira. Os sequestradores agem extorquem o dinheiro da família, o que é rápido e oferece pouco risco. Sequestrar alguém rico causa muita visibilidade, enquanto os migrantes são esquecidos pelo poder estabelecido.

Para garantir sua própria segurança os jornalistas só se identificavam para as pessoas que entrevistavam e uma vez, para fotografar crianças prostituídas, fingiram ser um fotógrafo de arte e seu coiote que o guiava.
Martínez afirma que a base para esse tipo de matéria é a permanência. Não ter permanência, para ele, é o que faz interpretar mal. “Tudo para a pessoa que não conhece é uma grande conspiração”. O repórter segue o lema de “ficar para poder descobrir com o tempo”, pois acredita que não se pode contar a história de alguém sem experimentar um pouco do que essa pessoa viveu.

Quanto aos impactos dos dois livros (um contando as histórias, chamado “Los Migrantes que no Inportan”, outro de fotografias, chamado “En el Camino – la ruta de los migrantes que no inportan”), Martínez diz não ter visto mudança substancial nas políticas do governo mexicano, e também não sabia o destino de suas fontes “A maior parte das pessoas de quem escrevi, não sei onde estão, o que lhes aconteceu” , diz. Mas o projeto ainda tem uma última etapa não concluída: chegar às comunidades de origem, destino e trânsito dos migrantes. Este “novo” projeto se chama Sala Negra e atualmente já atua na Nicarágua, Honduras, Guatemala e El Salvador.

A palestra “Os migrantes que não importam: sequestros e massacres de migrantes a caminho dos EUA” foi realizada das 14h às 15h30 de 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Marcelo Beraba. O palestrante foi Oscar Martínez, para ver as apresentações mostradas na palestra, clique aqui, mais reportagem no site do El Faro.

Investigar crimes é mais do que acompanhar a polícia

Marcelo Rezende e Claudio Tognolli discutem dificuldades na cobertura policial

Por Eduardo Nascimento (3º ano/ECA-USP)

Foto: Vinicius Gorczeski (4º ano/ Metodista)

“Não tem glamour nenhum, e se você erra, pode destruir uma família”. É assim que Marcelo Rezende, 59, define o jornalismo investigativo. Desde os 17 anos na profissão, Marcelo já passou pelas maiores emissoras de televisão do Brasil e foi responsável pela entrevista, na TV Globo, com o assassino conhecido como “Maníaco do Parque”, em 2001. Em sua palestra no Congresso da Abraji comentou essa e outras duas matérias suas que considera emblemáticas para os diferentes tipos de jornalismo normalmente agrupados sobre a égide do jornalismo investigativo. “Há uma diferença brutal entre uma matéria de polícia e uma matéria investigativa”.

Outra matéria foi sobre o tráfico de cigarros na fronteira entre Paraguai e Brasil. Nesta, os jornalistas acompanham uma operação policial, o que, para Rezende, não foi jornalismo investigativo, apenas policial. “[Numa investigação,] policial é fonte, mas não é ponto de partida nem de chegada”, ele afirma. Mesmo assim, ele diferencia este trabalho de muitas matérias em que o jornalista só exibe aspectos positivos da ação policial. Para ele, esse tipo de trabalho “é uma mancha para o jornalismo, é publicidade”.

A segunda matéria foi a entrevista com o “maníaco”. Como na época o assunto era sensação nos meios de comunicação, havia uma grande fila de espera para conseguir uma entrevista. Para agilizar as burocracias, Rezende, que na época trabalhava na Rede Globo, foi direto no gabinete do governador. Com a aprovação desse, teve de convencer o juiz do caso a permitir sua entrada no presídio. O repórter diz que esse é um exemplo de uma matéria de esforço, em que a grande dificuldade é acessar a fonte – nestas, pesa muito o prestígio social do veículo e do próprio jornalista.

A última, que Rezende considera uma matéria puramente investigativa, tratava de policiais que, alegando realizar uma blitz contra o tráfico em uma favela, espancavam, extorquiam dinheiro e até executavam transeuntes, em 1998. Tudo começou dois anos antes, quando ele conheceu uma fonte que viria a lhe entregar um vídeo amador mostrando as ações da PM.

Quando o jornalista mostra a fita para a Rede Globo, a emissora queria por no ar sem apurar.  Rezende se negou a assinar a matéria caso não houvesse uma investigação sobre os personagens antes e arriscou um vazamento segurando a matéria por duas semanas. Foram 13 jornalistas trabalhando juntamente na apuração e toda informação inicial que tinham era um vídeo e a data em que foi feito.

As dificuldades vieram logo no começo, pois os repórteres tinham que identificar as pessoas para verificar a veracidade do vídeo, mas não podiam pedir ajuda nem para a PM, nem para moradores do local – pois poderiam alertar a PM, e perguntar para a Polícia era furar a si mesmo.

A pista usada então foi a placa de um dos veículos parados pelos policiais. A partir dela conseguiram o nome e endereço do dono. Rezende também pensou que um dos disparos dos policiais poderia ter acertado alguém. Perguntando no pronto-socorro mais próximo, o repórter descobriu o nome de mais um dos espancados, que acabou morrendo no hospital pelo ferimento à bala.

Com o nome e endereço dos dois em mãos, Rezende decidiu entrevistar o dono do carro, que foi arredio. Mesmo assim, o rapaz cede o nome e endereço, mas apenas porque Rezende foi bastante enfático na conversa: disse que ele com certeza morreria após a publicação do vídeo, e a única chance de sobreviver seria conversando com ele. “Não sei se é ético ou não ético, sei que atende ao interesse da sociedade”.

Para entrevistar o outro agredido, Rezende precisou fazer vigília na porta da casa de seus parentes; também o “avisou” dos riscos que corria e conseguiu uma entrevista. No dia seguinte o vídeo vai ao ar, e logo depois a Polícia Militar já liga para a redação informando o nome de todos os PMs envolvidos nos abusos – e todos são presos.

Rezende afirma que essa matéria só deu certo porque houve uma grande apuração: “uma fita que não queria dizer nada e só passou a ter voz verdadeira porque nós fizemos um trabalho de investigação, com tempo, podendo errar e correndo o risco de ser furado”. Para ele, jornalismo investigativo é um gesto de transpiração, seja na apuração, no medo de ser assassinado ou respondendo a processos na justiça.

Quando perguntado sobre suas motivações, é direto: “a graça disso é revelar algo que tenha interesse público, antes de começar, pensem se vale a pena”.

A palestra Crime: os Desafios da Cobertura Policial foi realizada das 09 h às 10h30 de 1º de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). A mesa foi moderada pelo jornalista Cláudio Júlio Tognolli. O palestrante foi Marcelo Rezende.